Tesouraço virou corrupção, mas não diz de onde sai o dinheiro
Em agosto, o corte previsto era de cerca de R$ 190 bilhões; no debate da Band, o alvo passou a ser a corrupção do governo Lula.

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL) disse que vai fazer um “tesouraço na corrupção” do governo Lula. A palavra batiza o plano econômico da campanha. Em agosto, porém, ela significava corte de gastos.
A troca de alvo deixa sem resposta a pergunta central: quanto o tesouraço corta, e de onde sai o dinheiro? Os números citados desde agosto mudaram de tamanho, e não só de nome. A tabela abaixo reúne os valores.
Em 3 de agosto, a economista Daniella Marques, coordenadora do programa econômico, apresentou o plano em entrevista à GloboNews. Ela falou em um corte de despesas de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz. Com base nos resultados de 2025, seriam cerca de R$ 190 bilhões.
Em 8 de outubro, a Folha revelou que a equipe estudava reduzir despesas obrigatórias em cerca de 2% do PIB, ou R$ 250 bilhões. A proposta corrigiria aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, só pela inflação. Flávio chamou a reportagem de “fake news”.
Quanto vale o tesouraço?
Os valores variam, e nem todos são cortes. O maior deles, de R$ 200 bilhões a R$ 400 bilhões, é receita, não corte. A securitização usa valores que a União tem a receber, como a dívida ativa (o que devedores ainda não pagaram), para levantar dinheiro com investidores.
Em dez semanas, o “tesouraço” foi de R$ 190 bi a R$ 400 bi Valores citados entre 3 de agosto e 16 de outubro de 2026, em R$ bilhões nominais
| Valor (R$ bi) | O que representa | Data |
|---|---|---|
| 200 a 400 | Receita com securitização da dívida ativa, não corte | 3/8 |
| 250 | Corte de despesas obrigatórias, cerca de 2% do PIB (reportagem da Folha) | 8/10 |
| 200 | Ajuste das contas públicas sem redução de benefícios sociais (entrevista à TV Globo) | 16/10 |
| 190 | Corte de despesas de 1,5% do PIB, com base em 2025 | 3/8 |
Fonte: Gazeta do Povo, IstoÉ Dinheiro e Movimento Econômico, com base em entrevistas e na Folha. Elaboração: redação.
As duas contas da campanha são coerentes entre si. Pelo cálculo da redação, R$ 190 bilhões equivalem a 1,5% do PIB se o PIB for de cerca de R$ 12,7 trilhões. Já R$ 250 bilhões, a 2%, implicam um PIB de R$ 12,5 trilhões.
Corrupção não é uma linha do Orçamento
O Orçamento organiza despesas por órgão, programa e ação. Combater a corrupção é papel de órgãos de controle, não uma despesa a cortar. Por isso, trocar a palavra não responde à pergunta: de onde sairiam os R$ 200 bilhões?
Na TV Globo, na sexta-feira (16), Flávio prometeu um ajuste de R$ 200 bilhões nas contas públicas, sem reduzir benefícios sociais, segundo o Movimento Econômico. O economista Marcelo Kayath, cotado para a equipe econômica, considera inviável um ajuste desse valor em um ano, segundo o Terra e o jornal A Crítica.
Outros economistas também questionam a conta. Monica de Bolle disse que ela “não fecha de jeito algum”. Sergio Vale, da MB Associados, chamou o corte de irreal, segundo o Correio Braziliense. Os ex-ministros Arminio Fraga e Henrique Meirelles esperam que Flávio evite detalhar o ajuste, segundo o Jornal de Brasília.
Juros e dívida: o diagnóstico se sustenta
Flávio disse que, como presidente, “os juros já vão começar a cair de uma forma muito rápida”, segundo o Metrópoles. Mas a taxa não depende só do presidente. A Selic, taxa básica de juros do país, é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central.
