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Eleições

Flávio pôs urnas em dúvida em todo ano de eleição presidencial desde 2014

Além das urnas, o candidato chama de "farsa" a condenação do pai, promete indulto por decreto e teve três posts derrubados pelo TSE em 8 de outubro.

Urna eletrônica brasileira branca, com teclado numérico e teclas branco, corrige e confirma, ao lado do terminal do mesário, sobre uma mesa.
A urna eletrônica modelo UE2020, apresentada pelo Tribunal Superior Eleitoral em Brasília, em dezembro de 2021.Foto: Antonio Augusto / Secom / TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Em 8 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou, por unanimidade, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) apagar três publicações no X. Uma usava inteligência artificial para mostrar Lula numa cena inventada, sem aviso. As outras duas ligavam o presidente às facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho “sem base factual mínima”, segundo o relator, ministro André Mendonça, citado pelo Poder360.

A decisão é a mais recente de um padrão mais antigo que esta campanha. O Jornal de Brasília reuniu 12 falas de Flávio sobre as urnas desde 2014. Nossa análise da lista mostra que ele pôs a urna em dúvida em todos os anos de eleição presidencial desde então: 2014, 2018, 2022 e 2026.

Flávio chega ao segundo turno, em 25 de outubro, em primeiro lugar. Com 98,6% das urnas apuradas, tinha cerca de 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula (PT), segundo o Congresso em Foco. Além das urnas, ele contesta a sentença que condenou o pai e promete desfazê-la por decreto.

Doze anos de idas e vindas

A tabela abaixo resume oito das 12 falas. A primeira e a última repetem a mesma tese falsa: a de que as urnas brasileiras viriam da empresa venezuelana Smartmatic.

Smartmatic abre e fecha 12 anos de dúvidas de Flávio sobre a urna Oito das 12 declarações de Flávio Bolsonaro sobre a urna eletrônica reunidas pelo Jornal de Brasília, de 2014 a julho de 2026

Quando Onde O que disse
Fim de 2014 Como deputado estadual no Rio Disse que a urna usa “um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic”
Set. 2018 Redes sociais “Impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso”
Ago. 2021 Após a Câmara rejeitar o voto impresso Sem novas medidas do TSE, haveria “eleições sob suspeita”
Out. 2022 Entrevista ao jornal O Globo Sobre fraude: “Não aconteceu, mas podia ter acontecido”
Abr. 2024 Programa Roda Viva Chamou o tema de “página virada”
Dez. 2025 Podcast Flow “A gente nunca vai ter um atestado ali”
Mar. 2026 Conferência conservadora no Texas (EUA) Venceria se “os votos forem contados corretamente”
Jul. 2026 Almoço com embaixadores em Brasília Máquinas teriam “a mesma origem dessa empresa venezuelana”

Fonte: Jornal de Brasília e Metrópoles. Seleção das linhas: redação.

Entre as dúvidas, há recuos. Em setembro de 2022, Flávio disse ao Metrópoles que a chance de fraude era “quase zero”. No Roda Viva, chamou o tema de encerrado e, segundos depois, voltou a ele, relatou o Jornal de Brasília. Em 2023, foi coautor de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do voto impresso.

A mesma cena, quatro anos depois

Em 21 de julho de 2026, Flávio pediu a embaixadores estrangeiros que enviassem observadores à eleição. No mesmo almoço, ligou as urnas à Smartmatic. O TSE afirma que a empresa nunca forneceu nem programou as urnas, relatou o Metrópoles. A campanha disse que ele tem “integral confiança” no sistema, mas não corrigiu o dado.

A cena veio quatro anos e três dias depois de outra. Em 18 de julho de 2022, Jair Bolsonaro reuniu 92 embaixadores no Palácio da Alvorada e questionou as urnas. Por essa reunião, o TSE o declarou inelegível por oito anos, por 5 votos a 2, em junho de 2023.

A sentença e a caneta do indulto

Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Jair Bolsonaro por 4 votos a 1. Foram cinco crimes, entre eles golpe de Estado, e pena de 27 anos e 3 meses, segundo a CNN Brasil. A condenação ficou definitiva, sem recurso possível, em 25 de novembro de 2025, segundo a Reuters.

No dia da condenação, Flávio chamou o julgamento de “farsa” e o ministro Alexandre de Moraes de “um psicopata”, relatou o Correio Braziliense. Ele acusou ministros de parcialidade e perseguição política. Em agosto de 2026, à TV Globo, falou em “uma grande farsa orquestrada”, segundo a Euronews.

Na mesma entrevista, prometeu buscar uma anistia ainda na transição de governo e, “caso não ocorra, um indulto”. A anistia depende do Congresso. O indulto é o perdão de pena que o presidente concede sozinho, por decreto. A promessa não traz condição, como revisão do processo.

O programa de governo, registrado no TSE em 13 de agosto, propõe tirar do STF os processos criminais de autoridades. Também quer limitar as decisões individuais dos ministros e criar quarentena de um ano para indicados à Corte. Parte disso exige PECs, que precisam de três quintos dos votos, em dois turnos, nas duas Casas, segundo o Congresso em Foco.

O que diz Flávio Bolsonaro: O senador sustenta que o pai é alvo de perseguição política. Em novembro de 2024, disse que uma anistia “ampla, geral e irrestrita” é “o único caminho para alguma normalidade e para algum reequilíbrio entre os Poderes”, segundo a Gazeta do Povo. Sobre as urnas, a campanha afirmou em julho que ele tem “integral confiança” no sistema e “não está questionando o sistema de votação brasileiro”, segundo o Metrópoles.

O que está em jogo no dia 25

Separadas, cada fala pode ser lida como retórica de campanha. Juntas, mostram uma linha: a sentença é chamada de farsa, o perdão é anunciado antes da posse e a dúvida sobre a contagem volta a cada eleição presidencial.

Na posse, o presidente presta o compromisso de “manter, defender e cumprir a Constituição”. Flávio já disse em público o que pretende fazer com a caneta do indulto. No dia 25, o eleitor decide quem vai segurá-la.

Como fizemos: Partimos das 12 declarações de Flávio Bolsonaro sobre a urna eletrônica listadas pelo Jornal de Brasília, de 2014 a julho de 2026, e verificamos em quais anos de eleição presidencial houve fala pondo a urna em dúvida; a tabela mostra oito delas, escolhidas pela redação. Contamos o intervalo entre as reuniões com embaixadores de 18 de julho de 2022 e 21 de julho de 2026. Decisões do TSE e do STF, o resultado do primeiro turno e as falas citadas foram verificados e acessados em outubro de 2026 nas fontes abaixo; a página do TSE sobre a decisão de 8 de outubro bloqueou o acesso automatizado, e a decisão foi confirmada pelo Poder360. A lista do Jornal de Brasília não é um registro completo de tudo o que o candidato disse, e a separação entre dúvida e recuo é uma leitura editorial das frases.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia, na linha fina, que Flávio põe as urnas em dúvida “há quatro anos”. Segundo o levantamento do Jornal de Brasília, as declarações começam em 2014.

Fontes