Orçamento de 2027 é o primeiro teste do segundo mandato de Lula
Com a LDO sem votação e o prazo de 22 de dezembro, o Congresso decide se o Orçamento de 2027 protege saúde, educação e Bolsa Família.
Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Em 31 de agosto, o governo enviou ao Congresso o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, com despesas de R$ 7,449 trilhões. Quase dois meses depois, a lei que deveria orientá-lo, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), ainda não foi votada. Este é o primeiro teste do segundo mandato de Lula, reeleito com 51,79% dos votos válidos.
Nossa posição é direta. Um Orçamento que proteja saúde, educação, Bolsa Família e investimento é condição para um país soberano, que decide as próprias prioridades. Cada real destinado por emenda também precisa ter autor e destino públicos. O Congresso tem até 22 de dezembro para cumprir essa tarefa.
O projeto prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, sem descontos. Superávit primário é a sobra das contas antes do pagamento de juros da dívida. A meta é de R$ 73,2 bilhões, ou 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz. Para cumpri-la, o governo usa exclusões previstas no arcabouço fiscal, o conjunto de regras que controla as contas públicas. Com elas, o resultado considerado chega a R$ 83,4 bilhões.
Números do Orçamento de 2027 e as projeções em disputa Valores em R$ bilhões, como informados por cada fonte
| Item | R$ bi | Fonte |
|---|---|---|
| Superávit primário no projeto, sem descontos | 18,6 | Agência Gov |
| Meta fiscal (0,5% do PIB) | 73,2 | Agência Gov |
| Emendas parlamentares | 44,8 | Agência Brasil |
| Déficit primário projetado pela Instituição Fiscal Independente (IFI) | 86,1 | IFI, via Brasil 61 |
| Congelamento de despesas que a IFI considera necessário | 35,7 | IFI, via Brasil 61 |
| Remanejamento anunciado pelo Ministério do Planejamento e Orçamento | cerca de 20 | Agência Brasil |
Fonte: Agência Gov, Agência Brasil, Instituição Fiscal Independente (IFI), via Brasil 61. Elaboração: redação.
O calendário está com o Congresso
A LDO deveria ser aprovada até 17 de julho, pelo prazo constitucional. Não foi. Nas fontes que consultamos, não localizamos relator designado para ela. O Orçamento precisa ser devolvido para sanção até o fim da sessão legislativa, em 22 de dezembro, segundo a Constituição.
Esse prazo dá ao Congresso poder de barganha. Segundo coluna do SBT News, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, decidiu negociar o Orçamento de 2027 só depois da eleição. Quem vota em dezembro são os parlamentares atuais. A nova legislatura toma posse em 1º de fevereiro de 2027.
A Câmara que começa em fevereiro terá o PL como maior bancada. São 121 deputados, a maior bancada de um único partido desde 1990, segundo o Congresso em Foco. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, tem 88. O que ficar de fora agora terá de ser disputado depois, com outra composição.
O que o Congresso deve preservar
Pisos são o mínimo que a Constituição obriga o governo a gastar em saúde e educação. Eles existem para que essas áreas não dependam do aperto de caixa de cada ano. O texto do projeto, porém, limita o crescimento desses gastos vinculados, segundo o Movimento Econômico.
Uma nota técnica do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento estima redução de R$ 8,6 bilhões a R$ 16,6 bilhões em saúde e educação em 2027. A estimativa depende do preço do petróleo, segundo o jornal A Crítica. Trata-se de projeção de terceiros, e o Congresso deve checá-la antes de votar.
As emendas somam R$ 44,8 bilhões, R$ 4 bilhões a mais que os R$ 40,8 bilhões previstos para 2026, segundo a Agência Brasil. Já o Bolsa Família terá R$ 155,8 bilhões para 19,8 milhões de famílias, segundo o Congresso em Foco. Esse programa não deve ser usado como moeda de ajuste.
