Corte estudado pela equipe de Flávio supera gasto não obrigatório de 2027
O estudo revelado pela Folha prevê cortar R$ 250 bilhões, mais que os R$ 222 bilhões de gasto livre do Executivo que um economista estima para 2027; Flávio nega o plano.

Em 7 de outubro, a Folha de S.Paulo revelou que a equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL) estudava cortar cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em despesas obrigatórias. São cerca de R$ 250 bilhões, segundo a IstoÉ Dinheiro. No dia seguinte, o candidato chamou a notícia de “fake news do PT”, relatou o Poder360.
A negativa não encerrou o debate: o presidente Lula (PT), adversário no segundo turno, passou a perguntar “de onde é que vai ser esse corte”. O valor estudado supera todo o gasto não obrigatório do Executivo previsto para 2027, de cerca de R$ 222 bilhões, segundo o economista Guilherme Klein, ouvido pela BBC. Um corte desse tamanho teria de alcançar despesas que a lei obriga a pagar.
Segundo a Folha, as aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) passariam a subir só pela inflação, sem ganho real. O mesmo valeria para o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Os pisos de saúde e educação, o mínimo que a União deve gastar nessas áreas, deixariam de acompanhar a arrecadação. O Bolsa Família ficaria de fora.
As medidas iriam ao Congresso antes da posse numa “Super PEC da Transição”, uma proposta de emenda à Constituição, relatou o Estado de Minas. Já o plano de governo registrado promete cortar ao menos dez ministérios, mas não dá valor ao corte nem cita aposentadorias ou BPC, segundo a Forbes.
Um corte maior que o gasto livre
O gráfico abaixo compara os valores que circulam na campanha. Os R$ 250 bilhões superam em cerca de R$ 28 bilhões, ou 13%, a estimativa de Klein para o gasto discricionário de 2027. Discricionário é o gasto que o governo pode escolher não fazer, como obras.
Fonte: Folha de S.Paulo (via IstoÉ Dinheiro), Guilherme Klein à BBC, Terra e Gazeta do Povo. Valores nominais, sem correção pela inflação. Elaboração: redação.
Em agosto, Daniella Marques, coordenadora do plano econômico da campanha, propôs cortar 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões, segundo InfoMoney e Gazeta do Povo. É meio ponto percentual do PIB, ou cerca de R$ 60 bilhões, abaixo do estudo. Marcelo Kayath, cotado para chefiar a economia, chamou de “inviável” um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, relatou o Terra.
Onde estaria o dinheiro
A promessa de manter o ganho real do salário mínimo reduz as opções. Klein estima que corrigir o mínimo só pela inflação economizaria de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano, cerca de 6% da meta. Para ele, um ajuste desse tamanho “teria que ir para as despesas obrigatórias”.
A maior delas é a Previdência. O INSS paga mais de 41 milhões de benefícios, e cerca de 70% equivalem a um salário mínimo, segundo o Estado de Minas. Pela conta da redação, são cerca de 29 milhões de benefícios. Como a Constituição os vincula ao mínimo, mudar o reajuste exigiria emenda constitucional, explicou a IstoÉ Dinheiro.
O que Flávio diz e o que pesa contra
Flávio nega cada item. Em 16 de outubro, na sabatina da TV Globo, disse que manterá o ganho real do mínimo e não mudará os pisos de saúde e educação, segundo o InfoMoney. Antes, havia prometido reajuste acima da inflação aos aposentados. A campanha diz que o estudo não é posição oficial.
Em março, Rogério Marinho, então coordenador da pré-campanha, disse à Folha que seria preciso “revisitar a Previdência”. Em 2019, Flávio votou a favor da reforma da Previdência, aprovada no Senado por 60 votos a 19. Em 13 de outubro, entidades empresariais lhe entregaram um plano com idade mínima de 67 anos para aposentadoria. A campanha respondeu que propostas de terceiros não são posição oficial.
Há também desinformação. É falso que Flávio vá acabar com o BPC e o 13º salário ou elevar a aposentadoria para 75 anos, segundo checagem da TMC. Um vídeo em que ele “promete” acabar com o Bolsa Família é uma montagem feita com inteligência artificial, apontou o Boatos.org.
