PL com 121 deputados pode reconstruir a direita na oposição
Com 121 deputados e 28 senadores, o PL pode reconstruir a direita na oposição; no Planalto, passaria quatro anos defendendo Flávio Bolsonaro.
Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Na segunda-feira, 26 de outubro, o Partido Liberal (PL) terá a maior bancada da Câmara a partir de 2027: 121 das 513 cadeiras. No Senado, serão 28 das 81. Esse é o patrimônio da direita, ganhe quem ganhar no domingo (25).
Minha tese é esta: essa bancada só reconstrói a direita se Flávio Bolsonaro não chegar ao Planalto. Com ele no poder, vira tropa de defesa. Na oposição, vira fiscalização.
No debate presidencial da Band, no domingo (18), Lula desafiou Flávio a abrir o próprio sigilo bancário, que protege os dados das contas. Segundo o ND+, Flávio não respondeu ao desafio e acusou Lula e o filho dele de dinheiro “por fora”.
Cobrar com o mesmo critério
O caso mais antigo é a rachadinha, em que parte do salário de assessores volta ao parlamentar. Em novembro de 2020, o Ministério Público do Rio (MP-RJ) denunciou Flávio, então deputado estadual, por crimes como o peculato: desvio de dinheiro público por quem tem cargo público. O caso nunca chegou a julgamento. Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou as decisões de primeira instância por incompetência do juiz.
Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) arquivou a ação, sem julgar o mérito. Em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou recursos do MP-RJ para reabri-la. Segundo o Poder360, essas decisões não impedem uma nova denúncia. Hoje, outro inquérito do STF apura repasses do banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, e Flávio diz que o dinheiro foi pedido como patrocínio e nega irregularidades.
A conta do salário mínimo
Corrigir o salário mínimo só pela inflação economizaria de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano. A estimativa é do economista Guilherme Klein, publicada pela BBC. Isso equivale a cerca de 6% do pacote de R$ 250 bilhões, ou 2% do Produto Interno Bruto (PIB), que pessoas ligadas à campanha estudavam, segundo a Folha.
Segundo a Folha, uma proposta era desvincular aposentadorias e o BPC (benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda) dos ganhos reais do mínimo. A campanha diz que a orientação econômica “não é definida por relatos ou ilações de terceiros”. Antes do primeiro turno, Flávio disse à TV Globo que não faria economia “em cima dos aposentados”. Sem números oficiais, o eleitor não consegue checar a promessa.
Segurança exige rastro, e o Senado exige presença
Flávio chamou de “detalhezinho” o projeto que acaba com a marcação de munições, que permite rastrear a origem dos cartuchos, segundo o Metrópoles. Um levantamento do Instituto Sou da Paz, citado pelo Brasil de Fato, analisou 31.699 cartuchos de fuzil apreendidos do Comando Vermelho (CV) no Rio entre 2018 e 2025. A origem brasileira aparece em 40,9% dos casos, à frente da Rússia (28,1%) e dos Estados Unidos (14,1%). Cerca de metade das munições nacionais tinha gravações que atestam desvio de estoques do Estado.
Fabricante brasileiro responde por 40,9% dos cartuchos de fuzil do CV apreendidos no Rio Participação por país de origem, em %, de 31.699 cartuchos de fuzil apreendidos entre 2018 e 2025
| Origem | Participação |
|---|---|
| Brasil (fabricante CBC) | 40,9% |
| Rússia | 28,1% |
| Estados Unidos | 14,1% |
Fonte: Instituto Sou da Paz, citado pelo Brasil de Fato. Elaboração: redação.
No Senado, Flávio deixou de registrar voto em 43% das votações nominais de 2026, até 22 de junho, segundo a Folha, como mostra a tabela abaixo. A média dos 81 senadores foi de 20%, e a assessoria dele não respondeu à Folha antes da publicação. Quando a direita trabalha no Congresso, aprova: o projeto antifacção passou por 64 votos a zero em dezembro de 2025. Flávio votou a favor, segundo a Gazeta do Povo.
