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Tribuna

Flávio muda na 6x1; campanha dá duas versões do Bolsa Família

Em duas semanas de outubro, Flávio votou pelo fim da 6x1 que criticara e a campanha deu respostas diferentes sobre aposentadorias e o Bolsa Família.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Flávio Bolsonaro, de terno cinza e gravata azul, posa entre parlamentares no plenário enquanto pessoas em primeiro plano o fotografam com celulares.
O senador Flávio Bolsonaro à bancada durante sessão conjunta do Congresso Nacional, no plenário da Câmara, em Brasília, em 21 de maio de 2026.Foto: Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na terça-feira, 6 de outubro, Flávio Bolsonaro, do PL (Partido Liberal), criticou a proposta que acaba com a escala 6x1. Essa escala põe seis dias de trabalho para um de folga. Ele chamou de oportunista a iniciativa do governo Lula e defendeu uma alternativa que paga por hora trabalhada. Segundo o Intercept Brasil, essa alternativa abria brecha para reduzir salários.

Esta é uma coluna de opinião. Para ela, o problema de Flávio não é mudar de ideia. É o calendário inteiro.

Oito dias depois, Flávio votou a favor do fim da 6x1. A PEC (proposta de emenda à Constituição) 221/2019 passou no Senado por 75 votos a 1, segundo a Exame. Ele votou à distância, de uma viagem de campanha no Rio Grande do Sul.

Duas semanas, dia a dia

No dia 7, Flávio disse que nada adianta “se estiver todo mundo endividado ou desempregado” (Folha de Pernambuco). Na mesma semana, a Folha de S.Paulo revelou um pacote de corte de até R$ 250 bilhões, cerca de 2% de tudo o que o país produz. A lista incluía reajustar aposentadorias e o BPC (benefício de idosos e pessoas com deficiência de baixa renda) só pela inflação (TVT News).

No dia 8, Flávio chamou de “fake news do PT”, partido de Lula, o relato de que cortaria reajustes de aposentadorias. Ele prometeu reajuste acima da inflação (Poder360). A campanha disse que as discussões “não representam necessariamente a posição oficial da candidatura” (TVT News). No dia 9, chamou de “boataria” os rumores de privatização da Petrobras, a estatal do petróleo (InfoMoney).

Em dezembro de 2025, porém, ele tinha dito à Reuters que partes da Petrobras que não funcionam poderiam ser privatizadas (TMC). No dia 13, depois de visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, anunciou o voto pelo fim da 6x1 e disse que “quem vai pagar essa conta vai ser o governo” (CNN Brasil). A tabela resume as datas.

Em duas semanas, Flávio mudou de posição sobre a 6x1 e negou dois temas Declarações e votos de Flávio Bolsonaro, por data, em outubro de 2026

Data O que foi dito ou feito Fonte
6/10 Chamou de oportunista a proposta do governo Lula TNH1
7/10 Disse que nada adianta “se estiver todo mundo endividado ou desempregado” Folha de Pernambuco
8/10 Chamou de “fake news do PT” o relato de corte em aposentadorias Poder360
9/10 Chamou de “boataria” os rumores de privatização da Petrobras InfoMoney
13/10 Anunciou voto pelo fim da 6x1 CNN Brasil
14/10 Votou sim, à distância, nos dois turnos Exame
16/10 Prometeu não reverter o fim da 6x1 se for eleito Metrópoles

Fonte: reportagens listadas em Fontes, acessadas em 20/10/2026. Elaboração: redação.

Bolsa Família: duas mensagens

O Bolsa Família é o programa federal de renda para famílias de baixa renda. No dia 8, Flávio disse que “o Bolsa Família não tem que ser a última coisa que o governo faz, tem que ser a 1ª” (Poder360). No dia 9, prometeu: “Eu vou garantir o Bolsa Família para quem precisa” (DGABC). Em 19 de outubro, a coordenadora da área econômica da campanha, Daniella Marques, anunciou outra regra.

Segundo o Metrópoles, um eventual governo do PL daria dois anos de transição para conseguir emprego formal ou abrir um negócio. Depois, o beneficiário sairia do programa, com retorno automático “caso dê errado”. Hoje, a regra de proteção paga metade do benefício por 12 meses a famílias cuja renda subiu, se entraram após junho de 2025 (TNH1). O Metrópoles citou 18 meses, mas não encontramos norma posterior à Portaria MDS nº 1.084/2025 que mude esse prazo.

Quem fala pela campanha?

Rogério Marinho, coordenador da campanha, apresentou a alternativa de contratação por hora. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, disse que vai trabalhar para aprovar essa proposta em 2027, se Flávio vencer (Metrópoles). No debate da TV Band, no domingo (18), Flávio disse: “Eu sou uma pessoa que sei ouvir, eu sei escutar” (Amazonas1). No dia 16, prometeu não reverter o fim da 6x1 se for eleito: “Não, não vou. Direitos trabalhistas garantidos.” (Metrópoles)

O que diz Flávio Bolsonaro: Segundo o Amazonas1, ele disse ter mudado de posição porque ouviu trabalhadores. Ele afirma que vai garantir o Bolsa Família “para quem precisa” e chamou de “fake news do PT” o relato de corte nas aposentadorias. A campanha afirmou que as discussões “não representam necessariamente a posição oficial da candidatura” (TVT News).

Em duas semanas, Flávio foi contra e a favor da 6x1, chamou de fake news o relato de corte nas aposentadorias e prometeu garantir o Bolsa Família. Enquanto isso, a coordenadora da área econômica anunciou um prazo de saída do programa. Qual das duas posições vale? Quem recebe o benefício tem o direito de saber, porque planeja o mês com esse dinheiro.

Admito o que precisa ser admitido: mudar de ideia pode ser virtude, e o voto final de Flávio foi bom para quem trabalha seis dias por semana. Mas convicção não é teimosia: é ter um rumo que não depende da semana. Nós, de direita, cobramos coerência do PT há duas décadas, e não podemos aceitar menos do nosso candidato. No segundo turno, em 25 de outubro, o eleitor vota num nome, mas governa quem estiver por trás dele.

Como fizemos: Reunimos declarações e votos de Flávio Bolsonaro entre 6 e 19 de outubro de 2026, conferindo cada data e fala nas reportagens listadas em Fontes, acessadas em 20/10/2026; a tabela tem os mesmos dados salvos em CSV. A regra do Bolsa Família vem da Portaria MDS nº 1.084/2025, citada pela TNH1, e a data do segundo turno vem do calendário do TSE, citado pelo O Liberal. Não fizemos cálculos nem comparamos valores em reais entre anos, por isso não houve correção pela inflação; não localizamos a reportagem original da Intercept Brasil nem da Folha de S.Paulo. Os dados não mostram o que a campanha fará se Flávio for eleito.

Correção: Uma versão anterior deste texto dizia que Daniella Marques era coordenadora do programa de governo; o correto é coordenadora da área econômica da campanha. A mesma versão dizia que a regra atual paga metade do benefício por 18 meses; o correto é 12 meses para quem entrou após junho de 2025. Também atribuía ao Metrópoles a frase “endividado ou desempregado”, dita à Folha de Pernambuco, e falava em emenda assinada em maio, quando o registro é de uma alternativa apresentada à bancada do PL. Não encontramos fonte para a afirmação de que Flávio defendeu privatizar a Petrobras em 2022, e ela foi retirada.

Fontes