Reajuste de 15% do Bolsa Família só repõe a inflação desde 2023
Decreto 13.120 leva o piso de R$ 600 para R$ 691, com custo de R$ 5,8 bi em 2026 e R$ 22,7 bi em 2027.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em 17 de setembro, o decreto que reajusta em 15,04% os valores do Bolsa Família. O piso por família sobe de R$ 600 para R$ 691, e o efeito financeiro começa em 1º de outubro.
Na prática, o reajuste repõe a inflação acumulada desde 2023 e não aumenta o poder de compra das famílias. Com as estimativas do governo, o custo mensal fica perto de R$ 1,9 bilhão.
O Decreto 13.120 foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União (DOU). O índice usado é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mede a inflação de famílias de renda mais baixa. Ele acumula 15,04% de março de 2023 a agosto de 2026.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) divulgou os novos valores por benefício. O Benefício de Renda de Cidadania, pago por pessoa da família, passa de R$ 142 para R$ 164. O Benefício Primeira Infância, para crianças de até 6 anos, vai de R$ 150 para R$ 173. A Lei 14.601/2023, que recriou o programa, prevê que os valores podem ser corrigidos em intervalos de no máximo 24 meses.
Quanto sobe cada benefício
A tabela abaixo mostra que todos os valores subiram entre 15% e 16%. O Benefício Variável Familiar teve a maior alta, de R$ 50 para R$ 58. Ele é pago por gestante, por nutriz (mãe que amamenta) e por criança ou adolescente de 7 a 18 anos.
Todos os benefícios sobem entre 15% e 16% Valores em reais, antes e depois do reajuste que vale a partir de outubro de 2026
| Benefício | Antes | Depois | Variação |
|---|---|---|---|
| Variável Familiar (por pessoa) | R$ 50 | R$ 58 | 16,0% |
| Renda de Cidadania (por pessoa) | R$ 142 | R$ 164 | 15,5% |
| Primeira Infância (por criança) | R$ 150 | R$ 173 | 15,3% |
| Piso por família | R$ 600 | R$ 691 | 15,2% |
| Benefício médio (estimativa do governo) | R$ 675 | R$ 777 | 15,1% |
Fonte: MDS, com os valores por benefício e a estimativa do benefício médio. Variações: cálculo da redação a partir dos valores em reais. O benefício médio é estimativa do governo; notas do MDS sobre dezembro de 2025 citam média de R$ 691,37 por família. Elaboração: redação.
Na conta direta, o piso sobe R$ 91 por família. As variações da tabela diferem um pouco de 15,04%, e as fontes consultadas não explicam como os valores em reais foram arredondados.
Quanto custa e onde a conta pesa
O governo estima um custo de R$ 5,8 bilhões em 2026 e de R$ 22,7 bilhões em 2027. Divididos pelos meses de pagamento (outubro a dezembro em 2026 e 12 meses em 2027), os valores dão cerca de R$ 1,9 bilhão por mês. Em dezembro de 2025, o programa atendeu cerca de 18,7 milhões de famílias e pagou R$ 12,7 bilhões, segundo o MDS e reportagens com dados do ministério. Com 15% sobre esse total, o reajuste dá quase R$ 1,9 bilhão por mês, o mesmo valor da conta acima.
Reajuste custa cerca de R$ 1,9 bilhão por mês em 2026 e em 2027 Custo anual estimado pelo governo e custo mensal calculado, em R$ bilhões, 2026 e 2027
| Ano | Custo anual | Meses | Custo mensal |
|---|---|---|---|
| 2027 | R$ 22,7 bi | 12 | R$ 1,9 bi |
| 2026 | R$ 5,8 bi | 3 | R$ 1,9 bi |
Fonte: estimativas do governo, citadas pelo Diário do Comércio e pela Gazeta do Povo. Meses e custo mensal: cálculo da redação. Elaboração: redação.