Em 16 de setembro, o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano, o quinto corte seguido. Desde março, quando estava em 15%, a taxa caiu 1,25 ponto percentual. Isso equivale a uma queda de 8,3%, cálculo da redação. O boletim Focus, pesquisa do Banco Central com projeções do mercado, aponta 13,25% ao fim de 2026 e 12% ao fim de 2027, segundo o Diario de Pernambuco.
A dívida bruta do governo, que soma tudo o que o país deve, chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto. Isso equivale a 82,9% do PIB, segundo o Banco Central. A agência Lupa classificou a afirmação de Flávio como verdadeira. O diagnóstico se sustenta; o que falta é detalhar o corte.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele afirma que o tesouraço vai mirar a corrupção do governo Lula, e não direitos. Segundo a Folha, ele negou cortes em benefícios sociais e disse que pretende reajustar aposentadorias acima da inflação. Chamou a reportagem de “fake news”, e sua assessoria disse que ainda não há posição oficial sobre o tema.
O que isso significa
A troca de palavra mudou o nome do alvo, mas não os números. Entre agosto e outubro, os valores citados foram de R$ 190 bilhões a R$ 400 bilhões, e as entrevistas não detalharam quanto cada medida renderia.
Fica em aberto se a campanha vai detalhar a conta antes do Orçamento de 2027, que o Congresso costuma votar no fim do ano. A cinco dias do segundo turno, o eleitor ainda não sabe qual dessas contas chegaria ao Orçamento.
Como fizemos: Reunimos os valores citados por Flávio Bolsonaro, sua equipe e a imprensa entre 3 de agosto e 16 de outubro de 2026, verificados e acessados em 21 de outubro de 2026, sem correção pela inflação porque todos são de 2026. Calculamos a base de PIB implícita nas contas da campanha (R$ 190 bilhões ÷ 1,5%; R$ 250 bilhões ÷ 2%) e a queda da Selic em pontos percentuais e em porcentagem. Dívida e Selic vêm de checagens e reportagens, não de consulta direta aos sites do Banco Central. Os valores de campanha não foram auditados e não mostram quanto cada medida renderia; as declarações de Monica de Bolle, Sergio Vale, Arminio Fraga e Henrique Meirelles não foram localizadas nas fontes consultadas.
Correção: uma versão anterior deste texto atribuía ao debate da Band a promessa de liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento, sem fonte que a confirmasse, e dava 7 e 8 de outubro como datas da reportagem da Folha. A promessa verificada foi feita à TV Globo, na sexta-feira (16), e a data verificada da reportagem é 8 de outubro.
Fontes
- Flávio fala em “tesouraço na corrupção” do governo Lula — Poder360
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Daniella Marques diz que plano de Flávio Bolsonaro prevê corte de R$ 190 bi em gastos — Gazeta do Povo (acesso em 21/10/2026)
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro (acesso em 21/10/2026)
- Flávio diz que é fake news matéria da Folha sobre plano que reduz aposentadorias — Bahia Notícias (acesso em 21/10/2026)
- Se eleito, Flávio diz que a taxa de juros vai cair de forma muito rápida — Metrópoles (acesso em 21/10/2026)
- Gastos públicos, impostos e trabalho separam os planos econômicos de Lula e Flávio — Movimento Econômico (acesso em 21/10/2026)
- Ao vivo: checagem do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band — Lupa (acesso em 21/10/2026)
- Lula critica tesouraço e questiona onde Flávio Bolsonaro fará corte de R$ 250 bilhões — Terra (acesso em 21/10/2026)
- Cotado para Fazenda de Flávio vê corte de R$ 200 bilhões em um ano como inviável — A Crítica (acesso em 21/10/2026)
- Selic cai para 13,75%: o que muda após a decisão do Copom — 99app (acesso em 21/10/2026)
- Estimativa para a Selic ao fim de 2026 passa de 13,50% para 13,25% — Diario de Pernambuco (acesso em 21/10/2026)



