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Tribuna

Poucos investem em ações: a escola pública deve ensinar finanças

No 2º trimestre de 2025, cerca de 4 milhões de pessoas investiam em ações, e a saída é educação financeira pública e proteção contra golpes.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Ilustração abstrata em cor sólida, sem pessoas nem cena real.
Imagem provisória: a foto licenciada desta matéria ainda não foi obtida.Ilustração: Imagem provisória

No segundo trimestre de 2025, cerca de 4 milhões de pessoas físicas investiam em ações à vista na B3, a bolsa de valores brasileira. Pessoa física é o cidadão que investe em nome próprio, e não uma empresa ou fundo. O dado é do boletim trimestral da própria B3.

O Brasil tinha cerca de 163 milhões de pessoas com 15 anos ou mais no Censo de 2022. Isso quer dizer que cerca de 2,5% dessa população tinha ações naquele trimestre. Quando a bolsa sobe ou cai, o noticiário fala do índice. Fala pouco de quem ficou de fora da conta.

Este texto faz outra pergunta. Não se trata de torcer pela bolsa nem de temê-la. A pergunta é quem tem conhecimento e proteção para decidir sem depender de palpite.

A urgência vem do endividamento. Segundo o Banco Central, em fevereiro de 2026 o saldo das dívidas das famílias equivalia a 49,9% da renda disponível acumulada em 12 meses. Em janeiro, o comprometimento de renda, a parcela do salário usada para pagar dívidas, chegou a 29,3%, recorde da série.

O que a escola ensina hoje

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define o que toda escola deve ensinar. Segundo a Agência Brasil, a educação financeira “deve, pela BNCC, ser abordada de forma transversal pelas escolas, ou seja, nas várias aulas e projetos”. Ela entra nas aulas que já existem, sem exigir matéria própria.

O tema também tem base legal desde 2010. O Decreto 7.397 criou a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Em 2020, o Decreto 10.393 revogou essa norma e instituiu uma nova ENEF, que promove educação financeira, securitária, previdenciária e fiscal. Não encontramos dado público recente sobre quantas escolas aplicam o tema.

Em agosto de 2021, o Ministério da Educação (MEC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), regulador do mercado de capitais, anunciaram cursos gratuitos para professores. A meta era qualificar “500 mil trabalhadores da educação em três anos”. Os temas incluem “poupança, consumo consciente, investimentos, proteção contra fraudes”. Não localizamos balanço público de quantos concluíram os cursos.

O que dizem MEC e CVM: Segundo a Agência Brasil, em 2021, a CVM ficaria com o desenvolvimento da plataforma dos cursos, e o MEC com a divulgação. Não localizamos posição recente das duas instituições sobre a oferta do tema nas escolas.

Proteção vem antes do investimento

Em 4 de março de 2026, a CVM suspendeu de forma imediata as ofertas da Mirlux Options, empresa sem autorização do órgão. Segundo a IstoÉ Dinheiro, a CVM viu indícios de que a empresa busca captar clientes residentes no Brasil. Checar se a empresa é autorizada é o primeiro passo antes de enviar qualquer dinheiro.

O Tesouro Direto é uma alternativa pública. Por ele, a pessoa compra títulos públicos, uma espécie de empréstimo feito ao governo, com a operação feita pela B3. No segundo trimestre de 2025, eram 3 milhões de investidores, 14% a mais que um ano antes, segundo a B3. O site do programa afirma que os títulos são 100% garantidos pelo Tesouro Nacional.

Mas garantia de pagamento não é garantia de preço. Se o título for vendido antes do vencimento, pode valer menos do que o pago, porque seu preço acompanha os juros do momento. Segundo o Bora Investir, canal educativo da B3, o risco de o governo não pagar é baixíssimo, mas os títulos oscilam no dia a dia.

O argumento mais forte contra essa agenda é a prioridade. A escola pública tem urgências, como a alfabetização, e não precisa de mais um tema. A resposta está no desenho da BNCC: a educação financeira entra nas aulas existentes, sem disciplina nova.

Outro argumento diz que o mercado também é fonte de poupança para a aposentadoria. Isso é verdade, e é justamente por isso que a informação importa. Quem não entende o produto tem mais chance de vender na pior hora ou de cair em golpe.

Por fim, há quem diga que só quem tem sobra de renda precisa do tema. Os dados do Banco Central sugerem o contrário. Para muitas famílias endividadas, a primeira lição é sobre orçamento, juros do cartão e checagem de quem vende produto financeiro. A educação financeira que serve ao trabalhador começa aí.

Este é um texto de opinião da redação do Jornal da Pátria. Nada aqui é recomendação de compra ou venda de ativos: ações e títulos podem perder valor, e pânicos de mercado podem se aprofundar. A bolsa pode ser útil para quem tem condições de usá-la. Mas o conhecimento financeiro não deve ser assunto de poucos. Cabe ao Estado cobrar a execução do que já existe: quantas escolas ensinam o tema, com que professores e quantas pessoas foram alcançadas.

Como fizemos: Usamos o boletim de Pessoa Física da B3 (2º trimestre de 2025), dados do Banco Central divulgados em 27/4/2026 (via Poder360), a contagem do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (via Poder360) e reportagens citadas abaixo, acessadas em 26/10/2026. O total de 163 milhões é nossa soma das faixas de 15 a 64 anos (140,8 milhões) e de 65 anos ou mais (22,2 milhões). A proporção de 2,5% é nosso cálculo sobre esse total, com a população do Censo e os investidores de 2025, por isso é aproximada. Não entramos em contato prévio com MEC e CVM, por se tratar de opinião sobre política pública, sem acusação.

Fontes