Flávio pôs urnas em dúvida em todo ano de eleição presidencial desde 2014
Além das urnas, o candidato chama de "farsa" a condenação do pai, promete indulto por decreto e teve três posts derrubados pelo TSE em 8 de outubro.

Em 8 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou, por unanimidade, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) apagar três publicações no X. Uma usava inteligência artificial para mostrar Lula numa cena inventada, sem aviso. As outras duas ligavam o presidente às facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho “sem base factual mínima”, segundo o relator, ministro André Mendonça, citado pelo Poder360.
A decisão é a mais recente de um padrão mais antigo que esta campanha. O Jornal de Brasília reuniu 12 falas de Flávio sobre as urnas desde 2014. Nossa análise da lista mostra que ele pôs a urna em dúvida em todos os anos de eleição presidencial desde então: 2014, 2018, 2022 e 2026.
Flávio chega ao segundo turno, em 25 de outubro, em primeiro lugar. Com 98,6% das urnas apuradas, tinha cerca de 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula (PT), segundo o Congresso em Foco. Além das urnas, ele contesta a sentença que condenou o pai e promete desfazê-la por decreto.
Doze anos de idas e vindas
A tabela abaixo resume oito das 12 falas. A primeira e a última repetem a mesma tese falsa: a de que as urnas brasileiras viriam da empresa venezuelana Smartmatic.
Smartmatic abre e fecha 12 anos de dúvidas de Flávio sobre a urna Oito das 12 declarações de Flávio Bolsonaro sobre a urna eletrônica reunidas pelo Jornal de Brasília, de 2014 a julho de 2026
| Quando | Onde | O que disse |
|---|---|---|
| Fim de 2014 | Como deputado estadual no Rio | Disse que a urna usa “um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic” |
| Set. 2018 | Redes sociais | “Impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso” |
| Ago. 2021 | Após a Câmara rejeitar o voto impresso | Sem novas medidas do TSE, haveria “eleições sob suspeita” |
| Out. 2022 | Entrevista ao jornal O Globo | Sobre fraude: “Não aconteceu, mas podia ter acontecido” |
| Abr. 2024 | Programa Roda Viva | Chamou o tema de “página virada” |
| Dez. 2025 | Podcast Flow | “A gente nunca vai ter um atestado ali” |
| Mar. 2026 | Conferência conservadora no Texas (EUA) | Venceria se “os votos forem contados corretamente” |
| Jul. 2026 | Almoço com embaixadores em Brasília | Máquinas teriam “a mesma origem dessa empresa venezuelana” |
Fonte: Jornal de Brasília e Metrópoles. Seleção das linhas: redação.
Entre as dúvidas, há recuos. Em setembro de 2022, Flávio disse ao Metrópoles que a chance de fraude era “quase zero”. No Roda Viva, chamou o tema de encerrado e, segundos depois, voltou a ele, relatou o Jornal de Brasília. Em 2023, foi coautor de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do voto impresso.
A mesma cena, quatro anos depois
Em 21 de julho de 2026, Flávio pediu a embaixadores estrangeiros que enviassem observadores à eleição. No mesmo almoço, ligou as urnas à Smartmatic. O TSE afirma que a empresa nunca forneceu nem programou as urnas, relatou o Metrópoles. A campanha disse que ele tem “integral confiança” no sistema, mas não corrigiu o dado.
A cena veio quatro anos e três dias depois de outra. Em 18 de julho de 2022, Jair Bolsonaro reuniu 92 embaixadores no Palácio da Alvorada e questionou as urnas. Por essa reunião, o TSE o declarou inelegível por oito anos, por 5 votos a 2, em junho de 2023.
A sentença e a caneta do indulto
Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Jair Bolsonaro por 4 votos a 1. Foram cinco crimes, entre eles golpe de Estado, e pena de 27 anos e 3 meses, segundo a CNN Brasil. A condenação ficou definitiva, sem recurso possível, em 25 de novembro de 2025, segundo a Reuters.
No dia da condenação, Flávio chamou o julgamento de “farsa” e o ministro Alexandre de Moraes de “um psicopata”, relatou o Correio Braziliense. Ele acusou ministros de parcialidade e perseguição política. Em agosto de 2026, à TV Globo, falou em “uma grande farsa orquestrada”, segundo a Euronews.
