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Tribuna

Flávio não foi escolhido pela direita. Foi escolhido pelo pai, na prisão

Coluna: Flávio virou candidato dez dias após o pai começar a cumprir pena, promete anistia na transição e anunciou o voto no fim do 6x1 depois de visitá-lo.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

O senador Flávio Bolsonaro durante entrevista no Senado Federal, em Brasília.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante entrevista no Senado Federal, em Brasília, em 30 de abril de 2026 (imagem de arquivo).Foto: Andressa Anholete/Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na terça-feira (13), a 12 dias do segundo turno, o candidato da direita fez a visita mais reveladora desta campanha. O senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), foi ver o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e hoje em prisão domiciliar. Horas depois, anunciou que votaria pelo fim da escala 6x1, que permite seis dias seguidos de trabalho para um de folga. A condição, segundo a CNN Brasil: o governo terá de “pagar a conta”.

A cronologia da candidatura mostra um padrão: em cada passo decisivo, aparece o pai. Tudo começa nos autos: em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou o ex-presidente por cinco crimes, entre eles golpe de Estado. A pena foi de 27 anos e 3 meses, relatou a CNN Brasil. Naquele dia, o filho chamou o julgamento de “farsa” e pediu anistia, segundo o Correio Braziliense.

Escolhido de dentro da prisão

Em 25 de novembro de 2025, Bolsonaro começou a cumprir a pena na Polícia Federal, em Brasília; dez dias depois, Flávio anunciou a candidatura no X. Disse confirmar “a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro”, registrou a Tribuna de Minas. O texto não fala em prévia nem em votação do partido, e sim em decisão do pai. A tabela abaixo reúne os marcos.

Flávio virou candidato dez dias após o pai começar a cumprir pena Marcos da candidatura de Flávio Bolsonaro, de setembro de 2025 a outubro de 2026

Data O que aconteceu Fonte
11/9/2025 STF condena Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses, por 4 votos a 1 CNN Brasil
5/12/2025 Com o pai preso na Polícia Federal, Flávio anuncia a candidatura como “decisão” dele Tribuna de Minas
27/3/2026 Bolsonaro passa à prisão domiciliar humanitária Diário do Grande ABC
30/4/2026 Congresso derruba veto à lei da dosimetria; no Senado, 49 a 24 Agência Senado
13/7/2026 Moraes suspende por 90 dias as visitas de Flávio ao pai CNN Brasil, Jornal do Brasil
4/10/2026 Flávio lidera o 1º turno: 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula O Povo
13/10/2026 Após visitar o pai, anuncia voto pelo fim do 6x1 CNN Brasil
14/10/2026 Senado aprova o fim do 6x1 por 75 a 1; Flávio vota a favor Gazeta do Povo, TNH1

Fonte: reportagens listadas em Fontes. Elaboração: redação.

Desde 27 de março, por razões de saúde, o ex-presidente cumpre a pena em casa, segundo o Diário do Grande ABC. Em julho, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu as visitas de Flávio por 90 dias, depois que o senador divulgou uma carta do pai em apoio à candidatura, informou o Jornal do Brasil.

A promessa-bandeira: libertar o pai

O programa deste candidato tem cláusula número um, e ela não é de economia nem de segurança. Em agosto, em entrevista à TV Globo relatada pela Euronews, Flávio disse que trabalhará pela anistia ao pai “ainda na transição” ou, se ela não sair, por um indulto. Anistia é o perdão aprovado pelo Congresso; indulto é o perdão que o presidente concede por decreto.

Um governo que começa assim estaria usando a caneta do Executivo em favor do pai de quem governa. No Congresso, em 30 de abril, o candidato defendeu derrubar o veto à lei da dosimetria, registrou a Agência Senado. A lei reduz penas dos condenados pelos ataques de 8 de janeiro. Defender penas menores é direito de qualquer parlamentar, mas a pauta do candidato e a da família são, até aqui, a mesma.

A direita que não foi consultada

Depois da visita, segundo a CNN Brasil, Flávio contou que o pai lhe deu “dicas” para o segundo turno. Disse também que votaria “de acordo com a vontade da maioria do povo trabalhador brasileiro”. Na quarta (14), cumpriu: votou a favor, e a proposta de emenda à Constituição passou por 75 a 1 nos dois turnos, informou a Gazeta do Povo.

Registre-se com honestidade: ele fez o que anunciou. A direita defende a liberdade de jornada com responsabilidade fiscal, sem pôr o caixa público para pagar a conta. E prefere que o anúncio de um voto não passe pela casa onde o pai cumpre pena.

Se a escolha tivesse sido da direita, ela saberia dizer quando foi. Em 22 de janeiro, o pastor Silas Malafaia, influente entre evangélicos, disse que a candidatura “não empolgou”, registrou o Fuxico Gospel. Preferia uma chapa com Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro. Em agosto, segundo o Poder360, disse que apoiaria Flávio pelas redes, mas avisou: “Não vou organizar nada”.

O que dizem Flávio e sua campanha: O senador chama o julgamento de “farsa” e acusa ministros do STF de perseguição política, segundo o Correio Braziliense. Para ele, anistia na transição ou, na falta dela, indulto corrigiriam o erro, conforme a entrevista relatada pela Euronews. Aliados defendem que Flávio é o herdeiro natural do eleitorado da direita: ele terminou o primeiro turno à frente, com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula, segundo a apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicada pelo O Povo. E o PL elegeu 121 deputados, a maior bancada da Câmara, e terá 28 senadores a partir de 2027, segundo o SBT News.

A escolha do dia 25

Um projeto político nasce no partido, entre programas e prévias. Este, a coluna sustenta, é um projeto de família. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, fomos notificados do nome, não consultados sobre ele.

O segundo turno, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é em 25 de outubro. Não peço que ninguém goste de Lula; esta coluna nunca faria isso. Peço que a direita não seja entregue, por quatro anos, à agenda de uma família. O voto mais conservador do dia 25 é o que recusa essa herança, para que, em 2030, a direita volte a ser escolhida por ela mesma.

Como fizemos: Esta coluna de opinião reconstruiu a cronologia da candidatura de Flávio Bolsonaro de setembro de 2025 a outubro de 2026, com as reportagens listadas em Fontes, verificadas e acessadas em outubro de 2026. O intervalo de dez dias entre o início do cumprimento da pena (25/11/2025) e o anúncio da candidatura (5/12/2025) é cálculo da redação. A página da Exame citada na versão anterior estava fora do ar; o placar do 6x1 foi confirmado pela Gazeta do Povo e pelo Congresso em Foco, e o voto de Flávio pelo TNH1. Os números do primeiro turno e das bancadas vêm da apuração divulgada pela imprensa e podem mudar na totalização final; os registros consultados não mostram o voto nominal de Flávio na sessão do veto nem o conteúdo das conversas entre pai e filho.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que Flávio visitou o pai “na prisão”; desde 27 de março de 2026, Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar humanitária em Brasília. A versão anterior também atribuía à Euronews uma entrevista que Flávio deu à TV Globo, segundo a própria Euronews. Dizia ainda que ele “ajudou a derrubar” o veto da dosimetria; a Agência Senado registra que ele defendeu a derrubada, sem informar o voto nominal. Dizia que o apoio de Malafaia veio “sem engajamento”, mas o pastor afirmou que apoiaria pelas redes. Por fim, os 28 senadores do PL se referem à bancada a partir de 2027.

Fontes