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Tribuna

Flávio promete juros rápidos, mas quem decide é o Copom

Candidato fala em cortar gastos e liberar R$ 200 bilhões, enquanto o mercado projeta queda gradual e inflação ainda supera a meta.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Flávio Bolsonaro e Frederick Wassef respondem a jornalistas diante de microfones em Brasília.
Flávio Bolsonaro em entrevista no Senado; sua promessa de juros rápidos depende de decisões do Banco Central e de um ajuste fiscal.Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No debate da Band, em 18 de outubro, Flávio Bolsonaro prometeu que a taxa de juros cairia “de uma forma muito rápida” se ele cortasse despesas. Disse que liberaria mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e compraria dívidas de famílias e empresas junto aos bancos.

A promessa encontra dois limites objetivos. A Selic é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central, e o plano de Flávio não apresenta uma trajetória para a taxa. Além disso, o mercado já prevê queda gradual sem esperar a posse de um novo presidente.

O que o plano promete

A equipe chama o pacote de “tesouraço”. A proposta fala em cortar gastos de pelo menos dez ministérios, criar novas regras fiscais e revisar a reforma tributária. Não informa uma meta para a Selic nem detalha como o corte seria aprovado por um Congresso que terá maioria de direita, mas vários partidos.

Daniella Marques, cotada para a Vice-Presidência, propôs em agosto cortes equivalentes a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Também citou securitização de dívida tributária, fundo imobiliário e antecipação de royalties do petróleo para levantar de R$ 200 bilhões a R$ 400 bilhões.

Rogério Marinho disse que a Selic poderia chegar a 12% ou 13% se o ajuste começasse cedo. O economista Marcelo Kayath, outro nome aventado para a equipe, considerou inviável executar R$ 200 bilhões em cortes em um único ano.

A promessa de queda rápida contrasta com três referências Taxas e projeções divulgadas em outubro de 2026

Referência Número O que representa
Selic após a reunião de 16/09 13,75% Quinta redução consecutiva
Focus para dezembro de 2026 13,25% Projeção mediana do mercado
Focus para dezembro de 2027 12% Queda esperada em prazo maior
Inflação esperada 5,22% Acima da meta de 3%

Fonte: Focus e reportagens econômicas consultadas pela redação. Elaboração: redação.

Copom não recebe ordem de candidato

O Copom decide a taxa básica com base em inflação, atividade e expectativas. Um presidente pode influenciar essas variáveis com o Orçamento, impostos e credibilidade, mas não fixa a Selic por decreto. Uma promessa de velocidade precisa explicar quais medidas reduzem a inflação e como evitam aumento de risco.

A inflação projetada de 5,22% está acima da meta de 3%. Esse desvio exige cautela porque cortes rápidos, sem ancoragem das expectativas, podem pressionar preços e câmbio. As reportagens econômicas consultadas registram que bancos veem espaço limitado no curto prazo e esperam cortes condicionados a um pacote fiscal crível.

Há um dado que favorece Flávio e precisa ser admitido: a Selic já caiu após cinco reuniões de corte, para 13,75%. O mercado também projeta 13,25% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027. A promessa do candidato se sobrepõe a essa trajetória, mas não mostra por que seria mais veloz nem qual seria o custo social.

A compra de dívidas é outro ponto sem desenho. O candidato falou em adquirir débitos de pessoas e empresas nos bancos, mas não informou qual banco público faria isso, qual taxa seria cobrada ou como a operação seria contabilizada no resultado fiscal.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele afirma que gastos excessivos impedem juros menores, promete liberar mais de R$ 200 bilhões e diz que a taxa cairá rapidamente com ajuste fiscal. O plano não fixa uma meta para a Selic nem descreve a compra de dívidas em números detalhados.

A direita que cobra responsabilidade fiscal não pode aceitar uma promessa de juros sem caminho. Cortar despesas pode ajudar, mas só funciona se for aprovado, executado e compatível com saúde, educação e proteção social. O eleitor decide no domingo entre uma promessa de velocidade e uma conta que ainda não foi apresentada.

Como fizemos: Consultamos a fala do debate, a Selic de setembro, o Focus de 13 de outubro e as propostas econômicas atribuídas à equipe. A tabela compara taxas nominais em períodos diferentes sem corrigir inflação, pois são juros correntes. Não projetamos uma Selic própria.

Fontes