Rachadinha caiu com sigilos anulados; no debate, Flávio não aceitou abrir o seu
Quatro decisões judiciais derrubaram, por falhas de procedimento, as provas bancárias contra Flávio, e o mérito do caso nunca foi julgado.

No debate da Band, no domingo (18), o presidente Lula (PT) desafiou Flávio Bolsonaro (PL) a abrir os sigilos bancário e telefônico das duas famílias. Flávio disse não ter “absolutamente nada a esconder”, mas não aceitou o desafio. Em seguida, acusou Lula de ter dinheiro “por fora” e citou o filho do presidente, segundo a CNN Brasil e o ND+.
A recusa tem história. No caso da rachadinha, esquema em que funcionários devolvem parte do salário ao chefe, a acusação contra Flávio não caiu por falta de indícios. Caiu porque a Justiça anulou, por falhas de procedimento, as quebras de sigilo que a sustentavam. Na noite do debate, as buscas no Google por “Flávio rachadinha” passaram de 50 mil em quatro horas, segundo o Poder360.
O tema não é só passado. Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) no caso Dark Horse, sobre o financiamento de um filme sobre o pai. Segundo o portal O Hoje, a Polícia Federal (PF) viu divergência “severa”: mais de US$ 12 milhões saíram do país, mas só US$ 2,8 milhões tiveram entrada registrada. Flávio diz que o filme “não tem um centavo de dinheiro público”.
O que as contas mostravam
Os números da acusação vinham das contas. Em dezembro de 2019, o Ministério Público do Rio (MP-RJ) apontou um padrão nas contas de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio. Ele recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos de 13 assessores do gabinete. Do valor, 69% chegou em dinheiro vivo, segundo A Gazeta.
Pela conta da redação, são cerca de R$ 1,4 milhão em espécie, numa média de R$ 4,3 mil por depósito. Em junho de 2020, o Poder360 revelou imagens obtidas pelo MP-RJ de Queiroz pagando em espécie mensalidades escolares das filhas do senador. Segundo o MP, 53 boletos escolares, somando R$ 153 mil, foram pagos com dinheiro que não saiu das contas do casal.
Em outubro de 2020, o MP-RJ denunciou 17 pessoas, entre elas Flávio e Queiroz, segundo a Agência Brasil. As acusações eram de peculato, o desvio de dinheiro público por quem tem cargo público, além de lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa.
Quatro decisões, nenhum julgamento
A tabela abaixo mostra como o caso se desmontou nos tribunais. Em fevereiro de 2021, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou, por 4 votos a 1, as quebras de sigilo bancário e fiscal. Também anulou o compartilhamento de dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que monitora movimentações suspeitas.
Quatro decisões em quatro anos derrubaram a acusação da rachadinha Principais etapas do caso contra Flávio Bolsonaro, de outubro de 2020 a fevereiro de 2025
| Data | Órgão | Decisão | Placar |
|---|---|---|---|
| out/2020 | MP-RJ | Denuncia 17 pessoas, entre elas Flávio e Queiroz | – |
| fev/2021 | STJ (5ª Turma) | Anula quebras de sigilo bancário e fiscal e dados do Coaf | 4 a 1 |
| nov/2021 | STF (2ª Turma) | Anula 4 dos 5 relatórios do Coaf | 3 a 1 |
| mai/2022 | TJ-RJ (Órgão Especial) | Rejeita a denúncia | não informado |
| fev/2025 | STF (Gilmar Mendes) | Nega os últimos recursos do MP-RJ | decisão individual |
Fonte: Agência Brasil, Migalhas, Poder360 e Brasil de Fato. Elaboração: redação.
Para a maioria do STJ, as decisões de quebra não tinham “fundamento adequado”, relatou o Migalhas. Em novembro de 2021, o STF manteve só o primeiro relatório do Coaf, que apontava R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas de Queiroz, segundo o Poder360.
Em maio de 2022, o próprio procurador-geral de Justiça do Rio pediu a anulação da denúncia. O Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) a rejeitou, porque ela se apoiava em provas anuladas. O relator observou, porém, que as condutas descritas poderiam configurar crimes.
Em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes negou os últimos recursos do MP-RJ. Segundo o Poder360, ele registrou que as anulações não impedem uma nova denúncia. Ou seja, Flávio foi denunciado e nunca foi julgado. Não foi condenado nem absolvido no mérito.
