Três versões de Flávio sobre Dark Horse esbarram em registros e checagens
Vorcaro prometeu US$ 24 milhões e enviou US$ 12,3 milhões ao exterior; a PF só achou registro de entrada no Brasil de US$ 2,8 milhões.

Na manhã de 13 de maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL) negou ter pedido dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. À noite, confirmou as mensagens e disse que buscava “patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO”, segundo o Aos Fatos e o Poder360.
O Jornal da Pátria comparou as versões dadas por ele desde então com registros e checagens. Três esbarram em documentos ou foram abandonadas pelo próprio senador. E a conta segue aberta: a Polícia Federal (PF) só achou registro de entrada no Brasil de menos de um quarto do dinheiro enviado ao exterior.
O filme é Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Segundo o Intercept Brasil, Vorcaro se comprometeu a pagar US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões. Ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025.
O destino foi o Havengate, fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador. Segundo o Intercept, era uma empresa de fachada inativa, criada para um projeto imobiliário que nunca saiu do papel. Desde 22 de julho, Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Eduardo também é alvo, e nenhum dos dois é réu: não há denúncia, a acusação formal à Justiça.
Três versões e o que os registros mostram
O Aos Fatos contou ao menos 43 declarações enganosas de Flávio sobre a relação com Vorcaro. A primeira, a negação, durou poucas horas: ele mesmo a abandonou à noite. Na ocasião, afirmou: “Não ofereci vantagens em troca”.
A segunda esbarrou num registro do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão federal que monitora movimentações suspeitas. À GloboNews, Flávio disse que o último pagamento de Vorcaro foi em maio de 2025. Segundo a revista piauí, o Coaf registra US$ 1,66 milhão enviado ao Havengate em 16 de setembro de 2025. A transferência veio oito dias depois de Flávio cobrar parcelas atrasadas, e o total pago subiu para US$ 12,3 milhões.
A terceira veio no Jornal Nacional, em agosto. Flávio disse que os detalhes do contrato e da origem do dinheiro já tinham sido apresentados. A Agência Lupa classificou a frase como falsa: o laudo encomendado pela produtora não traz os extratos nem rastreia a origem do dinheiro do Havengate. A tabela abaixo resume as três.
Três versões de Flávio esbarram em registros ou checagens Declarações de Flávio Bolsonaro sobre o dinheiro de Vorcaro para Dark Horse, 2026
| Quando e onde | O que Flávio disse | O que mostram registros e checagens |
|---|---|---|
| 13 de maio, manhã | Negou o pedido de dinheiro a Vorcaro | À noite, ele próprio confirmou as mensagens |
| Entrevista à GloboNews | O último pagamento foi em maio de 2025 | Coaf registra US$ 1,66 milhão em 16 de setembro de 2025 |
| Jornal Nacional, agosto | Os detalhes “já tá apresentada” | Lupa: falso; laudo não traz extratos nem a origem do dinheiro |
Fonte: Aos Fatos, Poder360, revista piauí (via SBT News) e Agência Lupa. Elaboração: redação.
As checagens também registram pontos a favor dele. A Lupa não achou prova de que Flávio tenha oferecido algo em troca do dinheiro. Sobre a Lei Rouanet, o incentivo federal à cultura, viu falta de contexto, não falsidade. Quem buscou R$ 8,59 milhões na lei foi um instituto da sócia da produtora, para quatro eventos.
A conta que não fecha
A versão mais recente é de sexta-feira (16). Em entrevista à Globo, relatada pela CNN Brasil, Flávio chamou o dinheiro de “totalmente lícito” e negou contrapartida ligada ao mandato. Sobre a diferença entre o valor pedido e o gasto, disse: “Era um contrato que não foi cumprido”.
A PF aponta outra diferença. Vorcaro pagou cerca de metade dos US$ 24 milhões prometidos, e só US$ 2,8 milhões dos US$ 12,3 milhões enviados têm registro de entrada no Brasil. É menos de um quarto, o que a PF chama de “divergência contábil severa”, segundo o jornal O Hoje. O gráfico abaixo mostra as três cifras.