Em 2027, os R$ 22,7 bilhões equivalem a cerca de 14% dos R$ 157,1 bilhões que o projeto de lei orçamentária (PLOA) reservava ao programa. O PLOA, enviado ao Congresso em 31 de agosto, não previa o reajuste. Segundo o Diário do Comércio, a equipe econômica fará ajustes nos números do projeto.
O que dizem o governo e a Justiça
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse à CNN que o reajuste “foi pela inflação, não foi real”. Na sexta-feira (18), o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu a um pedido da Advocacia-Geral da União (AGU). Para ele, “trata-se apenas de atualização dos valores das prestações integrantes de programa social já existente”. O pedido veio de uma ação de 2020 da Defensoria Pública da União (DPU).
A AGU argumentou que o decreto “não institui benefício novo, não cria categoria adicional de beneficiários”. A lei eleitoral veda criar benefícios em anos eleitorais, segundo o Estadão Conteúdo. Há outro pedido: o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspensão do reajuste, alegando finalidade eleitoral. O relator é o ministro André Mendonça, e não localizamos decisão sobre o caso nas fontes consultadas.
O que diz o MDS: Segundo o ministro Wellington Dias, o reajuste mantém a capacidade do programa de proteger a renda e garante que as famílias atendam às necessidades essenciais. A informação consta da notícia publicada no site do ministério.
O que isso significa
Os dados indicam que o reajuste devolve a inflação acumulada desde março de 2023, sem ganho real para as famílias. O custo de 2027 não estava no projeto de Orçamento e exige ajuste nas contas do governo.
Em aberto ficam o pedido no TSE e o tamanho do ajuste no Orçamento. O primeiro turno da eleição foi em 4 de outubro, e o segundo está marcado para 25, segundo o calendário do TSE.
Como fizemos: Usamos os valores do Decreto 13.120 publicados pelo MDS e pela Agência Brasil, o custo estimado pelo governo e o PLOA de 2027, acessados em outubro de 2026. Calculamos as variações em reais e o custo mensal, dividindo 2026 por 3 meses (outubro a dezembro) e 2027 por 12. Também calculamos a parcela de cerca de 14% do Orçamento de 2027 e comparamos o custo com o total pago em dezembro de 2025, citado por reportagens com dados do MDS. Não recalculamos o INPC a partir da série do IBGE, os dados não mostram quantas famílias recebem cada faixa de valor, e as posições citadas são as publicadas, sem contato desta revisão com os órgãos.
Fontes
- Bolsa Família terá valor mínimo de R$ 691 a partir de outubro — MDS (acesso em outubro de 2026)
- Bolsa Família é reajustado em 15%; medida vale a partir de outubro — Agência Brasil
- Gilmar Mendes atende ao pedido da AGU e valida reajuste do Bolsa Família — Agência Brasil
- Gilmar Mendes valida reajuste do Bolsa Família feito por Lula antes das eleições — Gazeta do Povo
- Gilmar Mendes atende AGU e reconhece que reajuste do Bolsa Família não viola Lei Eleitoral — O Liberal (Estadão Conteúdo)
- Lei nº 14.601, de 19 de junho de 2023 — Planalto
- Reajuste do Bolsa Família vai custar R$ 22,7 bi em 2027, e governo precisará ajustar Orçamento — Diário do Comércio (acesso em outubro de 2026)
- Bolsa Família não terá reajuste previsto no orçamento de 2027 — Diário de Pernambuco (acesso em outubro de 2026)
- ‘Reajuste do Bolsa Família foi pela inflação, não foi real’, diz Durigan — Diário do Comércio (acesso em outubro de 2026)
- Fila do Bolsa Família termina 2025 com 503 mil a espera do benefício — Exame (cita dados de dezembro de 2025 publicados pela UOL) (acesso em outubro de 2026)
- Informe Bolsa Família nº 101 — MDS (acesso em outubro de 2026)
- Dados das tabelas: tabela-1.csv e tabela-2.csv



