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Tribuna

Quatro batismos e um post removido: a fé na campanha de Flávio

Flávio se apresenta como evangélico, usa guerra espiritual e teve postagem contra Lula retirada pelo TSE; pastores criticam o uso político.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Flávio Bolsonaro e Frederick Wassef falam a jornalistas diante de microfones em Brasília.
Flávio Bolsonaro em entrevista coletiva; a campanha usa linguagem religiosa enquanto enfrenta críticas de líderes cristãos.Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Flávio Bolsonaro foi batizado quatro vezes, segundo o levantamento da Agência Pública: na juventude, em 2016 no rio Jordão, em 2024 com a mulher em Brasília e novamente no Jordão em 2026. Em 16 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou apagar em até três horas o post “Lula não feche minha igreja”, por sugerir ameaça à liberdade religiosa sem apresentar fatos.

Esses registros não permitem dizer quem é ou não cristão. Eles mostram como a fé entrou no centro da campanha, com linguagem de “guerra espiritual”, promessa de decretar que o Brasil pertence a Jesus e pedidos de voto em cultos.

Fé como linguagem eleitoral

Flávio se declara evangélico desde a juventude, influenciado pela mãe e por uma escola batista. A repetição de batismos é um dado biográfico. A leitura política vem de pastores ouvidos pela Agência Pública, que veem parte dessas cerimônias como estratégia de imagem.

Em agosto, o candidato prometeu declarar que o Brasil é do “Senhor Jesus Cristo”. Um pastor ouvido pelo Estado de Minas chamou a ideia de inconstitucional e teologicamente equivocada. Em junho e outubro, Flávio descreveu o país como palco de “guerra espiritual” em eventos evangélicos.

A campanha também levou pedidos de voto a templos e ginásios. No centenário da Assembleia de Deus Madureira, em 10 de outubro, o bispo Samuel Ferreira conduziu o coro “irmão vota em irmão” 14 vezes no Maracanãzinho, espaço público. Flávio respondeu que o bispo não pedia voto; “a igreja” é que falava.

Quatro episódios mostram a mudança de registro Datas e decisões documentadas nas fontes consultadas

Data Episódio Registro
2016 e 2026 Batismos no rio Jordão Biografia do candidato
Ago/2026 Promessa sobre “Senhor Jesus Cristo” Crítica de pastor
10/10/2026 Coro “irmão vota em irmão” Pedido de investigação, sem decisão
16/10/2026 Post “Lula não feche minha igreja” TSE determinou remoção

Fonte: Agência Pública, Estado de Minas, Jornal de Brasília e TSE. Elaboração: redação.

O que a religião não prova

Não há evidência de que igrejas financiem a campanha de Flávio. Até 1º de outubro, 89% dos R$ 61,7 milhões declarados vieram do fundo partidário do PL, segundo os dados eleitorais consultados. A lista consultada não identificou pastores ou igrejas entre os principais doadores, embora não permita excluir um doador menor.

Também não há decisão judicial que tenha reconhecido abuso de poder religioso nos eventos. Entidades como o MBLaico pediram investigação e questionaram a imunidade tributária de igrejas, mas os pedidos ainda não resultaram em condenação.

O TSE determinou a retirada do post sobre Lula fechar igrejas porque a mensagem sugeria um fato sem base. A decisão não proibiu Flávio de falar sobre religião nem declarou que sua fé é falsa. Essa distinção importa para não trocar crítica política por julgamento religioso.

A reação católica acrescenta outra camada. Flávio acusou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de espalhar rumor sobre Nossa Senhora Aparecida. A CNBB negou a acusação por falta de fatos, e um bispo criticou o histórico de ataques da família Bolsonaro à entidade.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele se apresenta como evangélico, diz que defende a liberdade religiosa e afirma que o post sobre Lula foi uma advertência política. O TSE considerou que a mensagem não tinha fatos que sustentassem a ameaça e ordenou a remoção.

Nós, que defendemos a liberdade de culto e o Estado de Direito, sabemos que fé não é salvo-conduto eleitoral. O eleitor de direita pode respeitar o cristianismo e ainda cobrar de Flávio provas, coerência e respeito às instituições que ele promete governar.

No segundo turno, o problema não é contar batismos. É decidir se o governo será conduzido por regras públicas ou por uma campanha que transforma púlpito em palanque e chama qualquer adversário de inimigo espiritual.

Como fizemos: Consultamos o acórdão do TSE sobre o post e as reportagens sobre batismos, cultos e CNBB. Mantivemos como alegações as denúncias sem decisão e não afirmamos que Flávio não seja cristão. Os percentuais de financiamento são atribuídos aos dados eleitorais consultados.

Fontes