Juros longos sobem quase 2,7 pontos e pressionam a dívida pública
No fechamento de 26/10, juros futuros de 2031 subiram 2,665 pontos percentuais. Parte da dívida reage logo; o restante, na rolagem dos títulos.

No fechamento de 26 de outubro, os juros futuros para janeiro de 2031 chegaram a 15,24% ao ano. A taxa subiu 2,665 pontos percentuais no dia, segundo a InfoMoney. Juros futuros mostram a taxa de juros que o mercado espera para datas mais à frente.
A alta veio logo depois da reeleição de Lula, que contrariou as apostas do mercado. Segundo a InfoMoney, parte dos investidores preferia uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Flávio não reconheceu a derrota e disse que recorrerá à Justiça Eleitoral para pedir a anulação da eleição.
A dívida pública federal chegou a R$ 9,2 trilhões em junho, segundo o Relatório Mensal da Dívida do Tesouro Nacional, citado pelo Metrópoles. Dívida pública é o total que o governo deve a quem empresta. Quase metade desse valor, 49,32%, está atrelada à Selic, a taxa básica de juros do país.
Quem sente a alta primeiro
Os títulos atrelados à Selic acompanham a taxa básica. Quando ela muda, o custo desses títulos muda quase na hora. Os prefixados pagam uma taxa fixa até o vencimento. Os corrigidos pela inflação (IPCA) seguem o índice de preços.
A alta dos juros longos pesa mais sobre a dívida que ainda será emitida ou trocada por títulos novos. Essa troca chama-se rolagem. O efeito é gradual, porque só alcança a dívida que vence e é refinanciada.
Quase metade da dívida federal acompanha a Selic Participação de cada indexador no total da dívida, em %; meta do Plano Anual de Financiamento (PAF) revisado para o fim de 2026
| Indexador | Junho de 2026 | Meta para o fim de 2026 |
|---|---|---|
| Selic | 49,32% | 49% a 53% |
| IPCA | 25,90% | 21% a 25% |
| Prefixado | 21,04% | 20% a 24% |
| Câmbio | não informado | 3% a 7% |
Fonte: Tesouro Nacional, via Metrópoles (dados de junho de 2026); metas do PAF revisado, via Diário do Comércio/Agência Brasil (26/08/2026). Elaboração: redação.
O próprio Tesouro decidiu aumentar a fatia da Selic. A faixa passou de 46% a 50% para 49% a 53% do total. Isso deixa a dívida mais sensível a cada mudança na taxa básica.
Quanto custa cada ponto da Selic
Nossa conta: R$ 9,2 trilhões vezes 49,32% dá cerca de R$ 4,5 trilhões em títulos atrelados à Selic. Cada ponto percentual a mais na taxa, mantido por um ano, custaria cerca de R$ 45 bilhões em juros. É uma conta simples, sem novas emissões nem vencimentos.
Há outra estimativa em circulação. Uma coluna do Jornal do Brasil, de agosto, atribui ao Banco Central o valor de R$ 68,9 bilhões por ponto. Não encontramos o documento oficial com esse número. Estimativas desse tipo mudam conforme a métrica e a data do cálculo.
Ainda segundo a coluna, os juros nominais do setor público somaram R$ 1.150,5 bilhões em 12 meses até julho. Juros nominais são os juros sem descontar a inflação. O valor equivale a 8,67% do PIB, a soma de tudo o que o país produz.
Analistas apontam fiscal e incerteza
Analistas ouvidos pela InfoMoney ligam a alta a duas dúvidas. Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, afirmou que “o mercado está reprecificando simultaneamente dois riscos: o fiscal, relacionado à continuidade dos déficits primários”. Déficit primário é quando o governo gasta mais do que arrecada, sem contar os juros.
Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, afirmou que “medidas expansionistas sem receitas ou cortes compensatórios aumentam a necessidade de financiamento do governo”. Em termos simples, o governo precisa tomar mais dinheiro emprestado.
Segundo a InfoMoney, o Tesouro cancelou os leilões de prefixados e de títulos atrelados à inflação. Também recomprou títulos no mercado para suavizar a alta das taxas. A eleição coincide com o movimento, mas não explica tudo sozinha.
O risco fiscal já existia
As dúvidas sobre 2027 são reais, mesmo sem a alta de hoje. Na proposta enviada ao Congresso, o governo prevê resultado positivo de R$ 18,6 bilhões antes das compensações. A meta central é de R$ 73,2 bilhões, ou 0,5% do PIB, com tolerância de 0,25 ponto percentual para mais ou para menos.
Para chegar à meta, o governo conta com R$ 64,6 bilhões em compensações, principalmente precatórios. Precatórios são dívidas da União decorrentes de decisões da Justiça. Sem essas compensações, a previsão fica bem abaixo da meta.
O dólar pesa menos nessa conta. A meta para títulos ligados ao câmbio é de 3% a 7% da dívida. Assim, a alta do dólar atinge diretamente só uma parte pequena dos títulos.
O que diz o governo: Ao enviar o Orçamento de 2027, o governo projetou resultado positivo de R$ 18,6 bilhões antes das compensações, segundo o Congresso em Foco. Não encontramos manifestação do Ministério da Fazenda sobre a alta dos juros futuros nas fontes consultadas.
O que fica em aberto
Três pontos definem o próximo passo. O primeiro é a Selic, que o Banco Central ajusta nas reuniões do Copom. O segundo é o Orçamento de 2027, cujas compensações o Congresso precisa votar. O terceiro é a equipe econômica do próximo governo.
Segundo Thomas Haugaard, da Janus Henderson, “os sinais-chave serão se Lula nomeará uma equipe econômica com credibilidade junto ao mercado”. Títulos e ações podem perder valor, e quedas podem se aprofundar em momentos de pânico. Esta análise não é recomendação de investimento.
Como fizemos: Usamos o Relatório Mensal da Dívida do Tesouro Nacional de junho de 2026, citado pelo Metrópoles em 29/07/2026, e a revisão do Plano Anual de Financiamento de 26/08/2026, citada pela Agência Brasil. O cálculo de R$ 45 bilhões é nosso: R$ 9,2 trilhões × 49,32% × 1 ponto percentual, em valores de junho de 2026. Só considera a parte atrelada à Selic, sem novas emissões nem vencimentos. Os juros futuros são o fechamento das 18h de 26/10/2026, segundo a InfoMoney, acessado em 26/10/2026. Juros futuros são expectativas de mercado, não o juro que o governo paga.
Fontes
- Ibovespa hoje: ao vivo, 26/10/2026 — InfoMoney (acesso em 26/10/2026)
- Dívida pública federal atingiu R$ 9,2 trilhões em junho de 2026 — Metrópoles
- Até 53% da Dívida Pública Federal poderá ser corrigida pela Selic — Diário do Comércio (Agência Brasil)
- Confira a íntegra do orçamento de 2027 e veja os principais números — Congresso em Foco
- Cada ponto na Selic custa R$ 68,9 bilhões — Jornal do Brasil (coluna)
- Imagens de Brasília (52652558481): Ministério da Fazenda, foto de Pedro França / Agência Senado — Wikimedia Commons (CC BY 2.0) (foto da imagem principal, acesso em 26/10/2026)