O argumento fiscal merece resposta, não desprezo. A IFI, órgão ligado ao Senado, projeta déficit primário de R$ 86,1 bilhões em 2027. Ela usa crescimento de 1,8% do PIB, contra 2,5% do governo, e considera o projeto relativamente otimista. Se a IFI tiver razão, o governo terá de congelar R$ 35,7 bilhões em despesas.
A resposta não é gastar sem limite. Segundo a IFI, o congelamento recairia sobre despesas discricionárias, como investimentos e obras. São gastos que o governo pode reduzir sem obrigação legal direta. Por isso, a escolha dessas prioridades deve estar escrita na lei, e não ficar para depois da votação.
O ponto mais urgente é o remanejamento de cerca de R$ 20 bilhões. Em 19 de outubro, o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO) informou que o dinheiro serve para custear medidas de estímulo econômico. A pasta não disse de quais áreas ele sai. Sem essa resposta, o Congresso não deveria votar no escuro.
O que diz o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO): Em nota de 19 de outubro, a pasta afirmou que o remanejamento será feito “sem elevar o teto de despesas nem alterar a meta de resultado primário”, segundo a Agência Brasil. Não detalhou quais despesas serão reduzidas.
A pergunta de dezembro não é se o país pode gastar. É para quê, e com que controle. Um Orçamento que proteja saúde, educação, Bolsa Família e investimento é projeto de país, não favor eleitoral. Até 22 de dezembro, o Congresso decide o texto que segue para sanção. Deve decidir em público, com números que qualquer cidadão possa rastrear.
Este é um texto de opinião da redação do Jornal da Pátria. Os fatos e números vêm das fontes listadas abaixo; a conclusão é da redação.
Como fizemos: Usamos o resumo do PLOA da Agência Gov e as reportagens do Congresso em Foco, da Agência Brasil e do Movimento Econômico sobre o projeto, publicadas entre 31/8 e 1/9/2026, além da reportagem do A Crítica (13/8/2026) sobre a nota técnica, da nota do MPO de 19/10/2026 e da projeção da IFI no Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 116 (setembro de 2026). Acessamos as fontes em 27/10/2026. O Congresso em Foco registra emendas de R$ 44,7 bilhões; usamos o valor de R$ 44,8 bilhões da Agência Brasil. Não localizamos a designação do relator da LDO 2027 nas fontes consultadas.
Fontes
- Governo federal apresenta projeto de orçamento de 2027 com previsão de superávit primário de R$ 18,6 bilhões — Agência Gov (1/9/2026)
- Confira a íntegra do Orçamento de 2027 e veja os principais números — Congresso em Foco (1/9/2026)
- Orçamento de 2027 reserva R$ 44,8 bilhões para emendas impositivas — Agência Brasil, via Acessa (31/8/2026)
- Orçamento de 2027 preve salário mínimo de R$ 1.741 e R$ 6 bilhões para Correios — Movimento Econômico (31/8/2026)
- Projeto pode reduzir até R$ 16,6 bilhões de saúde e educação em 2027 — A Crítica (13/8/2026)
- Governo pretende realocar R$ 20 bilhões no Orçamento de 2027 — Agência Brasil, via Poder360 (19/10/2026)
- IFI prevê déficit de R$ 86 bilhões em 2027 e aponta necessidade de bloquear R$ 35,7 bilhões — Brasil 61 (26/9/2026)
- Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 116 — Instituição Fiscal Independente, Senado Federal (setembro de 2026)
- Nova Câmara: veja os 513 deputados federais eleitos em 2026 — Congresso em Foco (5/10/2026)
- Alcolumbre adia negociação do Orçamento para pós-eleição — coluna de Iander Porcella, SBT News (30/6/2026)
- Resultado do 2º turno: Lula é reeleito com 51,79% dos votos válidos — Bloomberg Línea (26/10/2026)
- Constituição Federal, com o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e o artigo 57 — Planalto (acesso em 27/10/2026)
- Fachada do Congresso Nacional, foto de Roque de Sá / Agência Senado — Wikimedia Commons (CC BY 2.0) (acesso em 27/10/2026)



