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Orçamento

Contingenciamento passa a ser a principal trava do Orçamento de 2026

Relatório de setembro prevê contenção de R$ 16,1 bi: R$ 13,6 bi por contingenciamento e R$ 2,4 bi por bloqueio.

Parlamentares conversam à mesa durante reunião da Comissão Mista de Orçamento, em uma sala de comissões do Congresso.
Parlamentares conversam à mesa durante reunião da Comissão Mista de Orçamento que discutia a meta fiscal, em Brasília, em 23 de maio de 2016 (imagem de arquivo).Foto: Ana Volpe/Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 24 de setembro, o governo federal anunciou uma contenção total de R$ 16,1 bilhões no Orçamento de 2026. Desse valor, R$ 13,6 bilhões são contingenciamento e apenas R$ 2,4 bilhões são bloqueio. Em julho, o total era só bloqueio: R$ 17,9 bilhões.

As duas palavras costumam aparecer juntas, mas descrevem travas diferentes, com causas diferentes. Os relatórios de julho e setembro mostram como essa diferença aparece no Orçamento. As duas medidas atingem só as despesas discricionárias, aquelas que o governo pode adiar, como obras, compra de equipamentos e custeio dos ministérios. Gastos obrigatórios, como salários e aposentadorias, não podem ser travados.

Contingenciamento: quando a receita não garante a meta

O contingenciamento nasce da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), de 2000. Pelo artigo 9º, se a realização da receita “poderá não comportar o cumprimento das metas”, os Poderes devem limitar empenhos e a movimentação financeira nos 30 dias seguintes. Empenho é a reserva de dinheiro para uma despesa.

A meta é de resultado primário: a diferença entre receitas e despesas, sem contar os juros da dívida. Para 2026, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) fixou superávit de R$ 34,3 bilhões. Uma margem de tolerância aceita também resultado zero.

Se a receita voltar a crescer, a LRF manda devolver o dinheiro travado, na mesma proporção dos cortes. O parágrafo 1º do mesmo artigo prevê essa recomposição proporcional. As emendas parlamentares também entram na conta. A Lei Complementar (LC) 210, de 2024, permite contingenciá-las “até a mesma proporção” aplicada às demais despesas discricionárias.

Bloqueio: quando a despesa obrigatória sobe

O bloqueio responde a outro limite. O arcabouço fiscal, criado pela LC 200, de 2023, fixa um teto para as despesas primárias, que são as despesas sem os juros da dívida. O limite de cada órgão cresce, no máximo, pela inflação mais um ganho real de 0,6% a 2,5%.

Quando os gastos obrigatórios crescem mais que o previsto, o governo trava despesas discricionárias para não estourar o teto. Por isso, um bloqueio pode existir mesmo com a arrecadação em alta. Em julho, a previsão de receitas subiu R$ 12,3 bilhões, e o bloqueio caiu R$ 5,7 bilhões.

A liberação de julho veio da despesa, não da receita. Segundo a Agência Brasil, o desbloqueio foi possível após a revisão das estimativas com Previdência e gastos com pessoal. A estimativa do Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, também caiu.

Setembro: o contingenciamento assume a maior parte

O relatório de setembro inverteu a proporção. O bloqueio caiu para R$ 2,4 bilhões, e o contingenciamento somou R$ 13,6 bilhões, o primeiro do ano. Mais de 80% da contenção total passou a ser contingenciamento. A tabela mostra a mudança.

Contingenciamento passa a ser a maior parte da trava em setembro Valores em R$ bilhões, por relatório bimestral de 2026

Relatório Bloqueio Contingenciamento Total
Julho (3º bimestre) 17,9 0 17,9
Setembro (4º bimestre) 2,4 13,6 16,1
Variação -15,5 +13,6 -1,8

Fonte: Ministério do Planejamento e Orçamento, apresentação do 4º relatório de 2026 (24/9/2026); Agência Brasil e Poder360 para os valores de julho. Valores arredondados pela fonte. Elaboração: redação.

O total caiu cerca de 10%, mas a causa mudou. Em julho, a trava vinha do teto de gastos. Em setembro, o governo diz que o contingenciamento considera o limite inferior da meta fiscal.

O que diz o Ministério do Planejamento e Orçamento: A apresentação do relatório de setembro fala em contingenciamento de R$ 13,6 bilhões “considerando o limite inferior da meta (LDO 2026)”. A informação está no material oficial divulgado em 24 de setembro de 2026.

O que isso significa

O bloqueio depende sobretudo das despesas obrigatórias. O contingenciamento depende da receita e da meta fiscal. Por isso, as duas travas podem aparecer juntas no mesmo relatório, como em setembro.

O decreto que distribui a trava entre ministérios estava previsto para até 30 de setembro. A reportagem não localizou a publicação desse decreto nas fontes consultadas. O próximo relatório bimestral, previsto para novembro, mostra se a trava muda. Para quem espera uma obra ou um programa federal, o dinheiro previsto no Orçamento pode demorar a chegar.

Como fizemos: Comparamos os relatórios bimestrais de julho e setembro de 2026 a partir de reportagens da Agência Brasil (republicada pelo O Povo) e do Poder360, e da apresentação oficial do Planejamento sobre o relatório de setembro, consultadas em 20 de outubro de 2026. As variações e a participação do contingenciamento no total são cálculos nossos, feitos sobre valores arredondados pela fonte, por isso a soma pode não bater. Os valores são nominais e do mesmo ano, sem correção pela inflação. O texto não traz o decreto de detalhamento por ministério, que não localizamos, nem o texto consolidado da LC 210.

Atualização: A versão original, de 23 de setembro, dizia que o relatório do quarto bimestre sairia nos próximos dias. Ele foi divulgado em 24 de setembro, e os números desta versão são os desse relatório.

Correção: A versão anterior deste texto dizia que o governo manteve o bloqueio em julho e que o arcabouço fixava teto para o total das despesas. O correto é que o bloqueio caiu de R$ 23,7 bilhões para R$ 17,9 bilhões naquele mês, e que o teto vale para as despesas primárias, sem os juros da dívida.

Fontes