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Tribuna

A direita tinha Tarcísio. Recebeu Flávio, com investigação e aliados presos

Flávio é investigado no STF, dois aliados foram presos pela PF em 2026 e, em sete anos no Senado, só dois projetos dele foram aprovados.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Tarcísio de Freitas, de terno, durante a sessão solene de sua posse como governador de São Paulo, na Assembleia Legislativa
Tarcísio de Freitas na sessão solene de posse como governador de São Paulo, na Assembleia Legislativa (Alesp), em janeiro de 2023.Foto: Governo do Estado de São Paulo / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em janeiro, o pastor Silas Malafaia disse ao SBT News que a candidatura de Flávio Bolsonaro não empolga a direita. Malafaia acabou apoiando Flávio, mas avisou que não organizaria atos de campanha, segundo o Poder360.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, tínhamos nomes: Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado. Recebemos um candidato escolhido pelo pai, Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. Esta coluna é de opinião: Flávio é uma falsa direita.

Rótulo sem fato não vale nada, então vamos aos fatos. Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), enfrenta Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), no segundo turno, em 25 de outubro.

O que veio junto com o sobrenome

Segundo o Intercept Brasil, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Ao menos US$ 10,6 milhões foram pagos em 2025, e a reportagem diz que foi Flávio quem negociou o dinheiro.

Pela manhã, Flávio chamou a reportagem de mentira. À noite, confirmou o pedido e disse que era patrocínio privado, sem contrapartidas, segundo o Poder360. Às vésperas da prisão do banqueiro, mandou a mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, segundo o SBT News.

Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF). Em julho, o ministro André Mendonça autorizou uma investigação sobre o financiamento do filme. As suspeitas são lavagem de dinheiro, evasão de divisas (envio ilegal de dinheiro ao exterior) e corrupção. O caso segue sob sigilo.

Em 2020, o Ministério Público do Rio (MP-RJ) denunciou Flávio por rachadinha, esquema de desvio de parte dos salários de servidores. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou as provas obtidas com quebras de sigilo. O caso foi arquivado sem julgamento. Anulado não é inocentado.

O que a direita perdeu na troca

Em 15 de outubro, a Polícia Federal (PF) prendeu Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, pela segunda vez. A PF investiga um grupo suspeito de usar postos de combustível para lavar dinheiro. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou movimentação de R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Meses antes, Flávio declarou apoio à pré-candidatura de Canella ao Senado. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), foi preso de novo em março. Segundo a PF, ele atuava como liderança do núcleo político do Comando Vermelho (CV), facção criminosa.

Flávio afirmou que as prisões o surpreenderam, segundo o SBT News. Ele havia sinalizado apoio a Bacellar como sucessor de Cláudio Castro no governo do Rio.

No Senado, o retrospecto é fraco. Em sete anos, só dois projetos de autoria de Flávio foram aprovados pela Casa, segundo o Terra. Os dois seguem na Câmara, sem virar lei. É pouco para quem pede a chave do Palácio do Planalto.

Registro que Tarcísio defendeu Flávio no caso do áudio com Vorcaro. Aliados do governador, sem se identificar, disseram à PlatoBR que veem na derrota de Flávio uma chance para 2030.

A mãe, Rogéria, foi anunciada como suplente de Canella no Senado. Flávio vetou a suplência, segundo o SBT News. O irmão, Eduardo Bolsonaro, foi condenado pelo STF em junho a 4 anos e 2 meses, por coação no processo contra o pai. A acusação, aceita pelo tribunal, diz que ele pediu sanções dos Estados Unidos (EUA) contra ministros.

Caiado e Zema, que disputaram o primeiro turno, anunciaram apoio a Flávio no segundo. O pai escolheu o herdeiro. Isso é projeto de família, não de direita.

A tabela resume a situação de cada caso citado nesta coluna.

Entre os casos citados, só Eduardo Bolsonaro foi condenado criminalmente Situação de cada caso citado, em 20 de outubro de 2026

Caso Data Situação
Rachadinha (denúncia do MP-RJ) 2020 Arquivado, sem julgamento
Rodrigo Bacellar Março de 2026 Preso pela PF
Eduardo Bolsonaro (coação no processo) 16 de junho de 2026 Condenado a 4 anos e 2 meses, semiaberto
Inquérito Dark Horse (STF) Julho de 2026 Sob sigilo; Flávio incluído em setembro
Márcio Canella Julho e 15 de outubro de 2026 Preso pela PF duas vezes

Fonte: reportagens listadas em Fontes (SBT News, Poder360, JB, Agência Brasil, O Povo, Correio Braziliense). Elaboração: redação.

Onde a disputa está

Admito o que é verdade, porque negar fato derruba o resto. A pesquisa do instituto Quaest, divulgada em 14 de outubro, dá a Flávio 46% e a Lula 44%, com margem de erro de 2 pontos percentuais. Essa diferença cabe na margem, ou seja, é empate técnico.

Também reconhecemos que o antipetismo pesa para muitos eleitores. Ele não apaga o histórico. Não peço a ninguém que goste de Lula. Peço que ninguém entregue a direita a Flávio.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele confirmou o pedido de dinheiro a Vorcaro e disse que era patrocínio privado, sem contrapartidas, segundo o Poder360 e o InfoMoney. Sobre as prisões de aliados, afirmou que “as prisões surpreenderam”, segundo o SBT News.

O que isso significa

Os dados não dizem se Flávio é culpado. Mostram um candidato com inquérito aberto no STF, aliados presos e pouco resultado no Senado.

Uma vitória com este candidato amarra a nossa bandeira a Vorcaro, a Canella e a um sobrenome. A direita tinha Tarcísio, e pode voltar a ter em 2030, se não se render agora.

Como fizemos: Checamos cada fato desta coluna em reportagens listadas em Fontes, acessadas em 20 de outubro de 2026, sem consultar o processo judicial, que está sob sigilo. Onde as fontes divergiram, registramos a diferença: o Terra conta dois projetos aprovados, e outra reportagem conta um. A pesquisa Quaest, com registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-08729/2026 segundo reportagens, ouviu 2.154 pessoas entre 10 e 13 de outubro, com margem de 2 pontos percentuais e confiança de 95%; foi encomendada pela TV Globo e pelo jornal O Globo. Os valores em dólar e real não foram corrigidos pela inflação, porque não comparam anos, e a tabela não mostra andamentos posteriores a 20 de outubro.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que a mãe de Flávio desistiu de ser suplente de Canella. Segundo o SBT News, foi Flávio quem vetou a suplência. O texto também atribuía à PF a informação de que o grupo lavou R$ 7,6 bilhões. O correto é que o Coaf apontou movimentação desse valor em seis anos.

Fontes