Queda de 13,88% na Bolsa mede o mercado, não a vontade das urnas
A Bolsa caiu 13,88% na segunda-feira (26), após a vitória de Lula. Mas o pregão mede apostas de investidores, não a escolha feita nas urnas.
Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Na segunda-feira (26), o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. O índice reúne as ações mais negociadas na B3, a bolsa de valores de São Paulo. Foi a maior queda desde 2020, segundo a Forbes Brasil.
A B3 suspendeu por 30 minutos os negócios à vista, após acionar o circuit breaker, mecanismo que para o pregão quando a queda é muito forte. Foi o primeiro acionamento desde março de 2020. O dólar subiu cerca de 8% e foi a R$ 5,40. Os números são da InfoMoney e da Forbes Brasil.
A reação veio logo após a vitória de Lula no segundo turno. Este texto é de opinião da redação. A queda mede expectativas de investidores, não a vontade dos eleitores.
Na sexta-feira (23), a Citi divulgou uma pesquisa com 73 participantes. Segundo o Exame, 79,5% deles esperavam queda de mais de 5% no Ibovespa caso Lula fosse reeleito. A previsão veio antes da votação, e o pregão confirmou a aposta de boa parte do mercado.
A Bolsa não é o eleitorado
A B3 informou, em novembro de 2025, que 5,4 milhões de pessoas físicas tinham investimentos em renda variável no terceiro trimestre. Pessoas físicas são cidadãos, não empresas. Renda variável são aplicações cujo valor sobe e desce no mercado, como as ações. A mesma nota diz que 4,1 milhões de pessoas investem em ações.
Investir em ações é apostar sobre preços. Votar é escolher quem governa por quatro anos. Uma aposta pode mudar em minutos. Um mandato presidencial dura quatro anos.
O próprio pregão mostra a fragilidade dessa leitura. Em 9 de outubro, o Ibovespa fechou em recorde, aos 209.066,90 pontos, segundo o Suno Notícias. Em 26 de outubro, fechou 15,5% abaixo desse nível, segundo cálculo nosso. O índice oscila com expectativas, e elas mudam com pesquisas e resultados.
O argumento mais forte e seus limites
A melhor objeção merece resposta. O mercado põe preço em riscos fiscais reais: a chance de o governo gastar mais do que arrecada e a dívida crescer. Um dólar mais alto também pode encarecer importados e parte dos combustíveis. Quem ganha menos sente esse peso primeiro.
Analistas dizem isso com clareza. William Jackson, da Capital Economics, afirmou: “A vitória surpreendente de Lula vai frustrar as esperanças de reformas que melhorariam as finanças públicas”. Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, disse: “A questão central agora é a capacidade do governo de oferecer uma sinalização fiscal suficientemente consistente”.
Esses riscos são reais, e discuti-los é legítimo. Mas a própria análise de mercado aponta para depois da eleição. Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, afirmou que “a continuidade do governo não determina, sozinha, uma baixa permanente: as decisões fiscais seguintes serão fundamentais”.
Em outras palavras, a eleição escolheu quem decide. As regras fiscais serão definidas depois, no Orçamento e nas leis que passam pelo Congresso. A Bolsa pode medir esse caminho. Não pode decidi-lo.
O histórico também pesa contra a ideia de pânico permanente. Um levantamento da Elos Ayta para o NeoFeed mostra que o Ibovespa caiu no primeiro pregão após o segundo turno em quatro das seis eleições presidenciais desde 2002. Em todas as seis, o índice fechou a primeira semana em alta.
O que diz a B3: Segundo a Forbes Brasil, a bolsa afirmou que o circuit breaker se baseou na “análise do cenário de formação do preço teórico do Ibovespa”, que indicava queda acima de 20%.
A queda de 26 de outubro é real, e seus efeitos sobre carteiras, preços e câmbio merecem atenção. Quem investe pode perder dinheiro, e pânicos podem se aprofundar. Por isso, este texto não recomenda compra nem venda de nenhum ativo.
A legitimidade da eleição vem da apuração feita pela Justiça Eleitoral e do voto de quem foi às urnas. A prova do novo governo começa no Orçamento e nas regras fiscais, que passam pelo Congresso. O pregão pode medir essa prova. Não pode substituí-la.
Como fizemos: Usamos as coberturas da InfoMoney e da Forbes Brasil sobre o pregão de 26/10/2026, a reportagem do Exame sobre a pesquisa do Citi (publicada em 23/10/2026), a nota do Suno Notícias sobre o recorde de 9/10/2026, a reportagem do NeoFeed com dados da Elos Ayta e a nota da B3 de 10/11/2025, todas acessadas em 26/10/2026. Os 15,5% abaixo do recorde são nosso cálculo: 176.608,23 dividido por 209.066,90, menos 1. Os dados de investidores são do terceiro trimestre de 2025 e podem ter mudado. Os 79,5% são uma previsão feita antes da votação, não um dado realizado.
Fontes
- Ibovespa desaba 13% após eleição, em dia de circuit breaker; dólar dispara 8% — InfoMoney (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa tem maior queda desde 2020 e dólar dispara no 1º pregão após eleições — Forbes Brasil (acesso em 26/10/2026)
- Citi: Rali da bolsa não esgotou alta com Flávio, mas queda com Lula seria maior — Exame (acesso em 26/10/2026)
- Bolsa despenca com vitória de Lula, mas passado mostra que ressaca eleitoral pode ser curta — NeoFeed (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa fecha em recorde histórico de 209.066,90 pontos — Suno Notícias (acesso em 26/10/2026)
- Em cenário de Ibovespa na máxima histórica, B3 apresenta evolução no número de investidores — B3 (acesso em 26/10/2026)
- Bovespa, São Paulo city downtown — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)



