Lula venceu por 4,4 milhões de votos e precisa negociar no Congresso
Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, mas o PL terá a maior bancada da Câmara. Para governar, o presidente precisa negociar em Brasília.
Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Na noite de domingo (25), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) somou 64.256.232 votos para Lula e 59.826.041 para Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL). A diferença foi de 4.430.191 votos. Com 100% das seções apuradas, Lula teve 51,79% dos votos válidos, segundo os totais publicados pela imprensa a partir do TSE.
Essa vitória é clara. Mas voto para presidente não aprova lei. Quem governa precisa do Congresso, e o Congresso eleito em outubro tem outra cara.
Quem tem as cadeiras
A Câmara terá 513 deputados a partir de fevereiro de 2027, segundo o Congresso em Foco. O PL elegeu 121, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988, segundo o Correio da Manhã. A federação formada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e pelo Partido Verde (PV) terá 88 deputados.
No Senado, o PL terá 28 das 81 cadeiras, e o PT terá 9, segundo o Poder360. Mudanças na Constituição exigem três quintos dos votos em cada Casa, em dois turnos. Na nossa conta, isso dá 308 deputados e 49 senadores.
Com 121 deputados, nenhum partido chega sozinho a 257, a metade mais um da Câmara. Por isso, nenhuma proposta de emenda à Constituição (PEC) nem lei complementar passa sem acordo com outros partidos. Somados, PL e a federação do PT têm 209 deputados, ainda 48 abaixo da maioria absoluta.
Lula sabe disso. Segundo A Crítica, ele citou quem diz que “o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está mais conservador”.
O que o mandato precisa entregar
Essa é a melhor objeção ao governo, e ela tem parte de razão. O Congresso tem mandato próprio, dado pelo voto. Mas a composição é um fato a negociar, não um veto. Nossa leitura é que o mandato de Lula é para trabalhadores, renda e serviços públicos.
A primeira prova é a escala 6x1. A Emenda Constitucional (EC) 141 foi promulgada em 16 de outubro, depois que o Senado a aprovou por 75 votos a 1 nos dois turnos. A jornada cai para 42 horas em dezembro de 2026 e chega a 40 horas em dezembro de 2027, segundo o Correio da Manhã.
Mas a emenda deixa uma parte para depois. Uma lei complementar, que ainda será escrita, deve criar incentivos fiscais e de crédito para microempreendedores individuais (MEI), o pequeno negócio de uma pessoa só, e para pequenas empresas. Segundo o Brasil de Fato, sem essa lei o custo para os pequenos negócios fica sem resposta.
A segunda prova é o Orçamento de 2027. No fim de agosto, o governo enviou a proposta ao Congresso. Ela prevê superávit de R$ 18,6 bilhões antes de compensações, mas a meta é de R$ 73,2 bilhões. Para fechar a conta, o governo conta com cerca de R$ 64,6 bilhões em compensações, sobretudo precatórios, que são dívidas da União decorrentes de decisões da Justiça, segundo o Congresso em Foco. Ou seja, a conta depende de o Congresso aprovar essas compensações.
Lula disse, na noite de domingo: “Foi o povo que escolheu o Congresso. E é com ele que eu vou conversar.” A frase reconhece o limite do mandato, e isso é correto. Negociar não é concessão. É o caminho para juntar os votos que uma emenda constitucional exige. Negociar também não significa aceitar tudo: significa levar a pauta ao plenário e defender o texto votação por votação.
O que diz Lula: Na noite de domingo (25), afirmou que o povo escolheu o Congresso e que vai conversar com os parlamentares eleitos, segundo a CNN Brasil.
Nossa tese é que o mandato de 51,79% só se cumpre se o governo negociar com o Congresso eleito em outubro. Quem governa por confronto arrisca travar a pauta do trabalho, da renda e dos serviços públicos. Esse é um argumento, não uma previsão. Os 4,43 milhões de votos dão a Lula o direito de governar. Não dão a ele 308 votos na Câmara.
Como fizemos: Usamos os totais finais do TSE (100% das seções) divulgados pela imprensa em 25 e 26/10/2026; o portal do TSE não estava acessível. A Câmara e o Senado foram conferidos nas composições do Congresso em Foco, do Correio da Manhã e do Poder360, de 5/10/2026. Os limites de 308 deputados, 49 senadores e 257 votos são nossos cálculos, feitos sobre 513 e 81 cadeiras. A fala de Lula aparece com pequenas diferenças entre veículos; usamos a transcrição da CNN Brasil. Os números podem mudar com trocas de partido e posse de suplentes.
Fontes
- Discurso de Lula após a vitória sobre o Congresso — CNN Brasil
- Resultado final do 2º turno, com dados do TSE — Bloomberg Línea (acesso em 25/10/2026)
- Eleições 2026: Lula é eleito presidente do Brasil — InfoMoney
- Nova Câmara: veja os 513 deputados federais eleitos em 2026 — Congresso em Foco
- PL elege 121 deputados e terá maior bancada da Câmara desde a Constituição de 1988 — Correio da Manhã
- PL terá a maior bancada do Senado a partir de 2027 — Poder360
- Lula diz que não escolheu o Congresso e que vai governar para todos — A Crítica
- Congresso promulga fim da escala 6x1 com presença de Lula — Correio da Manhã
- Promulgada, escala 5x2 passa a valer na semana anterior ao Natal — Brasil de Fato
- Confira a íntegra do orçamento de 2027 e veja os principais números — Congresso em Foco
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — Planalto (art. 60, §2º, e art. 69)
- Congresso Nacional (30940584791) — Agência Senado, Wikimedia Commons (CC BY 2.0)



