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Tribuna

Plano de Flávio abre o SUS a gestores privados e deixa piso em aberto

Programa prevê OSs, hospitais privados e prontuário compartilhado; equipe estudou congelar o piso da saúde, mas campanha nega a proposta.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Flávio Bolsonaro e Frederick Wassef falam à imprensa em entrevista coletiva no Senado.
Flávio Bolsonaro em entrevista coletiva; o programa de governo prevê mais parcerias privadas na gestão do SUS.Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O plano de governo de Flávio Bolsonaro não diz que o Sistema Único de Saúde (SUS) será privatizado. Ele propõe, porém, ampliar parcerias com empresas privadas e organizações sociais (OSs) para hospitais e procedimentos complexos, além de compartilhar prontuários com unidades particulares.

A equipe econômica também estudou corrigir o piso federal da saúde apenas pela inflação. A campanha nega que essa seja uma decisão oficial. O resultado é um programa que descreve quem pode prestar o serviço, mas não informa quanto o governo federal investirá nem como protegerá o financiamento mínimo.

O desenho apresentado

O documento prevê mais contratos com o setor privado e com OSs, telemedicina e um prontuário eletrônico nacional integrado a hospitais particulares. O prontuário compartilhado já existe em parte na rede pública, segundo checagem do Aos Fatos, mas o plano não apresenta cronograma, custo ou metas de cobertura.

Em agosto, Flávio anunciou Claudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, para o Ministério da Saúde. O candidato passou a chamar a proposta de “SUS padrão Einstein”. No debate da Band, Lula perguntou se isso significava privatização, e Flávio não deu uma negativa direta.

O plano de saúde combina gestão privada e lacunas de financiamento Elementos documentados no programa e nas reportagens consultadas

Elemento O que está escrito ou foi estudado O que falta
Gestão Parcerias com setor privado e OSs Critérios e metas de contrato
Procedimentos Hospitais privados para casos complexos Lista de serviços e custos
Dados Prontuário nacional com rede particular Cronograma e governança
Piso da saúde Equipe estudou correção só pela inflação Decisão oficial e valor protegido

Fonte: plano de Flávio, Agência Brasil, Folha reproduzida por IstoÉ Dinheiro e Aos Fatos. Elaboração: redação.

A diferença entre privatizar e contratar é jurídica. A Constituição permite participação complementar da iniciativa privada, mas mantém o dever estatal de oferecer saúde universal. Por isso, os verificadores Aos Fatos e Lupa classificaram como falsa a frase viral de que Flávio prometeu privatizar o SUS.

O risco político está em outro lugar. Se a rede pública depender mais de contratos, o governo terá de fiscalizar qualidade, filas, preços e continuidade do atendimento. Sem números de investimento, o eleitor não consegue saber se a parceria amplia capacidade ou substitui hospitais públicos.

A proposta do piso torna a conta mais concreta. Vincular a despesa à inflação, em vez de à receita, reduz o crescimento real quando a economia aumenta. A Folha informou que essa hipótese fez parte de uma “Super PEC” de corte de cerca de R$ 250 bilhões; a campanha diz que o estudo não é programa oficial.

A crítica da Central Única dos Trabalhadores (CUT) é que a contratação privada pode substituir expansão pública. É uma posição sindical, não prova de que o serviço piorará. Mas aponta a pergunta que o plano deixa sem resposta: qual será a participação direta da União em atenção básica, vacinação e medicamentos?

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele rejeita a afirmação de que privatizará o SUS, promete um sistema “padrão Einstein” e diz que não mudará os pisos constitucionais. A campanha afirma que o estudo de congelamento não representa a posição oficial.

Nós, que defendemos o SUS como patrimônio nacional, precisamos cobrar a conta completa. Criticar o PT não autoriza entregar um cheque em branco a OSs e hospitais privados. No segundo turno, a escolha envolve o modelo de gestão e o dinheiro que ficará protegido no orçamento.

Como fizemos: Consultamos o plano resumido pela Agência Brasil e pela DC Mais, a checagem do Aos Fatos e a reportagem sobre o estudo do piso. Mantivemos a distinção entre proposta registrada, estudo interno e declaração de campanha. Não afirmamos privatização nem calculamos perda de recursos sem uma regra oficial.

Fontes