Americanas perdeu 77% em um dia; diversificar não elimina o risco
Uma ação caiu 77% em um pregão. Diversificação, prazo e a diferença entre investir e apostar, com dados do Banco Central e da CVM.

Em 12 de janeiro de 2023, a ação da Americanas (código AMER3) fechou a R$ 2,72. No dia anterior, valia R$ 12. A queda de 77% veio um dia depois de a varejista anunciar inconsistências contábeis de R$ 20 bilhões, segundo o Poder360.
Quem tinha todo o dinheiro nessa ação viu o valor encolher quase quatro quintos em um só pregão. O caso mostra um ponto central: concentrar tudo em um único ativo pode gerar perdas grandes e rápidas.
Não colocar todos os ovos na mesma cesta
Diversificar é dividir o dinheiro entre ativos diferentes, para que o problema de um não derrube o conjunto. Segundo a superintendente de educação da B3, a bolsa brasileira, Christianne Bariquelli, a diversificação ajuda a reduzir riscos.
Na conta do caso Americanas, R$ 10 mil aplicados só nessa ação virariam cerca de R$ 2,3 mil no fechamento do dia. Com a mesma quantia dividida entre vários ativos, a queda de uma empresa pesaria bem menos.
Diversificar reduz o risco de uma empresa ou de um setor, mas não elimina o risco que atinge o mercado inteiro. Material de dicas financeiras do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) afirma que esse risco “não pode ser eliminado” pela diversificação.
Prazo: o tempo ajuda, mas não garante nada
Horizonte de investimento é o prazo em que o dinheiro fica aplicado. Em regra, quanto mais longo o prazo, mais tempo há para absorver quedas de curto prazo.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) lembra, em ofício de 2019 sobre publicidade de analistas, que retornos passados não garantem retornos futuros. O tempo, portanto, não é garantia de ganho.
Em geral, retorno maior vem com risco maior: um ativo que pode subir muito também pode cair muito. Quedas fortes podem se aprofundar antes de uma eventual recuperação, e nem todo ativo volta ao patamar anterior.
Educadores financeiros costumam recomendar, antes de qualquer aplicação de risco, uma reserva para imprevistos em dinheiro de fácil saque. Assim, uma emergência não obriga a vender um investimento na pior hora.
Investir ou apostar: o que os números mostram
Em 8 de abril de 2025, o secretário-executivo do Banco Central (BC), Rogério Lucca, falou na CPI das Bets do Senado. Ele disse que os apostadores podiam chegar a R$ 30 bilhões por mês em transferências para as plataformas. Esse valor é o que sai das contas, e não o prejuízo líquido.
Em 1º de setembro de 2026, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, afirmou: “Qualquer coisa diferente de dizer que bets não contribuem para a inadimplência é fake news”. Ele falou no Zetta Summit, em Brasília.
Um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC), de abril de 2026, diz que o aumento dos gastos com apostas “coincide temporalmente” com a alta do endividamento e da inadimplência. Coincidência no tempo não prova causa. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidade do setor, chamou as conclusões de “alarmistas”.
Três formas de colocar dinheiro em jogo têm riscos diferentes Comparação conceitual, com base nas fontes citadas; não é recomendação
| Investir, com diversificação | Apostar em uma ação | Apostar em bets | |
|---|---|---|---|
| Onde está o risco | Espalhado entre ativos; o risco de mercado continua | Concentrado em uma empresa | Concentrado em um resultado de jogo |
| Pode perder o valor aplicado? | Sim | Sim; a Americanas caiu 77% em um pregão | Sim, o valor apostado pode ser perdido |
| Prazo | Longo, para absorver quedas | Qualquer, sem garantia de recuperação | Imediato, a cada aposta |
| Resultado médio | Depende dos ativos; pode ser positivo ou negativo | Depende da empresa; pode ser positivo ou negativo | Em média, a casa de apostas fica com parte de cada aposta |
Fonte: CVM (Ofício Circular CVM/SIN 6/19), B3, Poder360. Elaboração: redação.
O que diz a CVM: em ofício de 2019 sobre a publicidade de analistas, a comissão afirma que “investimentos envolvem riscos e podem ensejar perdas, inclusive da totalidade do capital investido”. O texto é dirigido a analistas, não a investidores em geral.
O que isso significa
Diversificar, ter prazo e separar investimento de aposta reduzem riscos, mas não os eliminam. Ações podem perder valor, e uma queda pode se aprofundar em momentos de pânico. Este texto explica conceitos e não é recomendação de investimento.
Nenhuma aplicação tem retorno garantido. Antes de decidir, cada pessoa deve avaliar a própria situação, as perdas possíveis e o prazo de que precisa.
Como fizemos: Usamos o fechamento da AMER3 em 12/01/2023 e o preço do dia anterior, segundo o Poder360, acessado em 26/10/2026. A simulação de R$ 10 mil é conta própria: 10.000 × 2,72 ÷ 12 ≈ 2.267, sem custos nem impostos. Os valores de bets vêm de falas do BC e de um estudo da CNC, citados em reportagens acessadas em 26/10/2026; esses dados não medem o prejuízo de cada pessoa. Não encontramos, nesta apuração, texto oficial da CVM ou do BC sobre reserva de emergência, e por isso o trecho a descreve como prática corrente.
Fontes
- Poder360: ações da Americanas caem 77% depois de rombo nas contas (12/01/2023)
- Poder360: bets recebem até R$ 30 bi ao mês de apostadores, diz BC (08/04/2025)
- Mercado & Consumo: diretor do BC diz que bets são problema e fator central do endividamento (01/09/2026)
- Metrópoles: estudo da CNC associa crescimento do endividamento a bets (28/04/2026)
- Tribuna PR: CVM edita normas para publicidade de analistas e veda garantia de rentabilidade (14/06/2019)
- Times Brasil: diversificação de investimentos, como minimizar riscos e maximizar retornos (06/03/2025)
- Tribunal de Justiça de Santa Catarina: Desmistificando riscos


