Agora
  1. Flávio ataca Nunes Marques e repete suspeita sem prova
  2. Lula estuda 40 ministérios e superaria recorde de Dilma
  3. Damares apoia Tereza e amplia disputa pela Presidência do Senado
  4. Sidônio nega pedido para deixar Secom após reportagem

Tribuna

Lei de transição não vale na reeleição; balanço público cobriria a lacuna

A lei de 2002 garante equipe e dados ao eleito, mas não vale na reeleição; em 2026, são 72 dias entre a votação e a posse.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

A presidente eleita recebe a faixa presidencial das mãos do presidente que deixa o cargo, no parlatório do Palácio do Planalto, sob o olhar de um fotógrafo.
Passagem da faixa presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva a Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto, em Brasília, em 1º de janeiro de 2011 (imagem de arquivo).Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

No domingo, 25 de outubro, o país escolhe no segundo turno quem governará a partir de 5 de janeiro de 2027. A data da posse foi fixada pela Emenda Constitucional (EC) 111, de 2021. Entre a votação e a posse são 72 dias, tempo curto para uma tarefa que pouca gente vê: a transição.

Esta coluna não toma partido na eleição. Defende uma ideia que vale para qualquer resultado: uma passagem de comando organizada é um teste de maturidade das instituições. A regra atual tem um ponto cego: ela não vale quando o presidente se reelege.

O que a lei garante

A Lei 10.609, de 2002, permite ao presidente eleito montar uma equipe de transição. Ela cria 50 Cargos Especiais de Transição Governamental (CETG), postos que só existem durante a passagem de governo. Esses cargos podem ser ocupados a partir do segundo dia útil após o turno decisivo, o que em 2026 cai em 27 de outubro.

Os órgãos federais são obrigados a fornecer as informações que o coordenador da equipe pedir. O Decreto 7.221, de 2010, lista o que a equipe pode consultar: contas públicas, estrutura dos ministérios e decisões urgentes dos primeiros quatro meses. Quem assina as nomeações é Miriam Belchior, ministra da Casa Civil, pasta que coordena os ministérios.

Como foram as últimas transições

A primeira transição regulada foi a de 2002, de Fernando Henrique Cardoso para Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a Rádio Senado, o consultor Gilberto Guerzoni avaliou que aquele “foi um processo bastante elogiado até pela maturidade democrática”.

Em 2022, mesmo depois de uma campanha tensa, o rito funcionou. A nomeação do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, como coordenador da equipe saiu no Diário Oficial, a publicação oficial do governo, em 4 de novembro. Foram cinco dias depois do segundo turno, realizado em 30 de outubro. Quem assinou foi o então ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira.

Em 2026, a posse vem 72 dias após o segundo turno, 9 a mais que em 2022 Dias corridos entre a votação do segundo turno e a posse do presidente eleito, em 2022 e 2026

Etapa 2022 2026
Dias entre o segundo turno e a posse 63 72
Segundo turno 30 de outubro 25 de outubro
Posse do presidente eleito 1º de janeiro de 2023 5 de janeiro de 2027

Fonte: Constituição Federal, arts. 77 e 82; Agência Brasil (2022); Diário do Nordeste (2026). Contagem de dias: redação.

A tabela mostra que a eleição de 2026 cai cinco dias antes da de 2022. A posse, porém, cai em 5 de janeiro, quatro dias depois da de 2022. Juntas, as duas mudanças somam nove dias a mais para a transição.

A lacuna da reeleição

Há, porém, um ponto cego. O artigo 9º da lei diz que ela não se aplica em caso de reeleição. Se o atual presidente vencer, não haverá equipe, coordenador nem pedido formal de informações. Sem coordenador, também não há quem peça os dados que, pela lei, os órgãos federais são obrigados a fornecer.

O que diz a Casa Civil: A reportagem não localizou manifestação oficial da Casa Civil sobre a lacuna da reeleição nas fontes consultadas. Na lei, a regra está no artigo 9º: ela “não se aplica no caso de reeleição de Presidente da República”.

O argumento faz sentido para a equipe e os cargos, que não teriam função sem uma troca de comando. Mas um balanço público não serve só a quem chega. Serve a quem paga a conta e quer saber em que estado o país começa o novo mandato.

O que isso significa

Em 2002 e em 2022, o rito funcionou, e a lei fixa prazos claros. O que falta é uma regra para a reeleição. Esta é a opinião da autora: o Congresso poderia corrigir a lacuna com uma regra simples.

Em qualquer cenário, o governo que encerra o mandato publicaria, até a posse, um balanço oficial das contas, dos contratos e das decisões pendentes. Esse documento serviria ao novo governo, ao Congresso e ao eleitor. O primeiro passo cabe a quem disputa o voto: quem perder deve reconhecer o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral. Quem vencer deve tratar a transição como dever de Estado, e as instituições terão passado em mais um teste.

Como fizemos: Usamos a Lei 10.609/2002, o Decreto 7.221/2010 e os artigos 77 e 82 da Constituição, consultados em 21 de outubro de 2026, e checamos datas e nomes em reportagens e páginas do governo. Os prazos são dias corridos entre a votação e a posse; o dia útil de 27 de outubro foi contado sem feriados nacionais. Como o site do Planalto não respondeu nesta checagem, o texto da lei foi conferido na cópia do Senado. Os dados não mostram como cada transição foi conduzida na prática nem o que a Casa Civil fará em 2026.

Fontes