Fonte: Intercept Brasil (valor prometido); Coaf, via revista piauí, e PF, via Folha de Pernambuco (valor enviado); PF, via jornal O Hoje (registro de entrada). Valores em dólares, sem correção. Elaboração: redação.
A produtora declarou custo de R$ 75,1 milhões, sendo R$ 54 milhões gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil, segundo O Hoje. A Lupa, com base no g1, afirma que o laudo não explica a origem dos R$ 20,9 milhões. Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que acionasse os Estados Unidos para rastrear o dinheiro. Em 16 de outubro, pediu ao relator, ministro André Mendonça, mais 90 dias de investigação.
O que diz Flávio Bolsonaro: O senador afirma que buscou “patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO”, com “zero de dinheiro público”, e que não ofereceu vantagens em troca (nota de 13 de maio, segundo o Poder360). Em 16 de outubro, chamou o dinheiro de “totalmente lícito” e atribuiu a diferença de valores a “um contrato que não foi cumprido” (entrevista à Globo, segundo a CNN Brasil).
O que fica em aberto
O inquérito não termina no segundo turno, no domingo (25), em que Flávio é candidato. Nas reportagens consultadas, Mendonça ainda não havia decidido sobre a prorrogação. A explicação do contrato não cumprido trata da diferença entre o valor pedido e o gasto. A divergência da PF é outra, entre o que saiu do país e o que voltou registrado, e depende dos dados americanos e da perícia.
Como fizemos: Comparamos declarações públicas de Flávio Bolsonaro de maio a outubro de 2026 com registros e checagens publicados por Aos Fatos, Agência Lupa, revista piauí (via SBT News) e outros veículos listados abaixo. “Cerca de metade” e “menos de um quarto” são cálculos da redação (US$ 12,3 milhões ÷ US$ 24 milhões = 51%; US$ 2,8 milhões ÷ US$ 12,3 milhões = 23%), com valores em dólares de 2025, sem correção pela inflação. As fontes foram verificadas e acessadas em outubro de 2026; a reportagem original do Intercept e algumas páginas da CNN Brasil, da Agência Brasil e do ConJur não puderam ser abertas, e seus dados foram conferidos em outras reportagens. Não tivemos acesso aos autos do inquérito, que corre sob sigilo, nem aos extratos bancários: os dados não mostram o destino final do dinheiro.
Correção: uma versão anterior deste texto dizia que a produtora pediu R$ 8,59 milhões à Lei Rouanet e teve o pedido negado. Segundo a Lupa e a Folha de S.Paulo, o pedido foi feito por um instituto presidido pela sócia da produtora, para quatro eventos, e não para o filme; a Lupa lembra que a lei não financia longas-metragens.
Fontes
- Áudio: Flávio negociou milhões com Vorcaro — Intercept Brasil
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360
- Ao vivo: checagem da entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional — Lupa
- Flávio mentiu ao menos 43 vezes sobre envolvimento com Vorcaro — Aos Fatos
- Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado — CNN Brasil
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- Mendonça autoriza inquérito sobre Flávio Bolsonaro e Dark Horse — Aos Fatos
- PF aciona MJ por cooperação com EUA para rastrear dinheiro de Dark Horse — CNN Brasil
- PF pede cooperação aos EUA para rastrear dinheiro do fundo de Dark Horse — Gazeta do Povo
- PF pede prorrogação de inquérito sobre financiamento do Dark Horse — ConJur
- PF pede mais 90 dias a Mendonça para investigar caso Dark Horse — Gazeta do Povo
- PF pede mais 90 dias para investigar Dark Horse — Folha de Pernambuco
- PF aponta “severa” divergência em valores enviados ao exterior para financiar filme sobre Bolsonaro — O Hoje
- Vorcaro repassou US$ 12,3 mi a Dark Horse, diz revista — SBT News
- Dona de produtora de filme sobre Bolsonaro buscou Lei Rouanet para projetos de R$ 8,6 milhões — Folha de S.Paulo, via Bahia Notícias
- Havengate: o fundo na mira da PF que conecta Vorcaro, Flávio e Eduardo Bolsonaro — BBC News Brasil, via O Povo



