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Tribuna

Os críticos de Flávio em maio mudaram de lado. Os fatos, não

Quatro dos críticos citados em maio já apoiam Flávio no segundo turno, e ele passou a ser investigado no caso Dark Horse.

Este texto integra a Tribuna, nosso espaço de análise assinada. As ideias são do autor e não representam necessariamente a posição do Jornal da Pátria.

Romeu Zema, de óculos, terno escuro e gravata, fala diante de microfones de várias emissoras; atrás dele, um homem de barba grisalha observa.
Romeu Zema, então governador de Minas Gerais, concede entrevista no Senado, em Brasília, em 17 de dezembro de 2024.Foto: Andressa Anholete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 13 de maio, veio a público o áudio em que Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. A direita reagiu no mesmo dia. Romeu Zema, do Partido Novo, disse que ouvir a cobrança era “imperdoável” e “um tapa na cara dos brasileiros de bem”.

Kim Kataguiri (Missão) foi além: “A direita brasileira não pode ser refém de bandido”, disse ao O Antagonista. Cinco meses depois, Zema apoia Flávio no segundo turno, e Kataguiri continua sem apoiar. Esta é uma coluna de opinião sobre o que mudou desde maio. A resposta curta: nada que favoreça Flávio.

Flávio confirmou o pedido e disse que era patrocínio privado para um filme sobre o pai. Na rachadinha, esquema de devolução de parte do salário de assessores na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), ele foi denunciado em novembro de 2020. Nunca foi julgado: em 2022 o caso foi arquivado, depois de o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anular provas. A anulação se deu porque o juiz de primeira instância não tinha competência.

Quem mudou de posição

Em 19 de junho, Zema disse, segundo a CNN Brasil, que não podia aplaudir quem se aproximou de Vorcaro. Em 5 de outubro, declarou apoio a Flávio: “Voto contra o PT, voto no Flávio Bolsonaro.” PT é o Partido dos Trabalhadores. Hoje, Zema justifica o apoio com outra frase: “o inimigo é um só”.

Ronaldo Caiado, do Partido Social Democrático (PSD), chamou de “inaceitável”, em julho, o pedido de Flávio para adiar tarifas americanas. Em agosto, disse que os escândalos deixaram a candidatura dele “comprometida”. Já Silas Malafaia disse em janeiro não ver “musculatura” em Flávio. Em agosto, declarou apoio, mas avisou que não organizaria atos de campanha, segundo a Poder360.

Augusto Cury, que ficou em terceiro no primeiro turno, anunciou apoio a Flávio em 8 de outubro, com condições. Gilberto Kassab, do PSD, disse em agosto que a chance de vitória de Flávio era “zero”, e o partido ficou neutro no segundo turno. A tabela resume as posições. Não localizamos posição de Kataguiri nem de Joice Hasselmann sobre o segundo turno.

Quatro dos críticos citados já apoiam Flávio no segundo turno Posição declarada por cada nome, até 21 de outubro de 2026

Nome Posição no segundo turno Data
Romeu Zema (Novo) Apoia Flávio 5 de outubro
Ronaldo Caiado (PSD) Apoia Flávio 6 de outubro
Augusto Cury (Avante) Apoia Flávio, com condições 8 de outubro
Silas Malafaia Apoia Flávio, sem organizar atos 18 de agosto
Gilberto Kassab (PSD) Partido neutro 4 de outubro
Renan Santos (Missão) Liberou os eleitores 7 de outubro
Kim Kataguiri (Missão) Posição não localizada —
Joice Hasselmann Posição não localizada —

Fonte: reportagens citadas em Fontes (Poder360, CNN Brasil, O Povo, Tribuna de Jundiaí, SBT News, Diário de Pernambuco, DGABC, O Liberal e Band). Elaboração: redação.

O que mudou nos fatos

Em 22 de julho, Flávio foi incluído como investigado no inquérito do caso Dark Horse, a pedido da Polícia Federal (PF). O caso está ligado a um filme sobre Jair Bolsonaro. As suspeitas são de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Ele nega ter recebido vantagens.

No Jornal Nacional, em 28 de agosto, Flávio disse que os detalhes do contrato já tinham sido apresentados. A Agência Lupa classificou a afirmação como falsa. O Aos Fatos contou ao menos 43 declarações enganosas de Flávio sobre o caso, em levantamento de 24 de setembro.

Na quinta-feira (15), a PF prendeu preventivamente Márcio Canella, aliado a quem Flávio tinha dado “apoio integral, 100%”, em vídeo de abril. Segundo a CNN Brasil, Flávio disse ter sido surpreendido com a prisão.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele confirmou o pedido a Vorcaro e disse que era “patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai”, sem contrapartida e sem dinheiro público. Afirmou não ter recebido dinheiro ou vantagem e não detalhou valores, segundo a Poder360, que publicou a nota em 13 de maio. Sobre Canella, disse ter sido surpreendido com a prisão, segundo a CNN Brasil.

O que isso significa

Por que tantos críticos mudaram de lado? A coluna responde: o segundo turno virou um plebiscito sobre o PT, e o antipetismo pesa mais que o áudio. É uma escolha legítima, e nenhum dos nomes com posição localizada apoia Lula. Mas o apoio veio do cálculo, não da convicção. Uma pesquisa Nexus/BTG citada pela Gazeta do Povo diz que 41% dos eleitores de Cury e 30% dos de Renan Santos consideram votar em Lula.

O segundo turno é em 25 de outubro, e os dados mostram um quadro que não melhorou para Flávio desde maio. Há investigação aberta e checagens negativas, mas nada disso é condenação. Para o eleitor de direita em dúvida, a pergunta fica no ar: se era imperdoável antes, o que tornou perdoável agora? Ninguém precisa gostar de Lula para levar a sério o que a própria direita disse.

Como fizemos: Esta coluna usa declarações e checagens publicadas entre 13 de maio e 24 de setembro de 2026, conferidas em reportagens e nos sites da Agência Brasil, da Agência Lupa e do Aos Fatos, acessados em 21 de outubro de 2026. A única conta própria é o intervalo de cinco meses entre 13 de maio e 16 de outubro; os percentuais, as datas e o total de 43 declarações são os publicados pelas fontes, e o Aos Fatos não traz lista item a item. Não localizamos a pesquisa Nexus/BTG citada nem as frases atribuídas a Zema (“o inimigo é um só”) e a Kataguiri (“não pode ser refém de bandido”); elas seguem atribuídas às reportagens que as publicaram. As posições valem até 21 de outubro e não mostram o que cada político pensa em privado.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que Augusto Cury seguia sem apoiar Flávio. Ele anunciou apoio em 8 de outubro, com condições. O texto também atribuía a Malafaia, em janeiro, a expressão “não empolgou”, que é da reportagem da SBT News; a fala dele foi “Não vejo Flávio Bolsonaro com musculatura”. Por fim, as provas da rachadinha foram anuladas por incompetência do juízo de primeira instância, não por “falhas de procedimento”.

Fontes