O que ele já admitiu
Alguns fatos vieram do próprio Flávio, não das provas anuladas. Em agosto de 2020, disse ao jornal O Globo: “Pode ser que, por ventura eu tenha mandado, sim, o Queiroz pagar uma conta minha”. Entre os pagamentos, cerca de R$ 100 mil do plano de saúde da família, segundo o Congresso em Foco. Flávio afirmou que o dinheiro era dele.
Em abril de 2026, ele disse que Queiroz agiu sem o seu conhecimento. Afirmou ainda que mais de 30 assessores tiveram o sigilo quebrado sem que aparecesse transferência para ele, relatou o Correio Braziliense. Pela lógica do desafio de Lula, se isso vale para os assessores, abrir as próprias contas só confirmaria a defesa.
O que diz Flávio Bolsonaro: No debate, afirmou: “Eu não tenho absolutamente nada a esconder” (CNN Brasil). Em abril de 2026, disse que Queiroz “colocou no papel que eu jamais tinha conhecimento disso” e ligou as investigações ao contexto político após a eleição do pai (Correio Braziliense). Em 2019, afirmou que seu sigilo foi quebrado “sem autorização da Justiça” e que havia “militância política” no MP (Congresso em Foco).
O que fica em aberto
Ninguém é obrigado a abrir o próprio sigilo. Com as provas anuladas, a Justiça não decidiu a rachadinha em nenhum dos sentidos. A seis dias do segundo turno, o desafio do debate não teve resposta direta de Flávio.
Como fizemos: Reunimos as decisões judiciais do caso da rachadinha de outubro de 2020 a fevereiro de 2025 e os números da investigação divulgados pelo MP-RJ em 2019 e 2020, conforme relatados pela imprensa. Calculamos a parcela em espécie (69% de R$ 2,06 milhões, cerca de R$ 1,4 milhão) e a média por depósito (R$ 2,06 milhões divididos por 483). Datas, placares, valores e falas foram verificados nas fontes abaixo, acessadas em outubro de 2026. Os números do MP são acusações, não fatos julgados, e parte deles veio de dados que a Justiça depois anulou. Não localizamos a íntegra da decisão do TJ-RJ de 2022.
Fontes
- Lula fala em abrir sigilos; Flávio diz que não tem nada a esconder — CNN Brasil (acesso em outubro de 2026)
- Lula desafia Flávio a abrir sigilos bancários das famílias durante debate — ND+ (acesso em outubro de 2026)
- Buscas por Flávio Bolsonaro disparam após debate com Lula na Band — Poder360 (acesso em outubro de 2026)
- PF aponta severa divergência em valores enviados ao exterior para financiar filme sobre Bolsonaro — O Hoje (acesso em outubro de 2026)
- Flávio é investigado no STF por financiamento do “Dark Horse” — Poder360 (acesso em outubro de 2026)
- “Dark Horse não tem um centavo de dinheiro público”, diz Flávio — Congresso em Foco (acesso em outubro de 2026)
- Queiroz recebeu R$ 2 milhões em depósitos de 13 indicados por Flávio, diz MP — A Gazeta (acesso em outubro de 2026)
- MP-RJ obteve imagens de Queiroz pagando boletos de Flávio Bolsonaro — Poder360 (acesso em outubro de 2026)
- MP do Rio denuncia 17 investigados por lavagem de dinheiro e peculato — Agência Brasil (acesso em outubro de 2026)
- STJ anula quebra de sigilo bancário de Flávio Bolsonaro — Migalhas (acesso em outubro de 2026)
- STF anula 4 relatórios do Coaf que miravam Flávio no caso das rachadinhas — Poder360 (acesso em outubro de 2026)
- Justiça arquiva denúncia contra Flávio Bolsonaro por “rachadinhas” — Poder360 (acesso em outubro de 2026)
- Ministério Público do RJ questiona no STF rejeição de denúncia contra Flávio Bolsonaro — Brasil de Fato (acesso em outubro de 2026)
- Gilmar nega pedido para reabrir ação contra Flávio por rachadinha — Poder360 (acesso em outubro de 2026)
- Flávio Bolsonaro admite que Queiroz pagava suas contas e critica Lava Jato — Congresso em Foco (acesso em outubro de 2026)
- Flávio Bolsonaro quer abordar rachadinha na pré-campanha — Correio Braziliense (acesso em outubro de 2026)
- Flávio Bolsonaro afirma que militância política está no Ministério Público na investigação sobre Queiroz — Congresso em Foco (acesso em outubro de 2026)



