Em sete anos, Flávio aprovou 2 de 60 projetos. O resto é sobrenome
Nenhum dos dois virou lei, e em 2026 ele deixou de votar em 43% das votações nominais até junho: currículo de herdeiro, não de candidato do mérito.
Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Em sete anos de Senado, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresentou 60 projetos de lei, sozinho ou com colegas. Só dois de sua autoria foram aprovados pela Casa, segundo levantamento do jornal Valor reproduzido pelo Terra. É uma taxa de cerca de 3%, e nenhum dos dois virou lei. Esta coluna é de opinião: sem o sobrenome, esse currículo não sustentaria uma candidatura à Presidência.
Um projeto destina dinheiro de loterias à Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR). O outro trata da reciclagem de baterias de carros elétricos. Os dois estão parados na Câmara. A direita, que sempre defendeu o mérito contra o compadrio, deveria medir Flávio com a mesma régua que usa para os outros.
No total, Flávio assinou 433 proposições, incluindo 95 propostas de emenda à Constituição (PECs). Propor é fácil: basta assinar. Aprovar exige articulação, presença e convencimento. Até a PEC da pré-campanha que acaba com a reeleição para presidente, protocolada em março, segue sem aprovação, segundo o Poder360.
Presença abaixo da média
A produtividade não é o único dado. Até 22 de junho, Flávio deixou de votar em 43% das 49 votações nominais do Senado em 2026, aquelas em que cada voto fica registrado. A média dos 81 senadores foi de 20%, segundo análise da Folha de S.Paulo reproduzida pelo Estado de Minas. O jornal procurou o gabinete, que não respondeu.
O gráfico abaixo mostra que Flávio divide o quinto lugar do ranking com outros quatro senadores, com mais que o dobro da média da Casa. Em julho, a assessoria dele disse ao SBT News que é “errado associar que o senador não estivesse em atividade parlamentar” quando falta registro de voto.
Fonte: análise da Folha de S.Paulo, reproduzida pelo Estado de Minas (49 votações nominais de 24/2 a 16/6/2026; ausências justificadas não contam). Romário: 20 de 38 votações em que era titular, percentual calculado pela redação. Elaboração: redação.
O registro nas votações que marcaram o mandato é misto, e é justo dizer isso. Em 2019, Flávio votou a favor da reforma da Previdência, voto que a direita aplaudiu com razão. Em 2023, votou contra o arcabouço fiscal de Lula, a regra que limita o crescimento dos gastos, e contra a reforma tributária. A tabela resume os placares.
Nas votações-chave, Flávio votou com a oposição e faltou ao marco temporal Placar no plenário do Senado (votos sim a não) e posição de Flávio Bolsonaro, 2019 a 2024
| Votação | Data | Placar | Flávio |
|---|---|---|---|
| Reforma da Previdência | out. 2019 | 60 a 19 | Sim |
| Arcabouço fiscal | jun. 2023 | 57 a 17 | Não |
| Marco temporal | set. 2023 | 43 a 21 | Ausente |
| Reforma tributária | nov. 2023 | 53 a 24 | Não |
| Fim das saidinhas | fev. 2024 | 62 a 2 | Relator |
Fonte: Agência Senado, Congresso em Foco e Revista Oeste. Elaboração: redação.
A ausência que pesa
Em 27 de setembro de 2023, o Senado aprovou por 43 votos a 21 o marco temporal. A regra limita a demarcação de terras indígenas e é pauta central para o agro. Flávio não compareceu, segundo a lista de votos do Congresso em Foco. Para quem pede o voto do campo, é uma ausência difícil de explicar.
O ponto mais forte do mandato é uma relatoria. Em fevereiro de 2024, Flávio relatou o projeto que elimina a saída de presos em feriados, as saidinhas, aprovado por 62 a 2. Relatar é trabalho real. Mas é diferente de ter a própria agenda aprovada.
O que o sobrenome faz
Antes do Senado, Flávio foi deputado estadual no Rio. Tem registro de advogado e foi sócio de uma franquia de chocolates. Não é verdade que nunca trabalhou, e esta coluna não diz isso. A pergunta é o que, nesse currículo, justifica ser o candidato da direita ao Planalto.
