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Orçamento

Orçamento de 2027 deixa saúde no piso exato e educação com folga

O piso da saúde é 15% da receita corrente líquida, e o da educação, 18% da receita de impostos. Veja os valores e a disputa.

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília, com as duas torres e as cúpulas do Senado e da Câmara sob céu azul.
Fachada do Congresso Nacional, em Brasília, onde o Orçamento da União é analisado e votado.Foto: Senado Federal / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 31 de agosto de 2026, o governo enviou ao Congresso o projeto de Orçamento de 2027. Pelo texto, a saúde recebe R$ 272,2 bilhões. A Agência Gov descreve esse valor como “equivalente ao piso para a área”.

A educação recebe R$ 141,2 bilhões, cerca de R$ 2,4 bilhões acima do seu piso, que é de R$ 138,8 bilhões. Os pisos acompanham a receita do governo. Por isso, entram em disputa quando as contas apertam.

O que são os pisos

Piso é o gasto mínimo que a Constituição obriga a União a fazer. Na saúde, o governo federal deve aplicar pelo menos 15% da receita corrente líquida (RCL), a principal base de arrecadação da União. Na educação, o mínimo é 18% da receita líquida de impostos, segundo a Folha de Pernambuco, que reproduziu reportagem do O Globo.

O teto de gastos, criado em 2016, corrigia esses pisos só pela inflação. O fim do teto restabeleceu as regras originais, segundo a mesma reportagem. Há também o Fundeb, fundo que financia a educação básica. Pela Emenda Constitucional (EC) 108/2020, o repasse da União ao fundo chega a 23% em 2026.

Quanto vale

A tabela mostra os valores de cada ano, segundo as fontes consultadas.

Pisos da saúde e da educação, em R$ bilhões nominais Valores sem correção pela inflação. 2026: texto aprovado pelo Congresso em dezembro de 2025. 2027: projeto enviado em 31 de agosto de 2026.

Piso 2026 2027
Saúde (15% da RCL) 247,5 (piso); 254,9 (destinado) 272,2 (previsto, igual ao piso)
Educação (18% da receita de impostos) 135,6 (aplicação mínima) (a); 200,5 (destinado) (a) 138,8 (piso); 141,2 (previsto)

(a) O relatório cita R$ 200,5 bilhões e 18% da receita líquida de impostos, sem explicar a diferença para R$ 135,6 bilhões.

Fonte: DGABC, com dados do relatório aprovado pelo Congresso (dezembro de 2025); Agência Gov, projeto de 2027 (1º de setembro de 2026). Elaboração: redação.

Os pisos são percentuais da receita, não uma fatia fixa do orçamento. Por isso, o peso no total muda a cada ano. Não calculamos essa fatia, porque não obtivemos a RCL nem a receita de impostos de 2026 e 2027 em fonte primária.

Em valores nominais, o valor destinado à saúde sobe 6,8%, de R$ 254,9 bilhões para R$ 272,2 bilhões. Em 2026, o governo incluiu no piso R$ 5,177 bilhões em despesas que a consultoria de orçamento da Câmara questiona: R$ 4,29 bilhões em precatórios, que são dívidas reconhecidas por decisão judicial, e R$ 884 milhões da Anvisa, segundo a Folha de Pernambuco.

Por que os pisos estão em disputa

Quem defende desvincular os pisos diz que eles travam o orçamento. Rodrigo Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (FIN), disse em junho de 2025 que o Congresso aprovaria a medida, se o governo apoiasse. Ele estimou espaço fiscal de R$ 17 bilhões em 2026, segundo a Folhapress.

O governo avalia que o efeito de curto prazo seria pequeno, segundo a mesma reportagem. Em abril de 2025, o secretário de Orçamento do Ministério do Planejamento, Clayton Montes, disse: “É um número que não comporta todas as necessidades do Executivo”. A frase se referia a projeções do Orçamento de 2027 feitas naquele ano, segundo o O Globo.

Economistas ouvidos pelo Mercado&Consumo levantam outro ponto. O professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz que cerca de 90% das despesas primárias federais são obrigatórias, incluindo os pisos. Maria Lourdes Mollo, professora da Universidade de Brasília (UnB), afirma que cortes amplos não passam sem afetar a área social, incluindo o que vai para educação e saúde.

Em outubro, a Folha de S.Paulo relatou que a equipe econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) estuda o fim dos pisos, com correção só pela inflação. A campanha disse que as discussões não são posição oficial, segundo o Diário de Pernambuco. Flávio disse, segundo o Estadão Conteúdo publicado pelo O Liberal, que não vai alterar os pisos de saúde e educação.

Há ainda dois pontos abertos. Em 28 de julho, a imprensa informou que o Tribunal de Contas da União (TCU) vai analisar a inclusão de precatórios no piso da saúde de 2026. O julgamento não tem prazo. Em 28 de agosto, o presidente Lula sancionou a Lei Complementar (LC) 235, que proíbe contabilizar receitas de petróleo no cálculo das receitas ligadas à RCL, segundo o DGABC. As fontes consultadas não quantificam o efeito dessa lei sobre o piso da saúde.

O que diz o Ministério da Fazenda: Perguntado sobre o fim dos pisos da saúde e da educação e sobre a desvinculação das aposentadorias do salário mínimo, o ministro Dario Durigan respondeu “Não está”, segundo o Estadão Conteúdo, publicado pelo O Liberal em 9 de julho de 2026. Não houve contato direto para este texto.

O que isso significa

Os números mostram o centro da disputa. Os pisos crescem com a receita e reduzem a margem para o restante do gasto. Quem quer desvinculá-los vê nisso um problema de rigidez. Economistas ouvidos pelo Mercado&Consumo afirmam que cortes amplos atingiriam a área social.

Ainda não há decisão. O projeto de 2027 será analisado pelo Congresso. O TCU não tem prazo para julgar os precatórios, e o efeito da LC 235 não está calculado. A escolha sobre os pisos cabe ao Congresso e ao próximo governo.

Como fizemos: Usamos a reportagem da DGABC sobre o relatório do Orçamento de 2026, a nota da Agência Gov sobre o projeto de 2027, e reportagens citadas neste texto, acessadas em 24 de outubro de 2026. Os valores são nominais, sem correção pela inflação. A alta de 6,8% é nossa conta: R$ 272,2 bilhões divididos por R$ 254,9 bilhões. Não tivemos acesso ao texto da lei sancionada nem ao Siop, o sistema de dados do orçamento federal, e por isso não calculamos o peso dos pisos no orçamento total.

Fontes