Flávio oferece parceria mineral aos EUA sem publicar garantias
Candidato prometeu parceria de longo prazo e investimento protegido, mas não apresentou contrato; lei de Lula cria controles para minerais críticos.
Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Em maio, Flávio Bolsonaro prometeu aos Estados Unidos parcerias de longo prazo em minerais estratégicos, com investimento protegido. Em março, na CPAC do Texas, disse que o Brasil poderia ser a saída americana da dependência da China em terras raras e pediu que o “mundo livre” vigiasse a eleição brasileira.
Não há tratado publicado nem compromisso formal de entregar reservas. O que existe é uma oferta política de alinhamento mineral, um plano que facilita capital estrangeiro e um documento com a marca da campanha cuja autoria foi depois classificada como exercício pessoal.
O que foi oferecido
O programa de Flávio defende o Estado como regulador, mais capital estrangeiro, transferência de tecnologia e licenciamento mais rápido. A versão resumida por reportagens não lista empresas, volumes ou garantias de participação brasileira na cadeia de processamento.
Em setembro, vazou um deck de 22 páginas chamado “Prosperity Partnership”, com a marca “Flávio Bolsonaro, 2026 Campaign”. O texto propunha aliança mineral com os Estados Unidos, mudanças nas regras de mineração e investimentos de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões. André Marinho, apontado como autor, disse que era um exercício pessoal e nunca foi enviado.
A diferença entre documento e programa é decisiva. O deck mostra uma ideia circulando no entorno da campanha, mas não prova que Flávio a adotou. O candidato também não publicou contrato ou cronograma que permita medir o que seriam “investimento protegido” e “parceria de longo prazo”.
O registro das terras raras mistura fatos e promessas Informações documentadas nas fontes consultadas até outubro de 2026
| Fato | Número ou posição | Status |
|---|---|---|
| Reservas brasileiras | Cerca de 21 milhões de toneladas | Segunda maior reserva, segundo a Mining.com |
| Serra Verde, em Goiás | Venda por US$ 2,8 bilhões | Acordo da USA Rare Earth |
| Financiamento americano da mina | US$ 565 milhões | Crédito do governo dos EUA |
| Deck “Prosperity Partnership” | US$ 50–100 bilhões | Autor diz que foi exercício pessoal |
Fonte: Reuters, Mining.com e Estado de Minas, consultados pela redação. Elaboração: redação.
Soberania e contrapesos
A única mina comercial de terras raras do Brasil, Serra Verde, foi vendida em abril para a americana USA Rare Earth. O acordo prevê financiamento público dos Estados Unidos e produção destinada a comprador apoiado por Washington. Esse fato não envolve Flávio, mas mostra por que uma promessa genérica de parceria precisa dizer quem controla a extração e a tecnologia.
Em setembro, Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei prevê crédito tributário de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034, fundo de garantia de até R$ 5 bilhões e conselho capaz de analisar aquisições estrangeiras.
A diferença é de método. O governo Lula tenta criar instrumentos para negociar capital e controle; Flávio enfatiza velocidade, capital externo e alinhamento com Washington. Nenhuma das duas opções elimina o risco de dependência, mas só uma apresenta mecanismos públicos de fiscalização no registro consultado.
No debate da Band, Lula perguntou se Flávio entregaria terras raras aos Estados Unidos. Flávio chamou a acusação de fake news e disse que viajou para defender empresas brasileiras. As reportagens consultadas divergem sobre uma negativa direta; por isso, não é possível escrever que ele descartou o alinhamento mineral.
O que diz Flávio Bolsonaro: A campanha afirma que ele não trabalha para taxar o Brasil e que sua ida aos Estados Unidos defendeu empresas brasileiras. O candidato fala em parcerias estratégicas, mas não apresentou tratado ou lista de garantias.
Nós, que defendemos a soberania e o agro, não podemos confundir parceria com cheque em branco. Antes do segundo turno, o eleitor tem direito de saber se terras raras serão política industrial brasileira ou moeda de aproximação com a Casa Branca.
Como fizemos: Separamos declarações, documentos, acordos privados e leis públicas com base nas fontes consultadas. Mantivemos como hipótese o deck atribuído a André Marinho, porque o autor diz que era pessoal. Não afirmamos venda de reservas nem financiamento estrangeiro da campanha, porque essas hipóteses não foram verificadas.
Fontes
- Terras raras: Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- Quem vai controlar as terras raras do Brasil? — Brasil de Fato
- Terras raras: plano com marca de Flávio prevê parceria com EUA — Estado de Minas
- USA Rare Earth compra Serra Verde por US$ 2,8 bilhões — Reuters/Investing.com
- Trump courts Brazil in rare-earth supply push — Mining.com
- Lula sanciona lei dos minerais críticos — Jornal do Brasil
- Não seremos colônia de ninguém — Poder360



