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Tribuna

Direita tem palavra; Flávio mudou de versão em horas, dias e anos

Vorcaro, Petrobras, escala 6x1, urnas: as versões de Flávio mudaram no mesmo dia, em uma semana ou ao longo de anos, e o Aos Fatos contou 43 falsidades só sobre o banqueiro.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Flávio Bolsonaro, de terno azul-claro e gravata, discursa de pé no plenário do Senado, gesticulando diante do microfone, com outros senadores ao redor.
O senador Flávio Bolsonaro faz pronunciamento à bancada, no plenário do Senado, em Brasília, em 15 de abril de 2026.Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 13 de maio, Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), deu duas respostas sobre o mesmo fato no mesmo dia. De manhã, chamou de “mentira” a informação de que o banqueiro Daniel Vorcaro financiou um filme sobre seu pai. No fim da tarde, em nota, confirmou o pedido de dinheiro e disse que era patrocínio privado, segundo o Poder360.

Para quem é de direita, isso deveria incomodar mais do que incomoda. Nós sempre cobramos palavra dos adversários. Esta coluna de opinião cobra o mesmo do candidato que diz falar em nosso nome e enfrenta Lula (PT) no segundo turno, em 25 de outubro. A tabela abaixo mostra que a versão de Flávio mudou em horas, dias ou anos.

Em quatro temas, Flávio mudou de versão em horas, dias ou anos Mudanças de posição confirmadas em reportagens e checagens, de 2022 a outubro de 2026

Tema O que mudou Intervalo
Vorcaro Chamou de “mentira” e depois confirmou o pedido de dinheiro Mesmo dia (13/5/2026)
Escala 6x1 Criticou a proposta e depois votou a favor 7 dias (7 a 14/10/2026)
Petrobras Defendeu privatizar partes, depois o controle estatal, depois chamou o tema de “boataria” Cerca de 10 meses (dez./2025 a out./2026)
Urnas Quatro posições sobre fraude e voto impresso Mais de 3 anos (2022 a mar./2026)

Fonte: Poder360, Aos Fatos, InfoMoney/Reuters, eixos, O Povo, CNN Brasil, TNH1 e Jornal de Brasília. O vídeo do UOL de 2022 sobre a Petrobras ficou fora da tabela porque sua data não pôde ser confirmada. Elaboração: Jornal da Pátria.

Vorcaro: de 12 para 43 falsidades

Em 28 de agosto, no Jornal Nacional, Flávio disse que os detalhes do contrato e do fundo do filme já tinham sido apresentados. A Agência Lupa classificou a frase como falsa. Ele também negou ter buscado dinheiro da Lei Rouanet, de incentivo à cultura. Para a Lupa, faltou contexto: a produtora do filme pediu R$ 8,59 milhões pela lei para quatro eventos, e teve o pedido negado.

Até 24 de setembro, o Aos Fatos contou ao menos 43 declarações falsas ou enganosas dele sobre o caso. Em 14 de maio, o placar era 12. São 31 a mais em pouco mais de quatro meses, cerca de sete por mês. Não é deslize de entrevista; é método.

Flávio nega. À CNN Brasil, disse que não mentiu e culpou um contrato de confidencialidade do filme pela negativa inicial, segundo o Estadão Conteúdo.

Petrobras e 6x1, ao sabor do vento

Em abril de 2022, em vídeo do UOL, Flávio disse que o pai tinha autorizado estudar a privatização da Petrobras. Em dezembro de 2025, à Reuters, chamou a estatal de “complexa demais” e disse que o que não funciona “pode ser privatizado”, relatou o InfoMoney.

Em fevereiro de 2026, ao canal 5º Elemento, afirmou que não se pode “simplesmente vender uma empresa que tem um monopólio estratégico”, segundo a eixos. Em 9 de outubro, chamou de “boataria” a conversa sobre privatização. São quatro posições em quatro anos.

A escala 6x1, de seis dias de trabalho para um de folga, levou uma semana. Em 7 de outubro, Flávio ainda criticava a proposta, segundo O Povo. No dia 13, depois de visitar o pai, disse que votaria a favor, mas que o governo teria de “pagar essa conta” dos empregadores, relatou a CNN Brasil.

No dia 14, votou sim, à distância. A proposta de emenda à Constituição passou no Senado por 75 votos a 1, segundo o TNH1.

Urnas, tarifaço e Bolsa Família

Nas urnas, segundo o Jornal de Brasília, o vaivém dura anos. Em 2022, disse que a fraude “não aconteceu, mas podia ter acontecido”. Em 2023, assinou uma proposta de voto impresso. Em 2024, chamou o assunto de “página virada”; em março de 2026, disse que venceria se os votos fossem “contados corretamente”.

No tarifaço, em 9 de julho de 2025, horas após o anúncio da tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, agradeceu a Donald Trump, mostrou o SBT News. Depois, disse à CNN Brasil que se arrependeu e apagou a postagem.

No Bolsa Família, segundo o ICL Notícias, Flávio apagou publicações de 2010 a 2013 que ligavam o programa à compra de votos. Em 8 de outubro, prometeu manter e ampliar o programa, relatou O Tempo. Pode ser uma conversão sincera. Mas conversão sincera não costuma vir acompanhada de postagens apagadas.

O que dizem Flávio e sua campanha: Em nota de 13 de maio, Flávio disse ter pedido a Vorcaro “patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO” e afirmou: “Não ofereci vantagens em troca” (Poder360). Sobre o fim da escala 6x1, disse que seu voto segue “a maioria do povo trabalhador brasileiro” (CNN Brasil). Sobre a Petrobras, chamou a privatização de “boataria”, e o coordenador da campanha, Rogério Marinho, disse que “não há nenhum plano” de privatizá-la (InfoMoney e Poder360).

A régua que usamos

Mudar de ideia não é crime. Às vezes é virtude, e é justo dizer que o voto final de Flávio no 6x1 agradou a muitos trabalhadores. Mas, quando todas as posições mudam, e quase sempre na direção do vento, o eleitor não sabe qual versão vai governar.

A direita que admiramos tem palavra. Prometeu, cumpriu; errou, admitiu. Quem chama de mentira pela manhã o que confirma à tarde não oferece palavra. Oferece versões.

Para enxergar isso, basta aplicar ao nosso candidato a régua que aplicamos aos outros. Não perdoaríamos um petista que fizesse o mesmo, e não há razão para perdoar só porque o sobrenome é outro.

No dia 25, a pergunta é simples: qual Flávio governaria? O da manhã ou o da tarde?

Como fizemos: Esta coluna reuniu declarações de Flávio Bolsonaro de 2022 a outubro de 2026, com base nas reportagens e checagens listadas em Fontes, verificadas e acessadas em outubro de 2026. Na tabela, o intervalo vai da primeira à última declaração confirmada de cada tema. As 31 novas falsidades em 133 dias, cerca de sete por mês, resultam dos totais do Aos Fatos em 24 de setembro (43) e 14 de maio (12). Não confirmamos a data do vídeo do UOL, o arrependimento relatado pela CNN Brasil nem as reportagens do ICL Notícias e de O Tempo, que seguem atribuídos a esses veículos. As contagens dependem do método de cada checador e não cobrem todas as falas do candidato.

Fontes