Pisos da saúde entram em estudo de corte de R$ 250 bi
Equipe de Flávio estuda corrigir o piso da saúde só pela inflação, e não mais pela arrecadação.

Em 28 de agosto, Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), anunciou o médico Claudio Lottenberg como seu ministro da Saúde, caso seja eleito. Lottenberg é ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e foi secretário municipal de Saúde da cidade em 2005. No debate da Band, em 18 de outubro, o candidato prometeu um “SUS padrão Einstein”, ou seja, o Sistema Único de Saúde (SUS) com o padrão do hospital.
Há ainda uma mudança com efeito direto no dinheiro da saúde. Ela não é promessa pública: consta de um estudo da equipe econômica sobre os pisos de saúde e educação.
O piso é o valor mínimo que a União precisa gastar em saúde todo ano. Pela regra atual, ele equivale a 15% da receita corrente líquida (RCL), a base de arrecadação usada no cálculo. Segundo a IstoÉ Dinheiro, que cita a Folha, a equipe estuda corrigi-lo só pela inflação, e não mais pela arrecadação. O estudo integra um corte de cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 250 bilhões, em despesas obrigatórias.
O que o plano diz, e o que não diz
Em abril, o Aos Fatos e a Agência Lupa classificaram como falsa a frase viral que atribuía a Flávio a privatização do SUS. A Lupa concluiu que a privatização total seria inconstitucional, pois a Constituição, no artigo 196, trata a saúde como direito de todos e dever do Estado. A participação privada é permitida de forma complementar. Já os trechos do plano publicados pelo SBT News não mencionam vale-saúde, planos de saúde subsidiados nem o piso da saúde.
O plano prevê, segundo o SBT News, parcerias com organizações sociais (OSs), entidades privadas sem fins lucrativos que administram unidades públicas por contrato. Segundo a Agência Brasil, o plano também propõe um prontuário eletrônico compartilhado com hospitais privados. Em 16 de outubro, o Aos Fatos verificou que a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), criada em 2020, já cumpre essa função em parte. Mas nem todos os prontuários estão integrados a ela.
O piso da saúde em jogo
Quando a arrecadação cresce mais que a inflação, um piso corrigido só pelos preços fica menor do que pela regra atual, ano após ano. Para dar escala, o corte estudado, de cerca de R$ 250 bilhões, é da mesma ordem do piso da saúde de 2026, como mostra a Tabela 1. O Diário do Grande ABC (DGABC) informa R$ 247,5 bilhões para o piso e R$ 254,9 bilhões na proposta orçamentária. Nas fontes consultadas, não há divisão do corte entre pisos e outras despesas.
O corte estudado é da mesma ordem do piso da saúde de 2026 Valores em R$ bilhões; piso de 2026 e corte em estudo, outubro de 2026
| Referência | R$ bi |
|---|---|
| Proposta orçamentária do piso da saúde de 2026 | 254,9 |
| Corte de cerca de 2% do PIB em estudo | 250 |
| Piso da saúde de 2026 | 247,5 |
Fonte: DGABC (piso de 2026) e IstoÉ Dinheiro (corte). Valores arredondados. Elaboração: redação.
Promessa, histórico e debate
Na sabatina da TV Globo, em 16 de outubro, Flávio respondeu “Também não” à pergunta sobre mudar a Constituição para eliminar os pisos. O Liberal relatou a mesma promessa. A ideia de desvincular os pisos, portanto, já foi discutida no Congresso.
Em 2021, Flávio votou a favor da PEC Emergencial, a proposta de emenda à Constituição, segundo o registro do Senado. A proposta de desvincular os pisos saiu do texto antes da votação, após forte reação no Senado. Em 2023, ele votou contra o arcabouço fiscal do governo Lula, segundo o Congresso em Foco.
No debate, Flávio admitiu que a saúde “não foi uma área que a gente teve o melhor resultado” no governo do pai, segundo o Estadão. Lula perguntou se ele quer privatizar o SUS. Nas reportagens consultadas, não encontramos uma negativa literal a essa pergunta.
