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Tribuna

Valor por valor, o histórico de Flávio contraria o discurso da direita

Coluna de Éder Leal: só duas das 433 propostas de Flávio Bolsonaro no Senado foram aprovadas, e o histórico dele contraria o que a direita diz defender.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

O senador Flávio Bolsonaro sentado à mesa de uma comissão do Senado, ao lado de outro senador, diante de microfones da mesa diretora.
O senador Flávio Bolsonaro preside reunião da Comissão de Segurança Pública do Senado, ao lado do senador Hamilton Mourão, em Brasília, em 1º de setembro de 2026.Foto: Geraldo Magela / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Sou de direita. Nasci em Bagé, cresci ouvindo que Estado pequeno é Estado bom. Defendi a Lava Jato em todas as redações por que passei, torço pela polícia e escrevo para quem planta no agro. Por isso escrevo a frase mais difícil da minha vida profissional: a direita merece mais do que Flávio Bolsonaro.

Não é birra, nem antipetismo às avessas. É o histórico, valor por valor. No primeiro turno, Flávio teve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Chamo esta candidatura de uma falsa direita.

Flávio Bolsonaro é senador e candidato à Presidência. O segundo turno, contra Lula, será em 25 de outubro.

Corrupção e polícia

Na rachadinha, Flávio foi denunciado pelo Ministério Público do Rio em 2020. Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou decisões e provas por questão de competência. Anulado não é inocentado: em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes negou recursos do Ministério Público para reabrir a ação.

Depois veio o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Segundo o The Intercept, ele se comprometeu a pagar US$ 24 milhões pelo filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro. Até maio de 2025, pelo menos US$ 10,6 milhões tinham sido pagos, cerca de 44% do combinado.

Flávio confirmou o pedido e disse que era patrocínio privado. Em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro, escreveu que estaria ao lado dele “sempre”, segundo mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF).

Em 15 de outubro, a PF prendeu Márcio Canella, que Flávio havia apoiado para o Senado no Rio. Rodrigo Bacellar, também aliado, já tinha sido preso pela PF em dezembro de 2025. Em sabatina na TV Globo, em 16 de outubro, Flávio chamou de “detalhezinho” o rastreio de munições. O projeto de 2019 retira a identificação das munições, e essa marcação permite rastrear a origem delas, segundo o Poder360.

Coerência, patriotismo e contas

Em julho de 2025, Flávio agradeceu a Trump pelo tarifaço de 50% que castigou o nosso agro. Em 18 de julho, pediu o fim da taxa e sanções individuais, e depois apagou a postagem, segundo O Antagonista. Em agosto de 2026, disse que o irmão Eduardo “errou de agradecer” pelas tarifas.

Pregamos responsabilidade fiscal. O candidato promete que o Tesouro compre dívidas de pessoas em atraso junto aos bancos. Segundo o SBT News, o plano cita receitas, como imóveis da União, mas não estima custos. Segundo o Metrópoles, ele disse que os juros cairiam “de forma muito rápida”.

Somos a direita do mérito. Em sete anos de Senado, Flávio apresentou 433 propostas, segundo levantamento do Valor, e só duas foram aprovadas pela Casa: cerca de 0,5% do total. Outras reportagens dão totais diferentes; a tabela traz as fontes.

Duas de 433 propostas de Flávio Bolsonaro foram aprovadas no Senado Número de propostas de autoria do senador, em sete anos de mandato, e parte do total

Tipo de proposta Número Parte do total
Total de propostas 433 100%
PECs (emendas à Constituição) 95 21,9%
PLs (projetos de lei) 60 13,9%
Aprovadas pelo Senado (dois PLs) 2 0,5%

Fonte: levantamento do Valor, citado pelo Terra. Não conferido na base de dados do Senado. Percentuais: elaboração da redação.

Em abril de 2022, Flávio se disse defensor da privatização da Petrobras, como opinião pessoal. Em outubro de 2026, chamou de “boataria” os rumores de privatização da estatal. Na escala 6x1, criticou a proposta de emenda à Constituição (PEC) durante o segundo turno. Em 13 de outubro, anunciou: “vou votar a favor”.

O que eu admito — e o que faço com isso

É verdade que ele votou a favor do fim da escala 6x1. É verdade que a Bolsa superou pela primeira vez 207 mil pontos em 5 de outubro, e o dólar caiu abaixo de R$ 5. A inflação, porém, segue acima do teto da meta: 4,58% em 12 meses até setembro, contra 4,5%.

Mas festa de mercado é expectativa, não currículo. O problema é o que a nossa bandeira vira depois. Um governo Flávio passa quatro anos explicando Vorcaro e chamando de “detalhezinho” o rastreio que a polícia precisa.

O argumento de quem apoia Flávio tem peso: derrotar o PT (Partido dos Trabalhadores) importa mais do que qualquer crítica ao candidato. A coluna não nega o antipetismo; recusa só a conclusão de que ele custa menos que o sobrenome.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele confirmou o pedido ao banqueiro e descreveu o caso como “um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO”. Afirmou também: “Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem.” Sobre as prisões de Canella e Bacellar, disse ter sido surpreendido e que quem errou “vai ter que responder por isso”. Falas ao Poder360 (13/5/2026) e à TV Globo (16/10/2026), segundo a CNN Brasil.

O voto no dia 25 é tático: o mal menor para a direita. Perder uma eleição dói; perder o nome do nosso campo para uma família dói por uma geração. Peço que ninguém entregue a direita a Flávio.

A direita tem quadros e futuro, e merece um candidato de verdade em 2030. Merece mais do que Flávio. Muito mais.

Como fizemos: Conferimos cada número e citação com as reportagens listadas em Fontes, acessadas em 20 de outubro de 2026. Os valores do caso Vorcaro são do The Intercept, de maio de 2026, e as contagens de propostas vêm de um levantamento do Valor, citado pelo Terra, sem cruzamento com a base do Senado. Calculamos a parcela paga (US$ 10,6 milhões de US$ 24 milhões, cerca de 44%) e a parcela aprovada (2 de 433, cerca de 0,5%). O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de setembro, de 4,58% em 12 meses, vem do IBGE como publicado pela Forbes, sem correção pela inflação, porque comparamos números do mesmo momento. Não verificamos a frase sobre os juros atribuída ao Metrópoles, e os dados não mostram a intenção de nenhum candidato.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que Flávio se arrependeu e apagou a postagem em que agradeceu a Trump. O que consta é que ele apagou outra publicação, de 18 de julho de 2025, que pedia o fim da taxa e sanções. A versão também dizia que o plano de dívidas não informava a origem do dinheiro, que Bacellar foi preso pela PF só em 2026, que a Bolsa “bateu recorde” e que a rachadinha foi anulada por vício de procedimento. O correto: o plano cita receitas, mas não traz estimativa de custo; Bacellar já tinha sido preso em dezembro de 2025; a Bolsa superou 207 mil pontos pela primeira vez; e o STJ anulou as decisões por competência. Também não encontramos a data de 6 de outubro para a posição contra a escala 6x1.

Fontes