Comparecer às urnas é a defesa mais barata da democracia
Na eleição de 2022, a diferença final foi de 2,1 milhões de votos, e 32 milhões de eleitores ficaram fora da urna. Votar no domingo importa.
Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

No primeiro turno, em 4 de outubro, 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas. A abstenção chegou a 21,08% do eleitorado, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Só em 1998, com 21,49%, a ausência foi maior em um primeiro turno presidencial.
No domingo, 25 de outubro, o segundo turno disputa a Presidência entre Lula e Flávio Bolsonaro. Este texto defende uma ideia simples: comparecer é a defesa mais barata da democracia. Custa algumas horas de um domingo. Não exige filiação partidária, dinheiro nem candidato.
A votação vai das 8h às 17h, pelo horário de Brasília, em todo o país. São nove horas de votação, em um só dia. Em 2022, no primeiro turno, a abstenção foi de 20,95%, ou cerca de 32,7 milhões de pessoas, segundo o Correio da Manhã. Em 2026, o índice subiu 0,13 ponto percentual, e a conta chegou a cerca de 700 mil eleitores a mais.
Quanto pesa cada voto que falta
A eleição de 2022 mostra a conta. No segundo turno, Lula recebeu 60.345.999 votos, ou 50,9% dos votos válidos. Jair Bolsonaro teve 58.206.354, ou 49,1%. A diferença foi de 2.139.645 votos.
No mesmo segundo turno, 32.200.558 eleitores ficaram fora da urna. O número equivale a 20,59% do eleitorado, segundo a apuração do TSE divulgada em 31 de outubro de 2022. A abstenção foi cerca de 15 vezes maior que a diferença final.
Quem fica em casa não escolhe ninguém, e por isso a ausência parece neutra. Não é. Em uma disputa apertada, cada eleitor ausente deixa a decisão nas mãos de quem foi votar. Mesmo quem acha que a política não o representa deixa esse peso para os outros.
Nas duas últimas disputas de segundo turno, cerca de um em cada cinco eleitores ficou fora da urna. Em 2018, a abstenção foi de 21,3%, ou 31,3 milhões de pessoas, segundo a Agência Brasil. Em 2022, ficou em 20,59%. O número oscila, mas não some.
A crítica ao voto obrigatório
Parte do debate questiona a própria obrigação. Em reportagem de 2020, o professor Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB), que defende o voto facultativo, afirmou: “A penalidade é muito baixa.”
A crítica tem parte de razão. A multa é pequena, e isso é um problema real. Mas a conclusão não se sustenta. Para a cientista política Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a “obrigatoriedade é vista como um incentivo, não como algo que deve ser recoberto de punições”. Para Eduardo Grin, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), “não há democracia sem participação da sociedade escolhendo”.
A desconfiança com a política existe e merece debate. Mas a resposta a um governo ruim vem no voto seguinte, não na cadeira vazia. Quem deixa de votar abre mão da ferramenta que permite trocar quem governa.
O que diz o TSE: O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, afirmou que “Não é o ideal uma abstenção de 20%” e que a ideia é “intensificar e aperfeiçoar todos os mecanismos disponíveis” para reduzir o índice no segundo turno, segundo o Acessa.com.
As urnas também têm checagens. Segundo o secretário de Tecnologia da Informação do TSE, Júlio Valente, as urnas e os registros digitais dos votos ficam preservados e lacrados após a eleição, para permitir auditorias. Cada seção imprime um boletim de urna, com uma via afixada no local de votação, segundo o Diário de Pernambuco.
Domingo, o voto é a forma mais barata de defender essas regras. Não exige discurso, passeata ou risco. Não é preciso gostar de nenhum candidato para cumprir esse passo. Basta chegar à seção antes das 17h.
A urna não decide sozinha. Eleitores, mesários, voluntários que atuam nas seções, e a Justiça Eleitoral fazem a eleição acontecer. Quem perder pode criticar e disputar de novo. Quem ganhar deve governar dentro da Constituição. Ambos dependem de quem vota, seja quem apoia o governo, seja quem faz oposição.
Não importa a escolha de cada um neste domingo. Importa que o resultado venha das urnas, com a maior participação possível.
Como fizemos: Usamos a totalização do primeiro turno de 2026 divulgada pelo TSE e reportada pelo Correio da Manhã e pelo Diário de Pernambuco, acessada em 23/10/2026. Os números de 2022 vêm da apuração do TSE reportada pelo Jornal do Brasil (31/10/2022), e os de 2018 vêm da Agência Brasil, via Istoé. Calculamos a diferença de 2022 (60.345.999 menos 58.206.354) e a proporção entre abstenção e diferença (32.200.558 dividido por 2.139.645, cerca de 15). Encontramos também o número de 31,8 milhões de ausentes em 2022 em outro registro; a conclusão não muda com um ou outro. Não consultamos o portal de dados do TSE diretamente, porque o site do tribunal não abriu na nossa consulta.
Fontes
- Abstenção bate recorde e deixa 33,4 milhões de eleitores fora das urnas no primeiro turno — Correio da Manhã
- Mais de 33 milhões não votaram no 1º turno; abstenção é a maior desde 1998 — Diário de Pernambuco
- Flávio Bolsonaro e Lula vão disputar segundo turno para presidente — Diário de Pernambuco
- TSE vai trabalhar para diminuir a abstenção no segundo turno — Acessa.com
- Eleições 2026: que horas começa e termina a votação? — SBT News
- Totalização dos votos é aberta, auditável e segura, diz TSE — Diário de Pernambuco
- TSE conclui totalização de votos pouco depois da meia-noite — Jornal do Brasil
- Total de abstenções caiu de 20,95% para 20,59% entre o 1º e o 2º turno — CUT
- TSE conclui totalização das seções eleitorais no segundo turno — Istoé (Agência Brasil)
- Por que o voto é obrigatório no Brasil? Entenda as vantagens e desvantagens — Diário do Nordeste
- Urna eletrônica brasileira UE2020 — foto de Antonio Augusto, Wikimedia Commons (domínio público)



