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Tribuna

PEC da Segurança exige integração com controle democrático

Opinião: a integração das polícias só fortalecerá o Brasil se vier com direitos, financiamento transparente e responsabilidade de cada ente federado.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Senadores reunidos no plenário durante votação da PEC 18/2025, com painel de votos ao fundo.
Plenário do Senado durante a votação da PEC 18/2025, em 3 de novembro de 2026.Foto: Ton Molina / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Senado aprovou a PEC da Segurança Pública com 73 votos no primeiro turno e 75 no segundo, sem votos contrários. A unanimidade reconhece uma necessidade real: crime organizado atravessa fronteiras municipais e estaduais. Nossa posição é que a integração deve ser bem-vinda, mas não pode funcionar como cheque em branco.

A PEC 18/2025 inclui o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) na Constituição. Também amplia atribuições federais, permite polícias municipais sob critérios e protege recursos do setor. O valor dessas mudanças dependerá de como cada poder responderá por suas decisões.

Integração não é concentração sem controle

O Susp prevê ações conjuntas, compartilhamento de informações e integração de sistemas entre União, estados, Distrito Federal e municípios. Faz sentido que dados compatíveis e operações coordenadas substituam a fragmentação. Uma facção não organiza sua logística conforme os limites administrativos do mapa.

A Polícia Rodoviária Federal passa a ter previsão constitucional para atuar em ferrovias e hidrovias federais. A expansão acompanha a circulação de mercadorias e pessoas. Também exige planejamento para que novas atribuições não fiquem apenas no papel, sem pessoal, estrutura e fiscalização.

As polícias municipais poderão ser criadas com requisitos de formação, capacidade financeira e fiscalização. Esses limites são essenciais. Ampliar a presença pública nos territórios não deve significar criar corporações sem preparo ou transferir custos sem fonte sustentável.

Cada avanço precisa de uma salvaguarda democrática Dispositivos da PEC e o teste que deverá orientar sua implementação

Dispositivo Oportunidade Teste democrático
Susp Cooperação e dados integrados Responsabilidade de cada ente
Polícias municipais Presença local Formação e fiscalização
Fundos protegidos Previsibilidade financeira Transparência na aplicação
Direitos das vítimas Assistência e participação Acesso efetivo à Justiça

Fonte: Agência Senado. A coluna “teste democrático” apresenta avaliação editorial.

O financiamento merece o mesmo rigor. A PEC protege três fundos contra bloqueios e desvios, com exceções, e destina 10% do superávit do Fundo Social à segurança. Previsibilidade ajuda políticas continuadas. Transparência será necessária para mostrar onde o dinheiro chega e quais resultados produz.

Repressão precisa conviver com direitos

O texto endurece regras para integrantes de facções, milícias e organizações paramilitares. Prevê restrições à progressão de regime e a benefícios processuais, além de confisco de bens ligados à atividade criminosa. A resposta considera a posição de cada integrante na hierarquia do grupo.

Essa diferenciação precisa orientar investigações e decisões judiciais. Combater organizações violentas exige identificar provas, funções e responsabilidades. Rótulos genéricos não substituem o devido processo. Uma política de segurança forte não se mede pela facilidade de afastar garantias, mas pela capacidade de responsabilizar com legitimidade.

A proteção às vítimas recebe espaço importante. Assistência, informação, acesso à Justiça e participação no processo penal entram no texto, com atenção às mulheres. Denunciantes e familiares também ganham proteção. Essas medidas tratam a segurança como direito de quem sofreu o crime, não apenas como punição ao autor.

A responsabilização de pessoas jurídicas envolvidas com organizações criminosas segue o mesmo princípio. Empresas usadas para lavar dinheiro ou sustentar facções devem responder nos termos legais. A fronteira entre envolvimento comprovado e simples relação comercial precisa ser demonstrada, não presumida.

O Senado também fez bem ao separar a redução da maioridade penal. O desmembramento foi apertado, 38 votos a 36, porque havia oposição real à retirada. Rogério Marinho defendeu votar suas emendas imediatamente. Esse argumento merece registro, mas não elimina a necessidade de debate próprio e aprofundado.

O que diz o Senado: o relator Rogério Carvalho afirmou que alterar a PEC obrigaria seu retorno à Câmara e atrasaria respostas urgentes. Sobre a maioridade, sustentou que o calendário especial suprimiria instâncias adequadas de debate. As posições foram publicadas pela Agência Senado.

A aprovação unânime da parte principal não encerra a avaliação democrática. Ela mostra que integração, vítimas e financiamento reuniram consenso. Também contrasta com a divisão sobre a maioridade. Confundir os dois placares esconderia a divergência que permanece.

Na implementação, governos e Congresso deverão publicar regras claras de cooperação e controle. Compartilhar dados exige definir quem acessa, com qual finalidade e sob qual responsabilidade. Criar polícias exige acompanhar formação e conduta. Financiar exige metas e prestação de contas.

Nossa defesa é de uma segurança pública republicana. O Brasil precisa enfrentar facções com instituições coordenadas, trabalhadores preparados e recursos estáveis. Precisa igualmente preservar direitos e responsabilizar cada autoridade. A PEC oferece instrumentos; a prática dirá se eles servirão ao país inteiro. Esse é o teste que defendemos.

Como fizemos: esta opinião parte dos dispositivos, placares e declarações publicados pela Agência Senado, acessados em 5/11/2026. A tabela separa o conteúdo verificado da avaliação editorial. Não presumimos efeitos sobre criminalidade nem interpretamos a unanimidade como apoio às propostas desmembradas.

Fontes