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Ministérios

Pisos da saúde entram em estudo de corte de R$ 250 bi

Equipe de Flávio estuda corrigir o piso da saúde só pela inflação, e não mais pela arrecadação.

Três homens de terno posam diante de um grande equipamento de radioterapia branco, numa sala hospitalar com monitores na parede.
Claudio Lottenberg (à esquerda), então presidente do Einstein, com o então vice-presidente Michel Temer e o então ministro da Saúde na inauguração do Centro de Oncologia do hospital, em São Paulo, em 9 de dezembro de 2013.Foto: Anderson Riedel / Vice-Presidência da República / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 28 de agosto, Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), anunciou o médico Claudio Lottenberg como seu ministro da Saúde, caso seja eleito. Lottenberg é ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e foi secretário municipal de Saúde da cidade em 2005. No debate da Band, em 18 de outubro, o candidato prometeu um “SUS padrão Einstein”, ou seja, o Sistema Único de Saúde (SUS) com o padrão do hospital.

Há ainda uma mudança com efeito direto no dinheiro da saúde. Ela não é promessa pública: consta de um estudo da equipe econômica sobre os pisos de saúde e educação.

O piso é o valor mínimo que a União precisa gastar em saúde todo ano. Pela regra atual, ele equivale a 15% da receita corrente líquida (RCL), a base de arrecadação usada no cálculo. Segundo a IstoÉ Dinheiro, que cita a Folha, a equipe estuda corrigi-lo só pela inflação, e não mais pela arrecadação. O estudo integra um corte de cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 250 bilhões, em despesas obrigatórias.

O que o plano diz, e o que não diz

Em abril, o Aos Fatos e a Agência Lupa classificaram como falsa a frase viral que atribuía a Flávio a privatização do SUS. A Lupa concluiu que a privatização total seria inconstitucional, pois a Constituição, no artigo 196, trata a saúde como direito de todos e dever do Estado. A participação privada é permitida de forma complementar. Já os trechos do plano publicados pelo SBT News não mencionam vale-saúde, planos de saúde subsidiados nem o piso da saúde.

O plano prevê, segundo o SBT News, parcerias com organizações sociais (OSs), entidades privadas sem fins lucrativos que administram unidades públicas por contrato. Segundo a Agência Brasil, o plano também propõe um prontuário eletrônico compartilhado com hospitais privados. Em 16 de outubro, o Aos Fatos verificou que a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), criada em 2020, já cumpre essa função em parte. Mas nem todos os prontuários estão integrados a ela.

O piso da saúde em jogo

Quando a arrecadação cresce mais que a inflação, um piso corrigido só pelos preços fica menor do que pela regra atual, ano após ano. Para dar escala, o corte estudado, de cerca de R$ 250 bilhões, é da mesma ordem do piso da saúde de 2026, como mostra a Tabela 1. O Diário do Grande ABC (DGABC) informa R$ 247,5 bilhões para o piso e R$ 254,9 bilhões na proposta orçamentária. Nas fontes consultadas, não há divisão do corte entre pisos e outras despesas.

O corte estudado é da mesma ordem do piso da saúde de 2026 Valores em R$ bilhões; piso de 2026 e corte em estudo, outubro de 2026

Referência R$ bi
Proposta orçamentária do piso da saúde de 2026 254,9
Corte de cerca de 2% do PIB em estudo 250
Piso da saúde de 2026 247,5

Fonte: DGABC (piso de 2026) e IstoÉ Dinheiro (corte). Valores arredondados. Elaboração: redação.

Promessa, histórico e debate

Na sabatina da TV Globo, em 16 de outubro, Flávio respondeu “Também não” à pergunta sobre mudar a Constituição para eliminar os pisos. O Liberal relatou a mesma promessa. A ideia de desvincular os pisos, portanto, já foi discutida no Congresso.

Em 2021, Flávio votou a favor da PEC Emergencial, a proposta de emenda à Constituição, segundo o registro do Senado. A proposta de desvincular os pisos saiu do texto antes da votação, após forte reação no Senado. Em 2023, ele votou contra o arcabouço fiscal do governo Lula, segundo o Congresso em Foco.

No debate, Flávio admitiu que a saúde “não foi uma área que a gente teve o melhor resultado” no governo do pai, segundo o Estadão. Lula perguntou se ele quer privatizar o SUS. Nas reportagens consultadas, não encontramos uma negativa literal a essa pergunta.

Antes, Flávio disse que quer levar “práticas de gestão do setor privado para a saúde pública”, segundo a Itatiaia. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) afirma que a proposta de Lottenberg prevê ampliar o uso de serviços privados com recursos do SUS.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele promete um “SUS padrão Einstein”, com mais gestão privada e parcerias com organizações sociais. Na Globo, em 16 de outubro, disse que não vai mudar a Constituição para acabar com os pisos de saúde e educação, segundo o Aos Fatos. A campanha disse à IstoÉ Dinheiro que ainda não há posição oficial sobre o estudo da Folha.

O que isso significa

O “SUS padrão Einstein” segue sem valor definido nas fontes consultadas. Segundo a CUT, o plano não detalha quanto será investido na rede pública.

A mudança nos pisos segue em estudo. A pergunta em aberto é quanto do corte de cerca de R$ 250 bilhões atingiria a saúde e a educação. O segundo turno ocorre em 25 de outubro.

Como fizemos: Conferimos cada afirmação com as reportagens, checagens e documentos listados em Fontes, acessados em 21/10/2026. O plano de governo foi lido apenas nos trechos publicados pelo SBT News, porque o documento completo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não abriu no nosso acesso. Os valores do piso de 2026 variam conforme a fonte, entre R$ 247,5 bilhões e R$ 254,9 bilhões, e a comparação com o corte é nossa. Ela não separa quanto do corte atingiria a saúde, e os dados não mostram o efeito real de uma mudança que segue em estudo.

Correção: Uma versão anterior deste texto atribuía a Lottenberg a defesa da gestão privada na saúde pública, segundo a Itatiaia; a reportagem atribui a ideia a Flávio. Também citava a Agência Brasil para parcerias com OSs na gestão de hospitais, e dizia que o plano não tinha parcerias público-privadas, o que os trechos publicados pelo SBT News contrariam. Dizia ainda que Flávio não negou de forma direta a privatização, o que a CNN Brasil não relata, e atribuía à CNN a admissão de que a saúde não foi o ponto forte do governo do pai, que consta do Estadão.

Fontes