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STF

Três versões de Flávio sobre Dark Horse esbarram em registros e checagens

Vorcaro prometeu US$ 24 milhões e enviou US$ 12,3 milhões ao exterior; a PF só achou registro de entrada no Brasil de US$ 2,8 milhões.

Flávio Bolsonaro, de terno azul e gravata, fala com expressão séria diante de vários microfones de emissoras, cercado por jornalistas.
O senador Flávio Bolsonaro concede entrevista no Senado, em Brasília, em 30 de abril de 2026, duas semanas antes da revelação do áudio com Vorcaro.Foto: Andressa Anholete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na manhã de 13 de maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL) negou ter pedido dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. À noite, confirmou as mensagens e disse que buscava “patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO”, segundo o Aos Fatos e o Poder360.

O Jornal da Pátria comparou as versões dadas por ele desde então com registros e checagens. Três esbarram em documentos ou foram abandonadas pelo próprio senador. E a conta segue aberta: a Polícia Federal (PF) só achou registro de entrada no Brasil de menos de um quarto do dinheiro enviado ao exterior.

O filme é Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Segundo o Intercept Brasil, Vorcaro se comprometeu a pagar US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões. Ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025.

O destino foi o Havengate, fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador. Segundo o Intercept, era uma empresa de fachada inativa, criada para um projeto imobiliário que nunca saiu do papel. Desde 22 de julho, Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Eduardo também é alvo, e nenhum dos dois é réu: não há denúncia, a acusação formal à Justiça.

Três versões e o que os registros mostram

O Aos Fatos contou ao menos 43 declarações enganosas de Flávio sobre a relação com Vorcaro. A primeira, a negação, durou poucas horas: ele mesmo a abandonou à noite. Na ocasião, afirmou: “Não ofereci vantagens em troca”.

A segunda esbarrou num registro do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão federal que monitora movimentações suspeitas. À GloboNews, Flávio disse que o último pagamento de Vorcaro foi em maio de 2025. Segundo a revista piauí, o Coaf registra US$ 1,66 milhão enviado ao Havengate em 16 de setembro de 2025. A transferência veio oito dias depois de Flávio cobrar parcelas atrasadas, e o total pago subiu para US$ 12,3 milhões.

A terceira veio no Jornal Nacional, em agosto. Flávio disse que os detalhes do contrato e da origem do dinheiro já tinham sido apresentados. A Agência Lupa classificou a frase como falsa: o laudo encomendado pela produtora não traz os extratos nem rastreia a origem do dinheiro do Havengate. A tabela abaixo resume as três.

Três versões de Flávio esbarram em registros ou checagens Declarações de Flávio Bolsonaro sobre o dinheiro de Vorcaro para Dark Horse, 2026

Quando e onde O que Flávio disse O que mostram registros e checagens
13 de maio, manhã Negou o pedido de dinheiro a Vorcaro À noite, ele próprio confirmou as mensagens
Entrevista à GloboNews O último pagamento foi em maio de 2025 Coaf registra US$ 1,66 milhão em 16 de setembro de 2025
Jornal Nacional, agosto Os detalhes “já tá apresentada” Lupa: falso; laudo não traz extratos nem a origem do dinheiro

Fonte: Aos Fatos, Poder360, revista piauí (via SBT News) e Agência Lupa. Elaboração: redação.

As checagens também registram pontos a favor dele. A Lupa não achou prova de que Flávio tenha oferecido algo em troca do dinheiro. Sobre a Lei Rouanet, o incentivo federal à cultura, viu falta de contexto, não falsidade. Quem buscou R$ 8,59 milhões na lei foi um instituto da sócia da produtora, para quatro eventos.

A conta que não fecha

A versão mais recente é de sexta-feira (16). Em entrevista à Globo, relatada pela CNN Brasil, Flávio chamou o dinheiro de “totalmente lícito” e negou contrapartida ligada ao mandato. Sobre a diferença entre o valor pedido e o gasto, disse: “Era um contrato que não foi cumprido”.

A PF aponta outra diferença. Vorcaro pagou cerca de metade dos US$ 24 milhões prometidos, e só US$ 2,8 milhões dos US$ 12,3 milhões enviados têm registro de entrada no Brasil. É menos de um quarto, o que a PF chama de “divergência contábil severa”, segundo o jornal O Hoje. O gráfico abaixo mostra as três cifras.

Gráfico de barras mostra que Vorcaro prometeu US$ 24 milhões, enviou US$ 12,3 milhões ao exterior e só US$ 2,8 milhões têm registro de entrada no Brasil, segundo a PF Fonte: Intercept Brasil (valor prometido); Coaf, via revista piauí, e PF, via Folha de Pernambuco (valor enviado); PF, via jornal O Hoje (registro de entrada). Valores em dólares, sem correção. Elaboração: redação.

A produtora declarou custo de R$ 75,1 milhões, sendo R$ 54 milhões gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil, segundo O Hoje. A Lupa, com base no g1, afirma que o laudo não explica a origem dos R$ 20,9 milhões. Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que acionasse os Estados Unidos para rastrear o dinheiro. Em 16 de outubro, pediu ao relator, ministro André Mendonça, mais 90 dias de investigação.

O que diz Flávio Bolsonaro: O senador afirma que buscou “patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO”, com “zero de dinheiro público”, e que não ofereceu vantagens em troca (nota de 13 de maio, segundo o Poder360). Em 16 de outubro, chamou o dinheiro de “totalmente lícito” e atribuiu a diferença de valores a “um contrato que não foi cumprido” (entrevista à Globo, segundo a CNN Brasil).

O que fica em aberto

O inquérito não termina no segundo turno, no domingo (25), em que Flávio é candidato. Nas reportagens consultadas, Mendonça ainda não havia decidido sobre a prorrogação. A explicação do contrato não cumprido trata da diferença entre o valor pedido e o gasto. A divergência da PF é outra, entre o que saiu do país e o que voltou registrado, e depende dos dados americanos e da perícia.

Como fizemos: Comparamos declarações públicas de Flávio Bolsonaro de maio a outubro de 2026 com registros e checagens publicados por Aos Fatos, Agência Lupa, revista piauí (via SBT News) e outros veículos listados abaixo. “Cerca de metade” e “menos de um quarto” são cálculos da redação (US$ 12,3 milhões ÷ US$ 24 milhões = 51%; US$ 2,8 milhões ÷ US$ 12,3 milhões = 23%), com valores em dólares de 2025, sem correção pela inflação. As fontes foram verificadas e acessadas em outubro de 2026; a reportagem original do Intercept e algumas páginas da CNN Brasil, da Agência Brasil e do ConJur não puderam ser abertas, e seus dados foram conferidos em outras reportagens. Não tivemos acesso aos autos do inquérito, que corre sob sigilo, nem aos extratos bancários: os dados não mostram o destino final do dinheiro.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que a produtora pediu R$ 8,59 milhões à Lei Rouanet e teve o pedido negado. Segundo a Lupa e a Folha de S.Paulo, o pedido foi feito por um instituto presidido pela sócia da produtora, para quatro eventos, e não para o filme; a Lupa lembra que a lei não financia longas-metragens.

Fontes