Flávio promete juros rápidos, mas quem decide é o Copom
Candidato fala em cortar gastos e liberar R$ 200 bilhões, enquanto o mercado projeta queda gradual e inflação ainda supera a meta.
Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

No debate da Band, em 18 de outubro, Flávio Bolsonaro prometeu que a taxa de juros cairia “de uma forma muito rápida” se ele cortasse despesas. Disse que liberaria mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e compraria dívidas de famílias e empresas junto aos bancos.
A promessa encontra dois limites objetivos. A Selic é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central, e o plano de Flávio não apresenta uma trajetória para a taxa. Além disso, o mercado já prevê queda gradual sem esperar a posse de um novo presidente.
O que o plano promete
A equipe chama o pacote de “tesouraço”. A proposta fala em cortar gastos de pelo menos dez ministérios, criar novas regras fiscais e revisar a reforma tributária. Não informa uma meta para a Selic nem detalha como o corte seria aprovado por um Congresso que terá maioria de direita, mas vários partidos.
Daniella Marques, cotada para a Vice-Presidência, propôs em agosto cortes equivalentes a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Também citou securitização de dívida tributária, fundo imobiliário e antecipação de royalties do petróleo para levantar de R$ 200 bilhões a R$ 400 bilhões.
Rogério Marinho disse que a Selic poderia chegar a 12% ou 13% se o ajuste começasse cedo. O economista Marcelo Kayath, outro nome aventado para a equipe, considerou inviável executar R$ 200 bilhões em cortes em um único ano.
A promessa de queda rápida contrasta com três referências Taxas e projeções divulgadas em outubro de 2026
| Referência | Número | O que representa |
|---|---|---|
| Selic após a reunião de 16/09 | 13,75% | Quinta redução consecutiva |
| Focus para dezembro de 2026 | 13,25% | Projeção mediana do mercado |
| Focus para dezembro de 2027 | 12% | Queda esperada em prazo maior |
| Inflação esperada | 5,22% | Acima da meta de 3% |
Fonte: Focus e reportagens econômicas consultadas pela redação. Elaboração: redação.
Copom não recebe ordem de candidato
O Copom decide a taxa básica com base em inflação, atividade e expectativas. Um presidente pode influenciar essas variáveis com o Orçamento, impostos e credibilidade, mas não fixa a Selic por decreto. Uma promessa de velocidade precisa explicar quais medidas reduzem a inflação e como evitam aumento de risco.
A inflação projetada de 5,22% está acima da meta de 3%. Esse desvio exige cautela porque cortes rápidos, sem ancoragem das expectativas, podem pressionar preços e câmbio. As reportagens econômicas consultadas registram que bancos veem espaço limitado no curto prazo e esperam cortes condicionados a um pacote fiscal crível.
Há um dado que favorece Flávio e precisa ser admitido: a Selic já caiu após cinco reuniões de corte, para 13,75%. O mercado também projeta 13,25% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027. A promessa do candidato se sobrepõe a essa trajetória, mas não mostra por que seria mais veloz nem qual seria o custo social.
A compra de dívidas é outro ponto sem desenho. O candidato falou em adquirir débitos de pessoas e empresas nos bancos, mas não informou qual banco público faria isso, qual taxa seria cobrada ou como a operação seria contabilizada no resultado fiscal.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele afirma que gastos excessivos impedem juros menores, promete liberar mais de R$ 200 bilhões e diz que a taxa cairá rapidamente com ajuste fiscal. O plano não fixa uma meta para a Selic nem descreve a compra de dívidas em números detalhados.
A direita que cobra responsabilidade fiscal não pode aceitar uma promessa de juros sem caminho. Cortar despesas pode ajudar, mas só funciona se for aprovado, executado e compatível com saúde, educação e proteção social. O eleitor decide no domingo entre uma promessa de velocidade e uma conta que ainda não foi apresentada.
Como fizemos: Consultamos a fala do debate, a Selic de setembro, o Focus de 13 de outubro e as propostas econômicas atribuídas à equipe. A tabela compara taxas nominais em períodos diferentes sem corrigir inflação, pois são juros correntes. Não projetamos uma Selic própria.
Fontes
- Se eleito, Flávio diz que taxa de juros vai cair de forma muito rápida — Metrópoles
- Daniella Marques detalha plano com corte de 1,5% do PIB — InfoMoney
- Marinho diz que juros podem cair até 12% com Flávio — Eu Quero Investir
- Estimativa para Selic passa de 13,50% para 13,25% — Diário de Pernambuco
- Mercado reduz previsão para Selic a 13,25% — Bloomberg Línea
- Lula critica tesouraço e questiona corte de R$ 250 bilhões — Terra
- Copom e política monetária — Banco Central


