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Orçamento

Emendas de 2027 podem passar de R$ 44,8 bi para R$ 57,7 bi

O projeto do governo só reserva as emendas obrigatórias; em 2026, o Congresso somou R$ 12,1 bilhões em emendas de comissão e o valor final ficou 22% acima do projeto.

Senadores sentados à bancada de uma sala de comissões, com microfones e documentos, durante reunião da Comissão Mista de Orçamento.
Senadores durante reunião da Comissão Mista de Orçamento para análise de relatórios do projeto de lei orçamentária anual, em Brasília, em 8 de dezembro de 2016 (imagem de arquivo).Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O projeto do Orçamento de 2027, entregue ao Congresso na segunda-feira (31), reserva R$ 44,8 bilhões para emendas parlamentares. O valor cobre só as emendas de pagamento obrigatório, as individuais e as de bancada estadual, segundo a Agência Câmara.

Esse valor é só o piso. Em 2026, o Congresso aprovou R$ 49,9 bilhões em emendas controladas pelos parlamentares, 22% acima do projeto. Com todo o teto das emendas de comissão, 2027 pode chegar a R$ 57,7 bilhões.

Emenda parlamentar é a mudança que deputados e senadores fazem no orçamento para enviar dinheiro a obras, serviços ou cidades. A Constituição e a Lei Complementar (LC) 210, de 2024, definem os tipos e as regras.

O piso: as emendas obrigatórias

As emendas individuais são apresentadas por cada deputado e senador. Desde a Emenda Constitucional (EC) 126, de 2022, elas somam até 2% da receita corrente líquida (RCL) do ano anterior. A RCL é a arrecadação da União descontados, entre outros itens, os repasses obrigatórios a estados e municípios.

Desse limite, 1,55% cabe aos deputados e 0,45% aos senadores, e metade vai para a saúde. As emendas de bancada, de cada estado e do Distrito Federal, vão até 1% da RCL. A LC 210 limita cada bancada a oito emendas, voltadas a grandes projetos para o estado. Os dois tipos são impositivos: o governo precisa pagá-los, salvo impedimento técnico.

Como o piso é atrelado à receita, ele sobe quando a arrecadação cresce. A reserva de 2027 é R$ 4 bilhões maior que os R$ 40,8 bilhões do projeto de 2026, alta de 9,8%. Descontada a inflação oficial, medida pelo IPCA, de 4,2% nos 12 meses até agosto, o ganho real fica perto de 5%. A tabela resume os tipos.

Emendas de comissão, sem pagamento obrigatório, foram o segundo maior tipo em 2026 Regras por tipo de emenda e valores no Orçamento aprovado de 2026, em R$ bilhões

Tipo Obrigatória? Regra principal 2026 (R$ bi)
Individuais Sim Até 2% da RCL; metade na saúde 26,6
Comissão Não Metade na saúde; teto definido em lei 12,1
Bancada estadual Sim Até 1% da RCL; até 8 por bancada 11,2
Pix (parte das individuais) Sim Pelo menos 70% em obras e equipamentos incluído nas individuais

Fonte: Constituição Federal (art. 166), EC 105/2019, EC 126/2022, LC 210/2024 e Agência Senado (valores do Orçamento aprovado em dezembro de 2025). Elaboração: redação.

O que o Congresso acrescenta

As emendas de comissão são propostas pelas comissões permanentes da Câmara, do Senado e do Congresso. Pela LC 210, atendem ações de interesse nacional ou regional, e pelo menos metade vai para a saúde. Elas não têm pagamento obrigatório e ficaram fora do projeto.

A lei aprovada em dezembro de 2025 trouxe R$ 26,6 bilhões em emendas individuais, R$ 11,2 bilhões de bancada e R$ 12,1 bilhões de comissão, segundo a Agência Senado. Outros R$ 11,1 bilhões ficaram em ações dos ministérios, geridas pelo governo, e o total chegou a cerca de R$ 61 bilhões.

Na lei, as obrigatórias somaram R$ 37,8 bilhões, menos que no projeto. Foram as emendas de comissão que elevaram o total. Para 2027, o teto da LC 210 para as emendas de comissão é de R$ 12,9 bilhões, segundo a Agência Brasil. Somado à reserva obrigatória, o total possível chega a R$ 57,7 bilhões, 29% acima do projeto, como mostra o gráfico.

Gráfico de barras mostra que, em 2026, o projeto previa R$ 40,8 bilhões em emendas e o Orçamento aprovado chegou a R$ 49,9 bilhões, com R$ 12,1 bilhões de comissão; em 2027, o projeto prevê R$ 44,8 bilhões e o total possível com o teto de comissão é de R$ 57,7 bilhões Fonte: Agência Brasil (projetos de 2026 e 2027 e teto das emendas de comissão), Agência Câmara (projeto de 2027) e Agência Senado (Orçamento aprovado de 2026). Valores nominais, sem correção pela inflação. “Potencial” soma a reserva obrigatória ao teto de comissão e não é previsão. Elaboração: redação.

Emendas Pix e as exigências do STF

As transferências especiais, criadas pela EC 105, de 2019, são uma forma de pagar emendas individuais. O dinheiro vai direto para o caixa do estado ou da prefeitura, sem convênio, o acordo que detalha o uso do dinheiro. Daí o apelido de “emendas Pix”. Pelo menos 70% deve ir para despesas de capital, como obras e equipamentos.

A LC 210 exige conta bancária específica e obriga o beneficiário a informar, em até 30 dias, o valor e o plano de trabalho ao Legislativo local e aos tribunais de contas.

Em dezembro de 2022, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional o orçamento secreto, feito com emendas de relator que escondiam quem pedia o dinheiro. Desde 2024, o ministro Flávio Dino cobra o cumprimento da decisão na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 854.

Ele exigiu autor e beneficiário final de cada emenda no Portal da Transparência e, desde 2025, plano de trabalho prévio para pagar emendas Pix. Em outubro de 2025, estendeu o modelo às emendas de deputados estaduais, distritais e vereadores, a partir de 2026.

O que diz o governo: A reportagem não localizou, nas fontes consultadas, manifestação do governo federal, autor do projeto, sobre a ausência de reserva para emendas de comissão em 2027. A regra de execução está na LC 210/2024, que permite bloquear as emendas “até a mesma proporção aplicada às demais despesas discricionárias”, ou seja, às despesas não obrigatórias. O texto está no portal de legislação do Senado.

O que isso significa

O valor de R$ 44,8 bilhões mostra só o que o governo é obrigado a pagar. O tamanho final depende da negociação no Congresso, que começa na Comissão Mista de Orçamento (CMO), onde deputados e senadores apresentam agora suas emendas. Depois de aprovadas, cada uma pode ser acompanhada no Portal da Transparência, com autor, valor e destino.

Como fizemos: Comparamos a reserva para emendas nos projetos de Orçamento de 2026 e 2027 com os valores da lei de 2026, segundo a Agência Câmara, a Agência Brasil e a Agência Senado. As regras foram conferidas na Constituição, nas ECs 105 e 126, na LC 210 e em notícias do STF, todos verificados e acessados em outubro de 2026. Calculamos as variações percentuais e o ganho real da reserva obrigatória com o IPCA acumulado de setembro de 2025 a agosto de 2026 (4,22%, série 433 do Banco Central); os valores do gráfico e da tabela são nominais. O total de R$ 57,7 bilhões é a soma da reserva obrigatória com o teto de comissão, não uma previsão; os dados não mostram quanto será efetivamente pago, e as fontes consultadas não explicam por que as obrigatórias de 2026 ficaram abaixo do projeto.

Fontes