O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato chama a reportagem de “fake news do PT” e diz que dará reajuste acima da inflação aos aposentados (Poder360, 8 de outubro). Na TV Globo, afirmou que não vai desvincular o reajuste do salário mínimo nem mudar os pisos de saúde e educação (InfoMoney, 16 de outubro). A campanha afirma que “a orientação econômica da candidatura não é definida por relatos ou ilações de terceiros” e que o estudo não é sua posição oficial (Estado de Minas).
O que isso significa
O estudo existiu, segundo a Folha, mas não está no plano registrado, e o candidato nega as medidas. Pelos números disponíveis, R$ 250 bilhões não cabem no gasto discricionário e exigiriam mexer em despesas obrigatórias. Até agora, nas fontes consultadas, a campanha não detalhou de onde sairia o valor. O segundo turno é no dia 25.
Como fizemos: Reunimos os valores de corte citados por integrantes e aliados da campanha e por economistas entre agosto e outubro de 2026 e os comparamos em reais nominais, sem correção pela inflação, por serem do mesmo período. As diferenças (R$ 28 bilhões, ou 13%; R$ 60 bilhões) e os cerca de 29 milhões de benefícios (70% de 41 milhões) são cálculos da redação. Todas as afirmações foram conferidas nas reportagens e checagens listadas abaixo, verificadas e acessadas em outubro de 2026; a votação de 2019 foi conferida na página da Agência Senado. Não tivemos acesso ao estudo citado pela Folha nem ao texto integral do plano de governo; os valores são estimativas de terceiros, com bases que podem diferir, e não mostram qual corte seria de fato proposto.
Correção: uma versão anterior deste texto atribuía à BBC o cálculo de economia de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões; a estimativa é do economista Guilherme Klein, ouvido pela BBC. A versão anterior também dizia que a campanha chamou de “informal” o documento das entidades empresariais; segundo o Correio da Manhã, a campanha afirmou que propostas de terceiros não devem ser tratadas como posições oficiais. Por fim, o texto dizia que o restante do corte teria de vir das aposentadorias; Klein afirma que viria das despesas obrigatórias, das quais a Previdência é a maior.
Fontes
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro (acesso em outubro de 2026)
- Flávio considera limitar reajuste de aposentadorias e BPC — Estado de Minas (acesso em outubro de 2026)
- Flávio nega corte em aposentadoria e cita reajuste acima da inflação — Poder360 (acesso em outubro de 2026)
- Flávio diz que não vai desvincular reajuste do mínimo e nem alterar pisos de saúde — InfoMoney (acesso em outubro de 2026)
- Daniella Marques apresenta plano fiscal de Flávio à GloboNews — InfoMoney (acesso em outubro de 2026)
- Daniella Marques diz que plano de Flávio Bolsonaro prevê corte de R$ 190 bi em gastos — Gazeta do Povo (acesso em outubro de 2026)
- Daniella Marques, coordenadora do plano econômico, fala em cortes em supersalários — A Crítica (acesso em outubro de 2026)
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes (acesso em outubro de 2026)
- O que Flávio Bolsonaro e Lula propõem sobre reajuste do salário mínimo e aposentadorias — BBC/O Povo (acesso em outubro de 2026)
- Lula critica tesouraço e questiona onde Flávio Bolsonaro fará corte de R$ 250 bilhões — Terra (acesso em outubro de 2026)
- Coordenador de pré-campanha e a fala de Rogério Marinho à Folha sobre a Previdência — Vermelho (acesso em outubro de 2026)
- Reforma da Previdência: como votaram os senadores no segundo turno — Agência Senado (acesso em outubro de 2026)
- Flávio discutiu com empresários plano para elevar idade de aposentadoria e rever Bolsa Família — ICL Notícias (acesso em outubro de 2026)
- Empresários pedem a Flávio elevação da idade de aposentadoria para 67 — Correio da Manhã (acesso em outubro de 2026)
- TMC prova: é falso que Flávio Bolsonaro vai acabar com 13º, BPC e elevar aposentadoria para 75 anos — TMC (acesso em outubro de 2026)
- Vídeo de Flávio Bolsonaro prometendo acabar com Bolsa Família, BPC e aposentadorias é deepfake criado por IA — Boatos.org (acesso em outubro de 2026)