Flávio não registrou voto em 43% das votações nominais do Senado; a média foi de 20% Percentual de votações nominais sem registro de voto, 2026, até 22 de junho
| Grupo | Ausência em votações |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro (PL-RJ) | 43% |
| Média dos 81 senadores | 20% |
Fonte: Folha de S.Paulo, com base em registros do Senado Federal, reproduzida pelo Estado de Minas. Elaboração: redação.
O que diz Flávio Bolsonaro (PL): A campanha afirma que o estudo fiscal não é a posição oficial e que a orientação econômica “não é definida por relatos ou ilações de terceiros”, segundo a BBC. Na TV Globo, em 16 de outubro, Flávio disse: “Estou me comprometendo: só preciso de um mandato.” Sobre o Dark Horse, ele nega irregularidades, segundo O Povo.
O que isso significa
A bancada de 121 deputados existe com ou sem Flávio no Planalto. O que muda é o papel dela: fiscalizar e barrar o que for ruim, ou defender o governo.
Com Flávio eleito, a direita passaria quatro anos explicando o inquérito do Dark Horse e o caso da rachadinha. Passaria também defendendo anistia ou indulto a Jair Bolsonaro, tema que Flávio defendeu em 2025. Não peço que ninguém goste de Lula. Peço que a direita pense no dia seguinte.
Uma eleição perdida se recupera com trabalho. Uma bandeira emprestada a quem a desgasta demora uma geração para voltar. A reconstrução começa no dia 26, desde que a direita não a adie por mais quatro anos.
Como fizemos: Usamos o resultado do primeiro turno (4 de outubro de 2026), as votações nominais do Senado analisadas pela Folha até 22 de junho de 2026, o levantamento do Instituto Sou da Paz sobre 31.699 cartuchos apreendidos no Rio entre 2018 e 2025 e a estimativa publicada pela BBC. Acessamos as fontes em 20 de outubro de 2026. Calculamos que a economia de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões equivale a cerca de 6% de R$ 250 bilhões, e que 43% é mais que o dobro de 20%. Não corrigimos valores pela inflação, porque não comparamos anos diferentes; a bancada pode mudar até a posse, e os dados não mostram os motivos das ausências nem o andamento atual dos inquéritos.
Correção: Uma versão anterior deste texto dizia que a munição de fuzil do CV era majoritariamente brasileira; o correto é 40,9%. Também atribuía à BBC a estimativa de economia com o salário mínimo, que é do economista Guilherme Klein, e dizia que Flávio negou na TV qualquer corte, quando disse não fazer economia “em cima dos aposentados”. A reportagem do Poder360 não atribui a Gilmar Mendes a frase sobre nova denúncia, e a reportagem do SBT News não relata a exclusão de postagem sobre o tarifaço, por isso o trecho foi retirado.
Fontes
- PL terá maior bancada na Câmara e no Senado a partir de 2027 — SBT News
- Quando é e qual é o dia do segundo turno das eleições 2026 — Congresso em Foco
- Lula desafia Flávio a abrir sigilos bancários das famílias durante debate — ND+
- Debate da Band para o 2º turno será no domingo, 18 — Diário de Pernambuco
- Gilmar nega pedido para reabrir ação contra Flávio por rachadinha — Poder360
- STJ anula decisões contra Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas — CNN Brasil
- André Mendonça autoriza inquérito sobre repasses para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro — O Povo
- Candidato bolsonarista terá de afrontar o STF por anistia a seu pai, diz Flávio — Diário do Centro do Mundo
- Flávio chama de “detalhezinho” projeto para retirar marcação de munições — Metrópoles
- Como plano de Flávio Bolsonaro para liberar armas abasteceria facções e colocaria crianças em risco — Brasil de Fato
- O que Flávio Bolsonaro e Lula propõem sobre reajuste do salário mínimo e aposentadorias — BBC/O Povo
- Flávio Bolsonaro se ausentou em 43% das votações nominais do Senado em 2026 — Estado de Minas (reprodução de reportagem da Folha)
- Veja os senadores que garantiram votação unânime do PL Antifacção — Gazeta do Povo
- Flávio volta a dizer que, se eleito, não tentará reeleição — Poder360



