Eduardo e Flávio Bolsonaro contestam a vitória de Lula sem provas
Eduardo Bolsonaro pediu que estrangeiros não reconheçam a eleição; Flávio anunciou pedido de anulação. As acusações ainda não foram comprovadas.

Na segunda-feira (26), um dia após a vitória de Lula, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo em inglês. Nele, pede que estrangeiros “não reconheçam estas eleições” e que compartilhem a mensagem.
Segundo o Poder360, o vídeo não apresentou provas de fraude. A narrativa, porém, já circulava havia meses nas redes, com nomes e alcance documentados.
Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de 4.430.191 votos, segundo o TSE, citado pelo Poder360.
Na noite de domingo (25), Flávio disse que “é impossível reconhecer o resultado dessa eleição no contexto em que essas coisas aconteceram”. Em seguida, anunciou: “Vamos pedir a anulação dessas eleições”.
Ele criticou a decisão do ministro do STF Cristiano Zanin, que estendeu a votação até as 19h em locais ainda abertos, por dificuldades de transporte de eleitores. Para Flávio, a medida tratou eleitores de forma desigual.
Quem disse o quê
Flávio já associava as urnas a uma empresa estrangeira. Em 21 de julho, em evento com diplomatas em Brasília, ele disse que as urnas “têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, referindo-se à Smartmatic. A Lupa e o TSE classificaram a afirmação como falsa.
Eduardo foi condenado pelo STF por coação, e a condenação tornou-se definitiva em 3 de outubro, segundo o Poder360. No vídeo, ele afirmou que a vitória de Lula seria “estatisticamente impossível”. Ele se baseou na variação de votos entre os turnos, em pesquisas e nos votos de candidatos eliminados.
O Poder360 lembrou que votos de candidatos eliminados não migram automaticamente para os candidatos que eles apoiavam. Eduardo também pediu “pressão internacional” e que o vídeo fosse compartilhado.
Plataformas e checagens
Os dados de alcance mostram a dimensão do problema. Segundo a Meltwater, citada pela Lupa, postagens sobre fraude no X e no YouTube alcançaram em média cerca de 20,3 milhões de perfis em 22 de julho. Foi a maior média em seis meses, logo após as falas de Flávio sobre as urnas.
Em julho, o TSE firmou memorandos de cooperação contra desinformação com Meta, X, Telegram, TikTok, Kwai, LinkedIn e Google. Os acordos valem até 31 de dezembro de 2026 e não envolvem transferência de dinheiro, segundo o Poder360.
A moderação também falha em outras frentes. No dia do primeiro turno, 4 de outubro, o NetLab da UFRJ identificou 568 anúncios irregulares na Meta. Outros seis imitavam comunicados do TSE. O levantamento não trata só de fraude. A Meta respondeu que “a amostragem deste relatório não reflete a escala do nosso trabalho de integridade”. O Conselho da Meta também admitiu falhas recorrentes na moderação eleitoral, tema que tratamos em 21 de outubro.
Quem pagou para ampliar essas postagens não aparece nos dados consultados. Não encontramos relatório publicado que aponte financiamento organizado da narrativa. Por isso, esta reportagem não atribui financiamento a ninguém.
Entre junho e agosto, a Lupa publicou ao menos sete checagens sobre urnas e o sistema eleitoral. O TSE respondeu com notas e declarações. Em junho, afirmou à Lupa: “Não há qualquer registro de fragilidade que comprometa o sigilo ou a integridade do voto.” Após o segundo turno, o presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, disse ter “absoluta segurança do processo eleitoral”. O tribunal também negou que fiscais do PL tenham sido retirados da sala de apuração, lembrando que dois representantes do partido acompanharam a totalização.
O que diz Flávio Bolsonaro: Na noite de 25 de outubro, disse que é impossível reconhecer o resultado e que vai pedir a anulação, sem detalhar a ação judicial. Em julho, em nota à Lupa, afirmou que “não está questionando o sistema de votação brasileiro”.
Flávio anunciou que vai pedir a anulação, mas não detalhou a ação judicial. As reportagens consultadas não registram pedido protocolado até a publicação. Até agora, as acusações não vieram acompanhadas de provas verificáveis.
Como fizemos: Usamos reportagens e checagens publicadas entre junho e outubro de 2026, acessadas em 26/10/2026: Infomoney, Poder360, Lupa e Brasil de Fato. Os votos e a diferença são os do TSE, como citados pelo Poder360. O alcance é uma estimativa da Meltwater, medida só no X e no YouTube; não calculamos alcance próprio. As falas de Eduardo foram traduzidas do inglês pelo Poder360. Não encontramos, nas buscas feitas, checagens de Aos Fatos, Comprova ou Núcleo sobre o resultado do segundo turno. Também não foi possível verificar quem financia a narrativa.
Fontes
- Flávio não reconhece resultado e diz que vai pedir anulação — InfoMoney
- Eduardo Bolsonaro pede que estrangeiros não reconheçam eleição — Poder360
- Ataques de Flávio Bolsonaro às urnas geram pico de menções a fraude eleitoral em redes — Lupa
- TSE não cancelou eleições de 2026 nem identificou fraude em 2 mil urnas — Lupa
- Urnas eletrônicas voltam a ser alvo de desinformação em 2026 — Lupa
- TSE amplia cooperação com plataformas digitais contra fake news — Poder360
- Big techs descumprem regras eleitorais no dia da votação, diz estudo — Brasil de Fato
- Boletins de urna em Feira de Santana — Wikimedia Commons (acesso em 26/10/2026)



