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Orçamento

Em 2002, a Bolsa caiu 17%; em 2003, subiu 97%

Antes da vitória de Lula em 2002, o dólar e o risco-país subiram forte; em 2003, a Bolsa subiu 97%, mas o passado não garante o futuro.

Dois operadores de costas em mesas de pregão diante de painéis de cotações da Bolsa de Valores de São Paulo, com números em vermelho e verde.
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em foto de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na segunda-feira (26), o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. O Ibovespa é o principal índice da B3, a bolsa de valores de São Paulo, e reúne as ações mais negociadas do país. Às 9h57, a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações por 30 minutos em quedas fortes, segundo a InfoMoney.

O dólar comercial, a cotação da moeda americana usada no comércio, subiu cerca de 8% e fechou perto de R$ 5,40. A reação veio um dia depois de Lula vencer o segundo turno com 51,79% dos votos válidos, segundo o GPS Brasília. Não é a primeira vez que uma eleição de Lula abala os investidores. Em 2002, o medo se arrastou por meses, e a alta da Bolsa veio no ano seguinte.

Para entender 2002, é preciso conhecer dois indicadores. O primeiro é o risco-país, a taxa extra que o país paga para tomar dinheiro no exterior, em comparação com os títulos do governo dos Estados Unidos. Ele é medido em pontos-base, e 100 pontos-base equivalem a 1 ponto percentual. O segundo é o dólar, que encarece dívidas e produtos importados quando sobe.

O que o mercado viveu em 2002

O dólar foi de R$ 2,27, o menor valor do ano, em 11 de abril, para R$ 3,96, o maior, em 22 de outubro. Segundo cálculo da redação com a série do Banco Central, a alta foi de cerca de 74%. Depois do segundo turno, a moeda caiu para R$ 3,65, em 31 de outubro.

O risco-país seguiu o mesmo caminho. Segundo a Agência Estado, publicada pela Tribuna do Paraná, o risco Brasil atingiu 2.436 pontos-base em 27 de setembro de 2002. A reportagem chama esse nível de recorde de alta. O indicador mais usado para medir esse risco é o EMBI+, índice do banco JP Morgan.

A Bolsa também caiu. Segundo a Exame, o Ibovespa recuou continuamente até o início de outubro, para 8.997 pontos. No ano inteiro, a queda foi de 17%, segundo a mesma Exame, em 2010.

Dólar e Ibovespa em datas-chave de 2002, 2003 e 2022 Dólar em R$ por US$ e Ibovespa em pontos ou variação anual; valores nominais, sem correção pela inflação

Data Indicador Valor
11/04/2002 Dólar, menor valor de 2002 R$ 2,27
22/10/2002 Dólar, maior valor de 2002 R$ 3,96
31/10/2002 Dólar, quatro dias após o 2º turno R$ 3,65
2002 Ibovespa, variação no ano -17%
2003 Ibovespa, variação no ano +97,3%
31/10/2022 Dólar, dia seguinte ao 2º turno R$ 5,17
31/10/2022 Ibovespa, fechamento 116.037 pontos
2023 Ibovespa, fechamento do ano 134.185 pontos

Fonte: Banco Central (série 1 do SGS, dólar de venda, para 2002); Exame (2010 e 2014, Ibovespa de 2002 e 2003); Agência Brasil, via Jornal Contábil (2022); B3, via Bora Investir (2023). Elaboração: redação.

O que mudou desde 2002

Em 2002, havia sinais de continuidade. Em junho, Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro. O texto prometia honrar os contratos e compromissos do país e manter fundamentos como câmbio livre, inflação controlada e superávit primário, segundo a Fundação Perseu Abramo. Superávit primário é a sobra do governo antes de pagar os juros da dívida.

Em agosto, o Brasil fechou um acordo de US$ 30 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), organismo que empresta a países em crise. Seriam US$ 6 bilhões em 2002 e US$ 24 bilhões em 2003, segundo a Tribuna do Paraná. Em 12 de dezembro, Lula anunciou Antonio Palocci para a Fazenda e Henrique Meirelles para o Banco Central, segundo a Bloomberg Línea.

A inflação também era outra. O IPCA, índice oficial de preços, fechou 2002 em 12,53% e caiu para 9,3% em 2003, segundo a Agência Brasil. Em 2022, o movimento foi outro. No dia seguinte à vitória de Lula, o dólar caiu 2,54%. A Bolsa abriu em baixa, mas fechou com alta de 1,31%, segundo a Agência Brasil.

O que diz o Banco Central: no Relatório de Política Monetária divulgado em 24 de setembro de 2026, o cenário do mercado para 2027 implica descumprimento da meta fiscal, segundo o Poder360. A posição vem do relatório, citado pela reportagem; não houve contato direto com o BC para esta matéria.

Em 2026, a comparação é mais difícil. A queda de 13,88% veio em um único dia, enquanto em 2002 o índice perdeu 17% ao longo do ano. Na área fiscal, as projeções divergem. O governo estima superávit primário de R$ 19 bilhões em 2027 no projeto de Orçamento. O mercado projeta déficit de R$ 54 bilhões, segundo o Poder360.

A história de 2002 mostra que o pânico pode durar meses, e que a Bolsa pode subir depois. Ela não garante o mesmo em 2026. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Este texto não é recomendação de investimento.

O que fica em aberto é se a reação se estabiliza nos próximos pregões. Também está em aberto como o Congresso tratará o Orçamento de 2027, que ainda depende de votação.

Como fizemos: Usamos a série 1 do Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do Banco Central, acessada em 26/10/2026, para o dólar de 2002. A alta de cerca de 74% é cálculo nosso, entre o menor valor de 11/04 e o maior de 22/10. Os dados do Ibovespa de 2002 e 2003 vêm da Exame; não conseguimos conferir a série diária da B3, e o nível de 8.997 pontos vem de reportagem de 2014. Os valores são nominais, sem correção pela inflação, por isso não comparamos o dólar de 2002 com o de 2026.

Fontes