Antes, Flávio disse que quer levar “práticas de gestão do setor privado para a saúde pública”, segundo a Itatiaia. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) afirma que a proposta de Lottenberg prevê ampliar o uso de serviços privados com recursos do SUS.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele promete um “SUS padrão Einstein”, com mais gestão privada e parcerias com organizações sociais. Na Globo, em 16 de outubro, disse que não vai mudar a Constituição para acabar com os pisos de saúde e educação, segundo o Aos Fatos. A campanha disse à IstoÉ Dinheiro que ainda não há posição oficial sobre o estudo da Folha.
O que isso significa
O “SUS padrão Einstein” segue sem valor definido nas fontes consultadas. Segundo a CUT, o plano não detalha quanto será investido na rede pública.
A mudança nos pisos segue em estudo. A pergunta em aberto é quanto do corte de cerca de R$ 250 bilhões atingiria a saúde e a educação. O segundo turno ocorre em 25 de outubro.
Como fizemos: Conferimos cada afirmação com as reportagens, checagens e documentos listados em Fontes, acessados em 21/10/2026. O plano de governo foi lido apenas nos trechos publicados pelo SBT News, porque o documento completo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não abriu no nosso acesso. Os valores do piso de 2026 variam conforme a fonte, entre R$ 247,5 bilhões e R$ 254,9 bilhões, e a comparação com o corte é nossa. Ela não separa quanto do corte atingiria a saúde, e os dados não mostram o efeito real de uma mudança que segue em estudo.
Correção: Uma versão anterior deste texto atribuía a Lottenberg a defesa da gestão privada na saúde pública, segundo a Itatiaia; a reportagem atribui a ideia a Flávio. Também citava a Agência Brasil para parcerias com OSs na gestão de hospitais, e dizia que o plano não tinha parcerias público-privadas, o que os trechos publicados pelo SBT News contrariam. Dizia ainda que Flávio não negou de forma direta a privatização, o que a CNN Brasil não relata, e atribuía à CNN a admissão de que a saúde não foi o ponto forte do governo do pai, que consta do Estadão.
Fontes
- Quem é Claudio Lottenberg, médico anunciado por Flávio Bolsonaro para a Saúde caso seja eleito — Itatiaia
- Flávio defende SUS padrão Einstein; Lula rebate: seria privatizar o SUS? — CNN Brasil
- Lula questiona sobre SUS; Flávio faz mea culpa sobre saúde no governo Jair Bolsonaro — DGABC (republicação do Estadão)
- Falso: Flávio Bolsonaro disse que vai privatizar o SUS se eleito presidente — Aos Fatos
- Flávio Bolsonaro não disse que vai privatizar o SUS se for eleito — Agência Lupa
- Flávio Bolsonaro propõe enxugar Estado e endurecer ações de segurança — Agência Brasil
- Saúde: veja propostas de Flávio na íntegra — SBT News (acesso em 21/10/2026)
- Checamos Flávio Bolsonaro na Globo no segundo turno — Aos Fatos
- Flávio diz que não vai desvincular reajuste do mínimo e nem alterar pisos de saúde e educação — O Liberal
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro
- Congresso aprova orçamento 2026 com superávit de R$ 34,5 bi — DGABC (acesso em 21/10/2026)
- Votações da matéria PEC 186/2019 — Senado Federal (acesso em 21/10/2026)
- Após críticas, pisos de saúde e educação são mantidos na PEC emergencial — Diário do Nordeste
- Arcabouço fiscal: veja como votou cada senador — Congresso em Foco
- Proposta de Flávio Bolsonaro para a saúde põe em risco o SUS — CUT
- Diagnóstico preocupante: plano de Flávio Bolsonaro põe SUS em risco — CUT
- Em que dia é o segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula — Bloomberg Línea