A resposta mais honesta é o sobrenome: o pai, preso após condenação no Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou a escolha numa carta em dezembro de 2025. “Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho, para a missão de resgatar o nosso Brasil”, escreveu. A mãe, Rogéria, chegou a ser confirmada pelo PL como suplente de um aliado ao Senado. Foi uma decisão de família, não uma seleção por mérito.
Em agosto, Gilberto Kassab, do PSD, disse a empresários que a chance de Flávio se eleger era “zero”. “Na hora que o PT mostrar quem é o Flávio e as pessoas que estão no entorno dele, ele vai desabar”, afirmou, segundo o Estadão Conteúdo. Kassab errou a previsão: Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula. Mas o histórico existe, está documentado e cabe em poucas linhas.
O que diz Flávio Bolsonaro: Em nota ao SBT News, em julho, a assessoria afirmou que o senador “exerce seu mandato de forma ativa e comprometida, dentro e fora do Congresso Nacional” e que a pré-campanha não interfere no trabalho legislativo. A nota cita o Prêmio de Excelência Parlamentar do Ranking dos Políticos, recebido de 2023 a 2025. Sobre os 43% de votações sem voto, a Folha informou que procurou a assessoria por email e telefone em 26 de junho, sem resposta até a publicação.
A direita do mérito cobra resultados de quem pede o seu voto. Dois projetos aprovados no Senado em sete anos, nenhum transformado em lei, e 43% das votações nominais sem voto até junho não são currículo de presidente. São currículo de herdeiro. No dia 25, a direita pode votar no sobrenome, ou guardar a bandeira do mérito para um candidato que a mereça.
Como fizemos: Esta é uma coluna de opinião, apoiada em dados públicos. A produção legislativa vem do levantamento do Valor reproduzido pelo Terra, em outubro de 2026; a taxa de cerca de 3% é cálculo nosso (2 aprovados no Senado entre 60 projetos de lei). As faltas vêm da análise da Folha sobre 49 votações nominais até 22 de junho de 2026, que não conta ausências justificadas; o percentual de Romário (20 de 38) foi calculado pela redação. Placares e votos foram conferidos nas listas da Agência Senado, do Congresso em Foco e da Revista Oeste, e todas as fontes foram verificadas e acessadas em outubro de 2026. Um levantamento do SBT News, com outro critério e 54 votações até julho, chega a números diferentes; nenhum dos dados mostra o trabalho em comissões nem o motivo de cada ausência.
Fontes
- O que Flávio Bolsonaro apresentou e aprovou em 7 anos como senador — Terra (acesso em outubro de 2026)
- Flávio Bolsonaro se ausentou em 43% das votações nominais do Senado em 2026 — Estado de Minas (acesso em outubro de 2026)
- Flávio Bolsonaro lidera faltas a votações no Senado em 2026 — SBT News
- Reforma da Previdência: como votaram os senadores no segundo turno — Agência Senado
- Arcabouço fiscal: veja como votou cada senador — Congresso em Foco
- Saiba como votou cada senador na reforma tributária — Revista Oeste
- Veja como votou cada senador no marco temporal — Congresso em Foco
- Senado aprova PL das saidinhas, que elimina saída de presos em feriados — Congresso em Foco
- Se eleito, Flávio quer fim da reeleição já para seu mandato; entenda — Poder360
- Flávio protocola PEC pelo fim da reeleição para presidente — Gazeta do Povo
- Bolsonaro confirma em carta indicação de Flávio como pré-candidato em 2026 — Bloomberg Línea
- Rogéria Bolsonaro será primeira suplente ao Senado na chapa do PL no Rio — SBT News
- Rogéria Bolsonaro anuncia candidatura à Câmara dos Deputados — Congresso em Foco
- Loja de chocolate de Flávio Bolsonaro foi alvo de operação sobre Queiroz — Exame
- Flávio Bolsonaro diz que renda como advogado ajudou a pagar mansão de R$ 6 milhões — Band B
- Kassab diz que chance de Flávio Bolsonaro ser eleito é zero e que centrão está com Lula — O Liberal (Estadão Conteúdo)
- Flávio Bolsonaro e Lula vão a 2º turno com menor diferença da história — Diário do Grande ABC



