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Congresso

Flávio aprovou duas propostas em sete anos e falta o dobro da média

Das 433 propostas que assinou no Senado desde 2019, só duas de sua autoria passaram pela Casa. Em 2026, ele faltou a 43% das votações nominais; a média foi de 20%.

Flávio Bolsonaro, de terno azul-claro, sentado à bancada do plenário do Senado com a mão na testa e a cabeça baixa.
O senador Flávio Bolsonaro à bancada do plenário do Senado, em Brasília, em 1º de setembro de 2026.Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em sete anos no Senado, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) assinou 433 propostas, como autor ou coautor. Só duas de sua autoria foram aprovadas pela Casa, segundo levantamento do Valor Econômico publicado pelo Terra. Nenhuma virou lei: as duas estão paradas na Câmara dos Deputados.

As duas aprovações equivalem a cerca de 0,5% do total assinado, embora a conta inclua textos em que ele é só um dos coautores. Em 2026, o candidato do PL à Presidência também faltou a 43% das votações nominais do Senado. É mais que o dobro da média da Casa, de 20%.

Flávio chegou ao Senado em 2019, eleito pelo Rio de Janeiro com mais de 4 milhões de votos. A dez dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro, o mandato é o registro público mais longo de sua atuação em Brasília. Presidente não vota projetos, mas depende do Congresso para aprovar o que promete.

O que passou e o que parou

Das 433 propostas, 95 são Propostas de Emenda à Constituição (PECs), que alteram o texto da Constituição, e 60 são projetos de lei, segundo o Valor. A maior parte trata de segurança pública e defesa. Dos 60 projetos de lei, 54 ainda tramitam.

O primeiro aprovado, o projeto de lei (PL) 3.071/2019, inclui a Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR) entre as entidades que recebem dinheiro de loterias. O Senado o enviou à Câmara em 2024. O segundo, o PL 2.327/2021, cria regras para reciclar baterias de carros elétricos e está na Câmara desde 2023.

O trabalho de maior visibilidade do mandato foi como relator, não como autor. Em fevereiro de 2024, ele relatou no Senado o projeto que acabou com as saidinhas de presos em feriados. O texto foi aprovado por 62 votos a 2, segundo o Congresso em Foco.

Faltas acima da média

Até 22 de junho de 2026, o Senado fez 49 votações nominais, aquelas em que o voto de cada senador fica registrado no painel. Flávio não votou em 43% delas, cerca de 21, segundo levantamento da Folha de S.Paulo reproduzido pelo Estado de Minas. A conta exclui faltas justificadas, como licença de saúde ou missão oficial.

O gráfico abaixo mostra que ele dividiu o quinto lugar com outros quatro senadores. O gabinete de Flávio não respondeu à Folha, que o procurou por email e telefone.

Nas votações mais recentes, ele também usou o voto à distância. Na quarta-feira (14), votou a favor do fim da escala 6x1, de seis dias de trabalho para um de folga. Estava em campanha no Rio Grande do Sul, relatou a Exame. A proposta passou por 75 votos a 1.

Gráfico de barras mostra que Flávio Bolsonaro ficou sem votar em 43% das votações nominais do Senado em 2026, até 22 de junho, mais que o dobro da média da Casa, de 20% Fonte: levantamento da Folha de S.Paulo, reproduzido pelo Estado de Minas (28/06/2026). O percentual de Romário (20 de 38 votações) é cálculo próprio, e o gabinete dele contesta o número. Elaboração: redação.

Como ele votou nas grandes decisões

Quando esteve presente, Flávio seguiu em geral a linha da oposição e da família, como mostra a tabela abaixo. Em 2019, defendeu os decretos de armas do pai, que o Senado derrubou por 47 votos a 28, segundo o Poder360. Em 2023, votou contra o arcabouço fiscal, a regra do governo Lula que limita o crescimento dos gastos.

Flávio votou com a oposição nas grandes decisões e faltou ao marco temporal Votações nominais no plenário do Senado, placar e voto do senador, 2019 a 2026

Votação Ano Placar Voto de Flávio
Fim da escala 6x1 2026 75 a 1 A favor (remoto)
Saidinhas de presos 2024 62 a 2 Relator
Reforma da Previdência (2º turno) 2019 60 a 19 A favor
Arcabouço fiscal 2023 57 a 17 Contra
PEC das drogas (1º turno) 2024 53 a 9 A favor
Dosimetria do 8 de janeiro 2025 48 a 25 A favor
MP 1.045, rejeitada 2021 47 a 27 A favor da MP
Marco temporal 2023 43 a 21 Ausente

Fonte: Exame, Congresso em Foco, Agência Senado, CNN Brasil, InfoMoney e Conexão Tocantins. Na MP 1.045, o placar é o da rejeição. Elaboração: redação.

Em 2021, ele apoiou a minirreforma trabalhista da Medida Provisória (MP) 1.045, que o Senado rejeitou. Em dezembro de 2025, votou pelo projeto da dosimetria, que reduz penas de condenados pela trama golpista e pelo 8 de janeiro, entre eles seu pai. Em abril de 2026, votou para derrubar o veto de Lula ao texto. O Senado derrubou o veto por 49 a 24, e Flávio chamou o resultado de “primeiro passo”.

Há lacunas no registro. Na votação unânime que isentou do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil, em novembro de 2025, a presença dele não foi confirmada. O voto sobre a autonomia do Banco Central, em 2020, também não pôde ser verificado.

O que diz Flávio Bolsonaro: O gabinete do senador não respondeu à Folha, que o procurou por email e telefone em 26 de junho, sobre as faltas. Seus aliados destacam as 433 propostas apresentadas, a relatoria da lei que acabou com as saidinhas e o voto a favor do fim da escala 6x1. Sobre a 6x1, Flávio disse em 13 de outubro, segundo O Povo: “Quem vai pagar essa conta vai ter de ser o governo, porque os empresários estão sufocados”.

O que isso significa

Em sete anos, Flávio teve duas propostas próprias aprovadas no Senado, nenhuma transformada em lei até agora. Em 2026, faltou a 43% das votações nominais, contra uma média de 20% na Casa. Suas posições de maior peso acompanharam a pauta da oposição, dos decretos de armas à dosimetria.

Os números não medem tudo: ficam de fora o trabalho em comissões, as negociações de bastidor e as coautorias. Mas um presidente depende do Congresso para tirar promessas do papel. O retrospecto no Senado é um dos poucos registros públicos sobre como Flávio faz avançar a própria agenda.

Como fizemos: Usamos o levantamento do Valor Econômico sobre as propostas de Flávio de 2019 a 2026, publicado pelo Terra, e o da Folha sobre as 49 votações nominais de 2026 até 22 de junho. São cálculos próprios a fatia de cerca de 0,5% (2 de 433, misturando autoria e coautoria), as “cerca de 21” faltas (43% de 49) e o percentual de Romário (20 de 38). Placares e votos da tabela foram conferidos nas reportagens e na Agência Senado listadas em Fontes, verificadas e acessadas em outubro de 2026; o voto individual de Flávio na derrubada do veto da dosimetria não foi localizado nessas fontes. Os dados não mostram votações simbólicas, sem registro individual, nem o trabalho em comissões.

Correção: uma versão anterior deste texto citava Flávio dizendo que o governo deveria “pagar a conta”. A frase publicada pelo O Povo é “Quem vai pagar essa conta vai ter de ser o governo”. A versão anterior também atribuía o levantamento das 433 propostas ao Terra; ele é do Valor Econômico, publicado pelo Terra.

Fontes