Na mesma entrevista, prometeu buscar uma anistia ainda na transição de governo e, “caso não ocorra, um indulto”. A anistia depende do Congresso. O indulto é o perdão de pena que o presidente concede sozinho, por decreto. A promessa não traz condição, como revisão do processo.
O programa de governo, registrado no TSE em 13 de agosto, propõe tirar do STF os processos criminais de autoridades. Também quer limitar as decisões individuais dos ministros e criar quarentena de um ano para indicados à Corte. Parte disso exige PECs, que precisam de três quintos dos votos, em dois turnos, nas duas Casas, segundo o Congresso em Foco.
O que diz Flávio Bolsonaro: O senador sustenta que o pai é alvo de perseguição política. Em novembro de 2024, disse que uma anistia “ampla, geral e irrestrita” é “o único caminho para alguma normalidade e para algum reequilíbrio entre os Poderes”, segundo a Gazeta do Povo. Sobre as urnas, a campanha afirmou em julho que ele tem “integral confiança” no sistema e “não está questionando o sistema de votação brasileiro”, segundo o Metrópoles.
O que está em jogo no dia 25
Separadas, cada fala pode ser lida como retórica de campanha. Juntas, mostram uma linha: a sentença é chamada de farsa, o perdão é anunciado antes da posse e a dúvida sobre a contagem volta a cada eleição presidencial.
Na posse, o presidente presta o compromisso de “manter, defender e cumprir a Constituição”. Flávio já disse em público o que pretende fazer com a caneta do indulto. No dia 25, o eleitor decide quem vai segurá-la.
Como fizemos: Partimos das 12 declarações de Flávio Bolsonaro sobre a urna eletrônica listadas pelo Jornal de Brasília, de 2014 a julho de 2026, e verificamos em quais anos de eleição presidencial houve fala pondo a urna em dúvida; a tabela mostra oito delas, escolhidas pela redação. Contamos o intervalo entre as reuniões com embaixadores de 18 de julho de 2022 e 21 de julho de 2026. Decisões do TSE e do STF, o resultado do primeiro turno e as falas citadas foram verificados e acessados em outubro de 2026 nas fontes abaixo; a página do TSE sobre a decisão de 8 de outubro bloqueou o acesso automatizado, e a decisão foi confirmada pelo Poder360. A lista do Jornal de Brasília não é um registro completo de tudo o que o candidato disse, e a separação entre dúvida e recuo é uma leitura editorial das frases.
Correção: uma versão anterior deste texto dizia, na linha fina, que Flávio põe as urnas em dúvida “há quatro anos”. Segundo o levantamento do Jornal de Brasília, as declarações começam em 2014.
Fontes
- STF condena Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão — CNN Brasil
- STF declara trânsito em julgado de processo de Bolsonaro — Reuters, via Notícias Agrícolas
- Flávio Bolsonaro reage à condenação do pai e pede anistia ampla — Correio Braziliense
- Filho de Bolsonaro insiste que julgamento do pai foi uma “farsa” e que lhe concederá um indulto — Euronews
- Flávio propõe tirar processos criminais e reduzir competências do STF — Congresso em Foco
- Flávio Bolsonaro repete tese falsa sobre urnas desde 2014, alternando ataques e recuos — Jornal de Brasília
- Flávio diz confiar no sistema eleitoral, mas não corrige dado falso — Metrópoles
- TSE manda retirar do ar vídeos com uso de inteligência artificial publicados por Flávio Bolsonaro — TSE
- TSE manda Flávio Bolsonaro apagar posts com IA contra Lula — Poder360
- Flávio e Lula vão ao segundo turno da eleição presidencial — Congresso em Foco
- Com 5 votos contra 2, TSE torna Bolsonaro inelegível — Congresso em Foco
- Flávio Bolsonaro fala em perseguição política e defende anistia ampla — Gazeta do Povo
- Constituição Federal, art. 78 — texto reproduzido por Modelo Inicial e texto oficial no Planalto
- Dados da tabela 1 (fontes acessadas em outubro de 2026)



