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Orçamento

Corte estudado pela equipe de Flávio supera gasto não obrigatório de 2027

O estudo revelado pela Folha prevê cortar R$ 250 bilhões, mais que os R$ 222 bilhões de gasto livre do Executivo que um economista estima para 2027; Flávio nega o plano.

Prédios dos ministérios na Esplanada, em Brasília, em silhueta ao amanhecer, com janelas refletindo a luz alaranjada do céu.
Blocos da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, ao amanhecer (foto de arquivo, janeiro de 2018): o plano de Flávio prevê cortar ao menos dez ministérios.Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 7 de outubro, a Folha de S.Paulo revelou que a equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL) estudava cortar cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em despesas obrigatórias. São cerca de R$ 250 bilhões, segundo a IstoÉ Dinheiro. No dia seguinte, o candidato chamou a notícia de “fake news do PT”, relatou o Poder360.

A negativa não encerrou o debate: o presidente Lula (PT), adversário no segundo turno, passou a perguntar “de onde é que vai ser esse corte”. O valor estudado supera todo o gasto não obrigatório do Executivo previsto para 2027, de cerca de R$ 222 bilhões, segundo o economista Guilherme Klein, ouvido pela BBC. Um corte desse tamanho teria de alcançar despesas que a lei obriga a pagar.

Segundo a Folha, as aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) passariam a subir só pela inflação, sem ganho real. O mesmo valeria para o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Os pisos de saúde e educação, o mínimo que a União deve gastar nessas áreas, deixariam de acompanhar a arrecadação. O Bolsa Família ficaria de fora.

As medidas iriam ao Congresso antes da posse numa “Super PEC da Transição”, uma proposta de emenda à Constituição, relatou o Estado de Minas. Já o plano de governo registrado promete cortar ao menos dez ministérios, mas não dá valor ao corte nem cita aposentadorias ou BPC, segundo a Forbes.

Um corte maior que o gasto livre

O gráfico abaixo compara os valores que circulam na campanha. Os R$ 250 bilhões superam em cerca de R$ 28 bilhões, ou 13%, a estimativa de Klein para o gasto discricionário de 2027. Discricionário é o gasto que o governo pode escolher não fazer, como obras.

Gráfico de barras mostra que o corte de R$ 250 bilhões estudado pela equipe de Flávio supera os R$ 222 bilhões de gasto não obrigatório previstos para 2027; o salário mínimo corrigido só pela inflação economizaria R$ 15 a 16 bilhões Fonte: Folha de S.Paulo (via IstoÉ Dinheiro), Guilherme Klein à BBC, Terra e Gazeta do Povo. Valores nominais, sem correção pela inflação. Elaboração: redação.

Em agosto, Daniella Marques, coordenadora do plano econômico da campanha, propôs cortar 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões, segundo InfoMoney e Gazeta do Povo. É meio ponto percentual do PIB, ou cerca de R$ 60 bilhões, abaixo do estudo. Marcelo Kayath, cotado para chefiar a economia, chamou de “inviável” um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, relatou o Terra.

Onde estaria o dinheiro

A promessa de manter o ganho real do salário mínimo reduz as opções. Klein estima que corrigir o mínimo só pela inflação economizaria de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano, cerca de 6% da meta. Para ele, um ajuste desse tamanho “teria que ir para as despesas obrigatórias”.

A maior delas é a Previdência. O INSS paga mais de 41 milhões de benefícios, e cerca de 70% equivalem a um salário mínimo, segundo o Estado de Minas. Pela conta da redação, são cerca de 29 milhões de benefícios. Como a Constituição os vincula ao mínimo, mudar o reajuste exigiria emenda constitucional, explicou a IstoÉ Dinheiro.

O que Flávio diz e o que pesa contra

Flávio nega cada item. Em 16 de outubro, na sabatina da TV Globo, disse que manterá o ganho real do mínimo e não mudará os pisos de saúde e educação, segundo o InfoMoney. Antes, havia prometido reajuste acima da inflação aos aposentados. A campanha diz que o estudo não é posição oficial.

Em março, Rogério Marinho, então coordenador da pré-campanha, disse à Folha que seria preciso “revisitar a Previdência”. Em 2019, Flávio votou a favor da reforma da Previdência, aprovada no Senado por 60 votos a 19. Em 13 de outubro, entidades empresariais lhe entregaram um plano com idade mínima de 67 anos para aposentadoria. A campanha respondeu que propostas de terceiros não são posição oficial.

Há também desinformação. É falso que Flávio vá acabar com o BPC e o 13º salário ou elevar a aposentadoria para 75 anos, segundo checagem da TMC. Um vídeo em que ele “promete” acabar com o Bolsa Família é uma montagem feita com inteligência artificial, apontou o Boatos.org.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato chama a reportagem de “fake news do PT” e diz que dará reajuste acima da inflação aos aposentados (Poder360, 8 de outubro). Na TV Globo, afirmou que não vai desvincular o reajuste do salário mínimo nem mudar os pisos de saúde e educação (InfoMoney, 16 de outubro). A campanha afirma que “a orientação econômica da candidatura não é definida por relatos ou ilações de terceiros” e que o estudo não é sua posição oficial (Estado de Minas).

O que isso significa

O estudo existiu, segundo a Folha, mas não está no plano registrado, e o candidato nega as medidas. Pelos números disponíveis, R$ 250 bilhões não cabem no gasto discricionário e exigiriam mexer em despesas obrigatórias. Até agora, nas fontes consultadas, a campanha não detalhou de onde sairia o valor. O segundo turno é no dia 25.

Como fizemos: Reunimos os valores de corte citados por integrantes e aliados da campanha e por economistas entre agosto e outubro de 2026 e os comparamos em reais nominais, sem correção pela inflação, por serem do mesmo período. As diferenças (R$ 28 bilhões, ou 13%; R$ 60 bilhões) e os cerca de 29 milhões de benefícios (70% de 41 milhões) são cálculos da redação. Todas as afirmações foram conferidas nas reportagens e checagens listadas abaixo, verificadas e acessadas em outubro de 2026; a votação de 2019 foi conferida na página da Agência Senado. Não tivemos acesso ao estudo citado pela Folha nem ao texto integral do plano de governo; os valores são estimativas de terceiros, com bases que podem diferir, e não mostram qual corte seria de fato proposto.

Correção: uma versão anterior deste texto atribuía à BBC o cálculo de economia de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões; a estimativa é do economista Guilherme Klein, ouvido pela BBC. A versão anterior também dizia que a campanha chamou de “informal” o documento das entidades empresariais; segundo o Correio da Manhã, a campanha afirmou que propostas de terceiros não devem ser tratadas como posições oficiais. Por fim, o texto dizia que o restante do corte teria de vir das aposentadorias; Klein afirma que viria das despesas obrigatórias, das quais a Previdência é a maior.

Fontes